Raya
O vento soprava suavemente entre as árvores do jardim celestial, e eu me encontrei sentada em um dos bancos de pedra, observando o céu dourado acima de mim. O sol do Céu era diferente do Inferno. Lá, eu estava acostumada com o calor abrasador, mas aqui, a luz era suave, quase reconfortante. Ainda assim, nada podia preencher o vazio dentro de mim. Eu sentia falta de casa. Falta da minha família, dos corredores grandiosos do meu castelo, da liberdade de ir e vir sem que me dissessem o que fazer ou para onde olhar.
Sempre me disseram que, por ser uma princesa, eu seria um alvo. Mas nunca imaginei que seria no sentido mais literal possível. Agora, eu era uma prisioneira de luxo, um sacrifício para manter a paz entre o Céu e o Inferno. Minha vida não me pertencia mais.
Foi nesse momento que ouvi passos se aproximando. Olhei para o lado e vi Mikhail, um sorriso brincalhão nos lábios e aquele brilho travesso no olhar.
“Por que uma princesa tão linda está com essa cara tão triste?” ele perguntou, sentando-se ao meu lado sem cerimônia.
Suspirei, sem vontade de responder, mas ele não parecia do tipo que aceitaria silêncio como resposta.
“Eu sei que você sente falta de casa,” continuou ele, inclinando-se para me olhar nos olhos. “Mas você não pode ficar assim para sempre. O Céu pode não ser o Inferno, mas não é tão r**m assim.”
“Para você, talvez não,” murmurei. “Você pertence a este lugar.”
Ele soltou um riso suave. “Ah, Raya, Raya… Você tem que parar de se fechar assim. O mundo não é tão c***l quanto parece.”
Antes que eu pudesse retrucar, ele jogou um braço despreocupadamente sobre meus ombros, me puxando um pouco para mais perto. “Olha só, vou te contar um segredo. Você está fazendo os anjos ficarem tensos. Uma princesa demônio sentada aqui, toda melancólica… Eles devem estar achando que você está planejando alguma fuga dramática ou, sei lá, lançar uma maldição sobre o jardim.”
Ele riu, claramente se divertindo com a própria piada, mas eu só consegui revirar os olhos.
Foi então que uma voz fria cortou o ar.
“Raya. Afaste-se dele.”
Meu corpo ficou tenso antes mesmo de virar a cabeça para encarar Valkar. Ele estava parado a poucos metros de distância, seus olhos azul-gélidos fixos em nós com uma expressão impassível, mas sua voz carregava um tom de autoridade que era impossível ignorar.
Mikhail suspirou dramaticamente e tirou o braço do meu ombro com lentidão exagerada. “Sério, Valkar? Nós só estamos conversando.”
“Regras são regras.” Valkar cruzou os braços, sua postura rígida como sempre. “Se aproximar assim de alguém do sexo oposto é contra as normas do Céu.”
Franzi a testa. “Contra as normas?”
“Ou talvez,” ele continuou, estreitando os olhos, “você esteja tentando seduzir Mikhail para escapar.”
Meu rosto ficou completamente vermelho. “O quê?”
“Valkar, por favor,” Mikhail interveio, rindo um pouco. “Não seja tão paranoico. Eu só estava tentando animá-la. Ela parecia triste, e eu apenas quis ajudá-la.”
Valkar ignorou completamente Mikhail e manteve seus olhos fixos em mim. Eu senti meu coração martelar no peito, a vergonha subindo pela minha garganta como um incêndio incontrolável.
Eu me levantei tão rápido que quase tropecei. Sem dizer mais nada, girei nos calcanhares e corri para longe dali, sentindo meu rosto arder.
Tudo o que eu queria era sumir.
(...)
O vento ainda soprava suave quando parei de correr. Minhas pernas tremiam, meu coração martelava contra o peito, e minha mente fervia de pensamentos embaralhados. Como Valkar podia dizer aquilo? Como ele podia insinuar que eu queria seduzir Mikhail para escapar? Só de lembrar, meu rosto queimava de vergonha.
“Que droga,” murmurei, cruzando os braços e chutando uma pedrinha no chão.
“Falando sozinha, princesa?”
Virei-me bruscamente e vi Mikhail encostado em uma árvore próxima, os braços cruzados e um sorriso divertido nos lábios. Eu não sabia se queria bater nele ou se esconder.
“Me deixe em paz,” resmunguei, desviando o olhar.
Ele riu e caminhou até mim, parando a uma distância segura. “Se eu fosse deixar você em paz, estaria quebrando minha promessa de animá-la. Além disso, Valkar está furioso. Parece que sua fuga dramática deixou ele ainda mais irritado.”
