Raya
O céu estava tingido de tons dourados e azulados quando deixei meus aposentos para encontrar Mikhail e Seraphiel. O castelo celestial era vasto e deslumbrante, mas para mim, continuava sendo uma prisão luxuosa. O ar puro e leve do Céu parecia zombar da saudade que eu sentia da minha casa, da liberdade de correr pelos salões infernais sem precisar me preocupar com regras e olhares julgadores.
Ao me aproximar do jardim central, avistei Mikhail encostado em uma das colunas de mármore branco. Seu sorriso largo e brincalhão apareceu assim que me viu.
"Princesa! Está cada vez mais bonita. Eu diria que o Céu está te fazendo bem."
Revirei os olhos, cruzando os braços. "Ou talvez eu apenas seja bonita em qualquer lugar."
Ele riu. "Verdade. Mas aqui você brilha um pouco mais."
Antes que eu pudesse responder à provocação, Seraphiel chegou. Diferente de Mikhail, ele sempre mantinha uma postura impecável, seu olhar calmo e analítico. Ainda assim, havia uma gentileza discreta nele.
"Raya," ele me cumprimentou com um aceno respeitoso. "Mikhail disse que queria nos reunir, mas não explicou o motivo."
Virei-me para Mikhail com as sobrancelhas arqueadas. "Ah, então essa ideia foi sua? O que você está aprontando agora?"
Mikhail colocou a mão no peito, fingindo indignação. "Eu? Aprontando? Raya, isso machuca meu coração. Só queria que tivéssemos um momento para conversar sem a sombra de um certo Serafim carrancudo pairando sobre nós."
Olhei ao redor por instinto e foi então que o vi. De longe, Valkar nos observava, seu olhar severo e fixo em nossa direção. Seu rosto era inexpressivo, mas eu sabia que ele não estava gostando nada daquela reunião. Algo dentro de mim se aqueceu com aquela constatação. Eu não podia dizer exatamente por quê, mas a ideia de irritá-lo de maneira indireta era... interessante.
"Então, Raya," Mikhail continuou, chamando minha atenção de volta para ele. "Agora que já se acostumou ao Céu, o que acha do nosso lar?"
Cruzei os braços. "Acostumar não é bem a palavra. Aceitar, talvez."
Seraphiel assentiu. "Imagino que seja difícil para você. Deve sentir falta de sua família."
Engoli em seco, desviando o olhar. "Sim. Mas não posso fazer nada a respeito. Então, prefiro não pensar muito nisso."
"Estratégia sábia," Mikhail disse. "Mas me diga, Raya, você já pensou em explorar mais o Céu?"
Franzi a testa. "Explorar?"
Seraphiel lançou um olhar de advertência para Mikhail. "Você sabe que não podemos levá-la para qualquer lugar. Valkar jamais permitiria."
Mikhail suspirou dramaticamente. "Ah, Valkar, sempre ele. Você já percebeu que ele te vigia como um falcão, Raya?"
Olhei de relance para onde Valkar estava. Ele não se mexera um centímetro. "Eu percebi. Mas ele acha que sou um perigo ambulante, então não me surpreende."
Mikhail sorriu de canto. "Talvez devêssemos testar os limites dele."
Seraphiel suspirou. "Mikhail, não comece."
"O que você tem em mente?" perguntei, curiosa.
Mikhail se aproximou, abaixando um pouco a voz como se estivesse me contando um segredo proibido. "Que tal uma pequena escapada? Nada de mais, apenas uma caminhada por lugares menos formais do Céu. Um pequeno passeio onde você possa ver outras partes desse reino."
Minha mente trabalhou rapidamente na ideia. A possibilidade de explorar algo além do castelo me pareceu tentadora, mas havia um problema evidente.
"E Valkar?" perguntei.
Mikhail deu de ombros. "Se ele quiser nos seguir, que siga. Não podemos impedi-lo. Mas duvido que ele vá interferir de verdade, desde que não façamos nada escandaloso."
Seraphiel não parecia convencido. "Isso pode trazer problemas. Se Raya for vista circulando livremente, alguns anjos podem questionar sua posição aqui. Ela ainda é considerada uma refém."
"Ou podemos dizer que ela está sob supervisão de dois arcanjos de confiança." Mikhail piscou para mim. "O que acha, princesa?"
Meu lado racional me dizia que aquilo era uma péssima ideia. Mas minha alma rebelde gritava que eu precisava disso. Então, dei um sorriso travesso.
"Vamos fazer isso."
Seraphiel fechou os olhos por um momento, claramente considerando suas opções. Por fim, soltou um suspiro resignado. "Se algo der errado, Mikhail, será você quem explicará a Valkar."
"Ah, eu adoraria." Mikhail riu e bateu palmas. "Então vamos. Antes que o senhor rabugento decida nos deter."
Olhei uma última vez para Valkar. Seu olhar ainda estava fixo em nós, mas dessa vez parecia mais estreito, como se estivesse prevendo o que faríamos.
Se ele estava incomodado antes, m*l podia esperar para ver sua reação quando percebesse que eu estava saindo da sua vista.