Capítulo 15

1188 Palavras
Raya O céu acima de mim brilhava em tons suaves de dourado, uma imensidão que parecia se estender infinitamente. O ar era leve, puro, diferente da atmosfera densa e carregada de poder do Inferno. Mas, apesar de toda essa beleza, eu me sentia presa. O castelo celestial era luxuoso, sim, mas uma gaiola dourada ainda era uma gaiola. Era por isso que, quando Mikhail sugeriu uma escapada, minha alma rebelde gritou para que eu aceitasse. Caminhamos pelas passagens amplas do castelo, Seraphiel liderando com sua postura impecável, enquanto Mikhail assobiava tranquilamente ao meu lado. Seu ar despreocupado contrastava com a tensão discreta no rosto de Seraphiel. Eu sabia que ele não estava confortável com isso, mas também percebia que, no fundo, queria me dar essa liberdade momentânea. "Então, onde exatamente vamos?" perguntei, mantendo minha voz baixa, como se Valkar pudesse surgir a qualquer momento. Mikhail sorriu. "Temos alguns lugares interessantes para visitar. Mas acho que você vai gostar do Jardim das Nebulosas. É um dos pontos mais bonitos do Céu." "E um dos mais vazios," acrescentou Seraphiel. "O que é bom para nós, já que não queremos chamar atenção." Continuei andando ao lado deles, mas meu olhar deslizou de relance para trás. Eu sabia que Valkar estava nos observando. Seu olhar era como um peso constante sobre mim, sempre avaliando, sempre julgando. Mas, para minha surpresa, ele não nos seguiu. Ele simplesmente permaneceu no mesmo lugar, seu olhar fixo enquanto nos afastávamos. Um sorriso cresceu em meus lábios. Talvez ele estivesse finalmente percebendo que eu não era uma ameaça. O caminho para o Jardim das Nebulosas era diferente de tudo que eu já tinha visto. Conforme nos afastávamos do castelo, a paisagem ia mudando. O chão branco reluzente dava lugar a uma ponte translúcida que parecia flutuar sobre um oceano de nuvens douradas. Meu coração acelerou. Era lindo. Mikhail percebeu minha expressão e riu. "Impressionante, não? Aposto que nunca viu algo assim no Inferno." Revirei os olhos. "Definitivamente, não temos isso por lá. Mas temos outras belezas. Rios de lava brilhante, rios rosas, montanhas escuras com cristais incandescentes. É um tipo diferente de majestade." "Eu gostaria de ver um dia," Mikhail disse, quase distraído. "Claro, se não fosse um território tão hostil." Soltei um pequeno riso. "Não é tão r**m assim. Tudo depende de quem você conhece." Ao atravessarmos a ponte, o Jardim das Nebulosas surgiu diante de nós. Era um campo extenso, coberto por plantas luminosas que pareciam feitas de pura luz. Pequenos orbes flutuavam no ar, pulsando em tons suaves de azul e violeta. Uma névoa dourada cobria o solo, dando ao lugar uma aparência etérea. Eu estava maravilhada. "É lindo," murmurei, girando lentamente para absorver cada detalhe. Seraphiel sorriu de leve. "É um dos lugares mais tranquilos daqui. Poucos anjos vêm até aqui, o que torna esse espaço perfeito para algum tempo de paz." Mikhail esticou os braços e se jogou na grama luminosa. "Eu diria que é um ótimo lugar para relaxar e esquecer dos problemas." Suspirei, sentando-me ao lado dele. "Se ao menos fosse tão fácil esquecer." Seraphiel sentou-se mais próximo e me olhou com gentileza. "Você sente falta deles, não sente?" Balancei a cabeça lentamente. "Sim. Todos os dias. Eu sabia que essa seria a consequência da minha escolha, mas isso não torna mais fácil." Engoli em seco. "Minha mãe provavelmente está furiosa. Meu pai... ele não demonstraria, mas eu sei que está sofrendo. E Dagon..." Meu peito apertou ao pensar nele. Meu avô, meu protetor. Meu mentor. O homem que sempre esteve ao meu lado, me guiando. Eu podia quase ouvir sua