Revirei os olhos. “Por que isso não me surpreende?”
Mikhail deu de ombros. “Valkar tem uma maneira peculiar de lidar com as coisas. Ele segue as regras como se fossem gravadas na pele dele.”
“Eu percebi.” Soltei um suspiro frustrado. “Mas o que me incomoda é que ele realmente acha que eu tentaria seduzir alguém para fugir. Isso é um absurdo!”
Mikhail segurou o queixo, fingindo refletir. “Bom, você é muito bonita, então eu entendo por que ele pensaria assim.”
“Não me ajuda!” Bati no braço dele, fazendo-o rir.
“Tá bom, tá bom! Brincadeiras à parte, Valkar tem um jeito todo especial de ver o mundo. Ele foi treinado para isso. Desconfiança, disciplina, obediência cega. Aposto que ele nunca quebrou uma única regra na vida.”
“Isso não significa que ele tem o direito de me tratar desse jeito.” Cruzei os braços, ainda sentindo o calor da humilhação.
“Não mesmo,” Mikhail concordou. “Mas talvez você possa virar o jogo.”
Eu franzi a testa. “O que quer dizer?”
“Ah, apenas um pensamento… Valkar parece tão certo de tudo, não parece? Mas e se você o desafiasse? Se mostrasse a ele que você não é quem ele pensa que é?”
“E como eu faria isso?”
Ele sorriu de lado. “Seja imprevisível. Mostre a ele que demônios não são apenas selvagens e manipuladores. Quebre as expectativas dele.”
Pensei naquelas palavras. Havia algo interessante na ideia. Valkar me via de uma forma fixa, como se já soubesse tudo sobre mim. Talvez fosse hora de mostrar que ele estava errado.
“Você me dá ideias ruins, Mikhail.”
“São as melhores ideias, confesse.”
Antes que eu pudesse responder, uma presença se fez sentir. O ar ao redor pareceu esfriar levemente, e quando olhei para trás, lá estava ele: Valkar. Seu olhar severo analisava cada detalhe da cena.
“Raya, comigo. Agora.”
Mikhail bufou. “Você nem ao menos diz ‘por favor’? Que falta de educação.”
“Não teste minha paciência, Mikhail.”
Virei para Mikhail rapidamente e sussurrei. “Acho que essa é a minha deixa.”
Ele piscou para mim. “Boa sorte, princesa.”
Suspirei e segui Valkar, sentindo um nó se formar em meu estômago. O que ele queria agora? Ele caminhava na frente sem olhar para trás, seus passos firmes e decididos. Me levou para um salão mais afastado do castelo, onde poucos anjos transitavam.
Ele parou e virou-se para mim. Seus olhos eram como gelo puro. “Explique-se.”
“Explicar o quê?”
“Por que fugiu daquela maneira? E por que continua se aproximando de Mikhail?”
Cruzei os braços, desafiadora. “Por que isso importa?”
“Importa porque você está sob minha responsabilidade,” ele rosnou. “E sua atitude leviana pode comprometer a paz.”
Ri sem humor. “Então, conversar com alguém e tentar ser um pouco menos miserável é uma ameaça para a paz? Que interessante.”
Valkar apertou o maxilar. “Não distorça minhas palavras.”
“Eu não preciso distorcer, Valkar. Você já faz isso sozinho.”
Ele respirou fundo, como se estivesse se segurando para não dizer algo pior. Por um momento, houve silêncio entre nós. Então, ele falou de forma mais calma, mas ainda firme:
“Você não entende como este lugar funciona.”
“Então me ensine.”
Ele piscou, claramente não esperando aquela resposta. Eu aproveitei a hesitação.
“Você me vê como um problema, certo? Como uma inimiga. Mas eu estou aqui, sem força, sem meios de fugir. Então, por que não me ensina como este mundo realmente funciona? Quem sabe eu não aprendo algo e paro de ‘comprometer a paz’.”
Ele estudou meu rosto por alguns instantes. Então, finalmente, soltou um longo suspiro.
“Está bem.”
Fiquei surpresa. “Sério?”
“Sim.” Ele me lançou um olhar intenso. “Mas se eu perceber que está tentando me manipular, eu cortarei isso imediatamente.”
Revirei os olhos. “Você e sua paranoia.”
Ele ignorou meu comentário. “Nos encontraremos amanhã ao amanhecer. Não se atrase.”
E com isso, ele se virou e foi embora.
Fiquei parada ali, confusa e intrigada. Talvez Mikhail estivesse certo. Talvez fosse hora de mudar o jogo.