Raya
O amanhecer trouxe um céu tingido de dourado e azul suave, mas para mim, significava apenas uma coisa: meu primeiro dia sob a "tutela" de Valkar. Se é que poderia chamar assim. Eu ainda não sabia o que esperar, mas alguma coisa me dizia que ele tornaria tudo o mais difícil possível.
Quando cheguei ao pátio de treinamento, ele já estava lá, como se tivesse passado a noite inteira esperando. Seu olhar frio e avaliador percorreu meu corpo dos pés à cabeça, como se estivesse decidindo se eu era digna de estar ali. Eu revirei os olhos, cruzando os braços.
“Você age como se estivesse me fazendo um grande favor,” murmurei.
“E estou.” Sua resposta foi seca. “Demônios não têm lugar aqui, mas já que insistiu, vou garantir que saiba exatamente onde pisa.”
“m*l posso esperar,” resmunguei.
Ele ignorou meu sarcasmo e jogou algo na minha direção. Instintivamente, estendi as mãos e agarrei o objeto. Era uma espada de madeira, leve, mas bem equilibrada.
“Vamos começar com o básico.” Ele se posicionou em frente a mim, segurando sua própria espada de madeira. “Mostre-me o que sabe.”
Um sorriso surgiu nos meus lábios. Ele realmente queria ver do que eu era capaz? Ótimo. Segurei a espada com firmeza e ataquei.
Mas, em um piscar de olhos, Valkar desviou. Ele nem parecia se esforçar. Eu tentei novamente, girando a lâmina para acertá-lo pela lateral, mas mais uma vez, ele se esquivou com uma facilidade irritante.
“Lenta demais,” ele comentou.
Mordi o lábio e continuei, tentando diferentes ângulos, diferentes ritmos. Mas era inútil. Cada ataque era esquivado ou bloqueado como se eu fosse uma criança brincando com um galho. Em poucos segundos, ele golpeou minha espada com força suficiente para fazê-la voar das minhas mãos.
“Isso foi patético.”
Bufei, pegando a espada do chão. “Você está pegando leve comigo.”
“Estou.” Ele confirmou sem hesitação. “E ainda assim, está falhando.”
Aquela foi uma facada no meu orgulho. Eu não era uma guerreira qualquer. No Inferno, eu era respeitada pela minha força. Mas aqui…
Apertei os punhos. “Então me ensine direito.”
Ele ergueu uma sobrancelha. “Veremos se tem mesmo determinação.”
E assim começou um treinamento exaustivo. Valkar não mostrava misericórdia, corrigia cada erro com precisão cirúrgica e não hesitava em apontar minha fraqueza. Por horas, treinamos ataques e defesas. Cada golpe meu era calculado, cada esquiva dele era impecável.
Quando finalmente fizemos uma pausa, minha respiração estava irregular e meu corpo dolorido. Ele, por outro lado, parecia tão composto quanto quando começamos.
“Não é r**m para uma princesa,” ele admitiu.
Eu me joguei no chão, exausta. “Isso foi um elogio?”
Ele não respondeu. Apenas cruzou os braços e me observou. O silêncio entre nós foi estranho, quase confortável, até que ele finalmente quebrou:
“Por que insistiu nisso?”
Olhei para ele, surpresa. “No treinamento?”
Ele assentiu.
Suspirei e olhei para o céu. “Porque estou cansada de ser tratada como um peso morto. Eu já perdi muito vindo para cá. Minha liberdade, minha família. Se eu perder minha força também, o que me resta?”
Por um instante, Valkar apenas me observou. Depois, desviou o olhar, como se minhas palavras tivessem o afetado mais do que ele gostaria de admitir.
“Descanse. Amanhã, continuamos.”
E com isso, ele se afastou. Mas eu senti que algo entre nós tinha mudado naquele momento. Algo pequeno, quase imperceptível. Mas real.
(...)
O sol ainda nem havia nascido por completo quando me levantei, determinada a colocar Valkar contra a parede com meu pedido. Não era nem um pedido, na verdade. Era uma necessidade.