voz, me chamando de teimosa, dizendo que eu nunca deveria ter feito esse acordo. "Ele foi como um segundo pai para você?" Mikhail perguntou, sua voz mais suave do que o normal. Assenti. "Sim. Ele me treinou desde pequena, me ensinou a lutar, a me defender. Ele sempre esteve lá. E agora..." Mordi o lábio. "Agora ele não pode fazer nada." Seraphiel colocou uma mão sobre meu ombro, um gesto discreto, mas reconfortante. "Você é forte, Raya. E tenho certeza de que eles sabem disso." Ficamos em silêncio por alguns instantes, apenas observando o brilho das nebulosas ao nosso redor. Eu sentia um calor confortável nessa tranquilidade. Era um raro momento de paz em meio ao caos da minha situação. Mas, é claro, a paz nunca durava muito tempo. Um forte bater de asas cortou o ar, e todos nós nos viramos ao mesmo tempo. Um grupo de anjos se aproximava, suas expressões nada amigáveis. Eu senti meus músculos enrijecerem imediatamente. "O que está acontecendo aqui?" um deles perguntou, sua voz firme. Seraphiel se levantou primeiro, mantendo a compostura. "Estamos apenas aproveitando o Jardim das Nebulosas. Não há nenhuma violação de regras aqui." Os anjos trocaram olhares, claramente desconfiados. "Vocês sabem que isso não parece apropriado. Uma refém caminhando livremente? Isso não é aceitável." Mikhail revirou os olhos, levantando-se com um suspiro exagerado. "Ah, por favor. Raya não é uma prisioneira em correntes. Ela está sob nossa supervisão, o que significa que está segura. Não há nada de errado em deixá-la respirar um pouco." Os anjos não pareciam convencidos. Seus olhares pousaram em mim, e eu segurei o impulso de cruzar os braços defensivamente. Eu odiava ser vista como algo perigoso apenas por existir. "Se há um problema, podem levá-lo a Valkar," Seraphiel disse, sua voz firme. Os anjos hesitaram, mas no final, apenas trocaram olhares e se afastaram. Eu soltei a respiração que nem percebi que estava segurando. "Eles são insuportáveis," murmurei. Mikhail sorriu. "Eles apenas têm medo do desconhecido. E você é a coisa mais desconhecida que eles já viram." Seraphiel suspirou. "É melhor voltarmos antes que alguém crie mais problemas." Eu não queria admitir, mas ele estava certo. Levantamo-nos e começamos a caminhar de volta. O trajeto foi silencioso, e minha mente girava com pensamentos confusos. Eu sabia que meu tempo ali nunca seria fácil, mas momentos como esse me lembravam do quanto eu realmente não pertencia àquele lugar. Quando finalmente chegamos ao castelo, uma figura alta e imponente nos esperava na entrada. Valkar. Ele estava parado com os braços cruzados, seu olhar afiado como uma lâmina. Seu rosto era impassível, mas eu sentia a tempestade de julgamento em seu olhar. "Então," sua voz soou fria, cortante. "Decidiram que podiam levar uma refém para passear sem minha autorização?" Mikhail sorriu inocentemente. "Ora, Valkar, não foi nada demais. Apenas um pequeno passeio." "E se algo tivesse acontecido?" Valkar retrucou, sua voz carregada de irritação. Seu olhar passou por Seraphiel, depois por Mikhail, e por fim se fixou em mim. "E você, demônio, achou que poderia simplesmente sair sem consequências?" Cruzei os braços, levantando o queixo. "Eu estava sob supervisão. E como pode ver, estou perfeitamente bem." Os olhos de Valkar se estreitaram, mas ele não disse mais nada. Apenas respirou fundo, como se estivesse contendo um impulso violento. "Dentro. Agora. Todos vocês." Com um suspiro, seguimos para dentro do castelo. Eu sabia que uma longa bronca estava a caminho. Mas, por algum motivo, a satisfação de ter tido um pouco de liberdade tornava tudo isso completamente válido.
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