Eu precisava de roupas.
Poderia muito bem sair pelos corredores com a mesma vestimenta de sempre, mas aquilo estava começando a me incomodar. Além disso, Valkar era o responsável por mim, não era? Ele que cuidasse disso.
Quando o encontrei, ele já estava de pé, organizando alguns papéis em uma mesa de pedra. Como ele conseguia acordar tão cedo e já parecer tão… rígido?
"Bom dia, Valkar," falei, colocando as mãos na cintura.
Ele levantou os olhos e me analisou com aquele olhar sempre sério. "O que foi agora?"
"Preciso de roupas. Não posso ficar usando isso o tempo todo."
"Não vejo necessidade. Você já tem roupas."
Cruzei os braços, indignada. "Sério? Eu sou uma refém, não uma prisioneira indigente. Ou você quer que eu saia descalça e parecendo que uso os mesmos trapos todos os dias?"
Ele suspirou, como se estivesse reunindo paciência. "Não é tão simples levar uma demônia para a cidade celestial."
"Mas você pode resolver isso. Você é um Serafim, não é? Ninguém vai questionar suas ordens." Inclinei a cabeça, estudando sua expressão. "Ou está com medo de ser visto comigo?"
Valkar me lançou um olhar irritado. "Não seja ridícula."
"Então vamos. Agora. Você é meu responsável, certo? Isso faz parte das suas obrigações."
Ele passou uma mão pelo rosto, claramente contrariado. "Você não vai desistir, vai?"
Sorri vitoriosa. "Nem um pouco."
Foi assim que, contra sua vontade, Valkar me escoltou até a cidade celestial. As ruas eram impecáveis, com construções brancas que pareciam feitas de luz. Anjos passavam, alguns nos lançando olhares curiosos—ou desconfiados, no meu caso. Eu podia sentir os sussurros e os olhares reprovadores. Ótimo. Como se já não fosse desconfortável o suficiente.
Entramos em uma loja de vestimentas, onde anjas trabalhavam organizando tecidos e ajudando clientes. Assim que entrei, o silêncio caiu por um breve momento. Ignorei e fui até uma fileira de vestidos, tocando os tecidos macios.
"Escolha rápido," Valkar disse, cruzando os braços perto da entrada.
"Você tem mesmo zero paciência, hein?" Revirei os olhos e continuei minha busca. Peguei algumas peças e fui até um provador. Quando saí, Valkar me olhava com uma expressão indecifrável.
"O que foi?"
Ele desviou o olhar. "Nada. Só escolha e termine logo."
Eu podia jurar que ele parecia um pouco desconfortável. Interessante.
Depois de finalmente escolher algumas roupas (e fazer Valkar pagar, é claro), voltamos pelas ruas. Meu estômago roncou alto o suficiente para chamar sua atenção.
"Sério?"
"Eu sou uma demônia, Valkar. Diferente de vocês, eu preciso comer."
Ele suspirou pesadamente. "Ótimo. Onde?"
Apontei para um pequeno restaurante com mesas ao ar livre. Ele pareceu relutante, mas me seguiu.
Sentamos em uma mesa no canto, e eu pedi algo para comer. Valkar, claro, não pediu nada.
"Isso não é desconfortável para você? Sentar e ver outra pessoa comendo?"
"Eu estou acostumado."
"Você não aproveita nada da vida, né?"
Ele me olhou com tédio. "Comer não é necessário para mim. Logo, não vejo motivo."
Balancei a cabeça, pegando um pedaço do pão macio que veio junto com minha refeição. "Você precisa aprender a relaxar um pouco, Valkar. Aposto que nunca fez nada fora das regras."
Ele ficou em silêncio por um momento, me observando. Então, murmurou: "Regras existem por um motivo."
Ri. "Claro que existem. Mas isso não significa que você precise seguir todas cegamente."
Ele não respondeu. Apenas me observou enquanto eu comia, o olhar distante. Por um momento, me perguntei o que se passava na mente dele. Mas talvez fosse melhor não saber… ainda.