Capítulo 11

1270 Palavras
Raya Passei mais tempo do que imaginava conversando com Seraphiel e Mikhail. Desde que cheguei aqui, senti que não teria ninguém para conversar, mas para minha surpresa, esses dois arcanjos pareciam bem mais acessíveis do que eu esperava. Diferente de Valkar, que sempre me olhava com desdém e evitava contato prolongado, esses dois pareciam curiosos sobre mim tanto quanto eu estava sobre eles. Seraphiel era muito educado. Seu comportamento era impecável, e ele fazia questão de seguir todas as regras do céu à risca. Já Mikhail era mais brincalhão, sarcástico, e parecia se divertir com a minha presença ali. Ele fazia comentários provocativos para Valkar, que apenas revirava os olhos e se afastava sempre que podia. — Então, Raya, você tem alguma dúvida sobre o céu? — Mikhail perguntou, se escorando casualmente contra uma parede. — Algumas. — Admiti. — Por exemplo… é verdade que anjos podem se reproduzir sem um parceiro? Os dois se entreolharam e começaram a rir. — Essa é nova. — Mikhail comentou, cruzando os braços. — De onde você tirou essa ideia? — Ouvi rumores sobre isso. — Respondi, um pouco envergonhada. Seraphiel foi o primeiro a responder com seriedade: — Alguns anjos, sim. Aqueles que não escolheram um gênero específico e que possuem uma pureza de alma extrema conseguem gerar vida sozinhos. Mas nós, que temos que matar para defender o céu, somos praticamente homens normais. Precisamos de uma parceira para isso, e não podemos mudar de gênero. — Então existem anjos que não têm gênero definido? — Questionei. — Sim, mas eles são raros. — Ele respondeu, tranquilo. — Interessante… — Murmurei, absorvendo a informação. — Mais alguma dúvida estranha? — Mikhail perguntou, claramente se divertindo com minhas perguntas. — Bem… vocês não precisam comer ou ter necessidades fisiológicas? — Perguntei, meio incerta se essa era uma boa pergunta. Mikhail riu novamente, quase se dobrando de tanto rir. — Isso é hilário! Mas não, não precisamos. Mas fique tranquila, vamos alimentar você direito, então não precisa se preocupar. — Ele piscou para mim, e eu revirei os olhos. — Como é ser um arcanjo? — Perguntei, olhando para Seraphiel, que até então estava apenas ouvindo. — Significa responsabilidade. Significa que devemos manter o equilíbrio, proteger o céu e garantir que as regras sejam seguidas. — Ele disse com calma, sua expressão séria. — E você, Mikhail? — Perguntei, virando-me para ele. — Significa que podemos voar por aí, brincar com os anjos inferiores e irritar Valkar sempre que possível. — Ele respondeu com um sorriso travesso. Valkar, que estava mais afastado, lançou um olhar mortal para ele, mas não disse nada. — Como é que vocês dois são amigos? São tão diferentes. — Comentei. — Porque um de nós precisa manter as coisas sob controle, enquanto o outro precisa garantir que a vida tenha um pouco de diversão. — Mikhail explicou, ainda sorrindo. — Acho que isso faz sentido… — Murmurei, olhando para Valkar, que continuava calado. — E quanto a você, Valkar? Você não vai responder nada? — Perguntei. Ele me olhou com frieza, cruzando os braços. — Diferente desses dois, eu não estou aqui para fazer amizades. — Respondeu seco. — E mesmo assim, está aqui nos ouvindo. — Mikhail provocou. Valkar revirou os olhos e se virou, indo embora sem mais nenhuma palavra. Suspirei e voltei minha atenção para os dois arcanjos, que pareciam bem mais receptivos. Passei o resto do tempo ouvindo sobre os costumes do céu, suas leis e sobre as criaturas que habitavam este lugar. Apesar de ainda me sentir deslocada, percebi que não estava completamente sozinha. Pelo menos, não enquanto tivesse Seraphiel e Mikhail por perto. (...) O peso da inatividade estava começando a me enlouquecer. Depois de dias vagando por esse castelo celestial sem um propósito definido, decidi que precisava fazer algo. Não apenas por mim, mas porque a sensação de estar indefesa me corroía. Eu queria treinar, recuperar um pouco da minha força. E havia apenas uma pessoa que poderia me ajudar com isso. Encontrei Valkar na sala de treinamento, de pé com a postura rígida e a expressão sempre fechada. Ele parecia concentrado em afiar sua lâmina, sem se importar com minha presença. Mas eu não me deixaria intimidar. — Você pode me treinar? — perguntei diretamente. Ele parou o que estava fazendo e me olhou de cima a baixo, como se estivesse analisando se valia a pena perder tempo comigo. Finalmente, bufou. — Você não tem poderes aqui. E está fraca. Qual o sentido? — retrucou, sua voz carregada de desdém. — Justamente por isso. Preciso aprender a me defender sem depender dos meus poderes. Se eu for ficar aqui, não quero ser um alvo fácil. Valkar pareceu ponderar por um instante antes de revirar os olhos. — Você vai se arrepender. Ele caminhou até o centro da arena e gesticulou para que eu o seguisse. Fiz o que ele pediu, determinada. — Ataque-me. — disse ele. Engoli em seco. Sem uma arma, sem magia, eu só tinha meu próprio corpo para lutar. Avancei com um soco direto em sua direção, mas antes que pudesse atingi-lo, Valkar se esquivou com facilidade e agarrou meu pulso, torcendo-o levemente antes de me jogar no chão com um único movimento. O impacto foi forte o suficiente para tirar o ar dos meus pulmões. — Fraca. De novo. — ordenou ele, cruzando os braços. Rosnei baixinho, me levantando e tentando mais uma vez. O resultado foi o mesmo: em segundos, eu estava no chão novamente. E de novo. E de novo. O padrão se repetiu por incontáveis tentativas fracassadas. Meu corpo doía, minha respiração estava pesada, mas eu me recusei a desistir. Mesmo sabendo que ele era muito mais forte e rápido, eu queria melhorar. Precisava melhorar. — Por que continua tentando? — ele perguntou, finalmente demonstrando um resquício de curiosidade. — Porque não quero ser inútil aqui dentro. Não quero ser fraca. — respondi, limpando um fio de sangue que escorria do meu lábio. Valkar me encarou por alguns segundos antes de bufar e me ajudar a levantar. — Então aprenda a observar antes de agir. Você é muito impulsiva. Use seu tamanho a seu favor. Não tente me enfrentar diretamente, pois perderá todas as vezes. — disse, demonstrando um golpe mais ágil e estratégico. Assenti, absorvendo suas palavras. Peguei fôlego e tentei de novo. Dessa vez, ao invés de atacar diretamente, esperei por uma brecha. Tentei me mover de forma diferente, usando minha agilidade ao invés da força bruta. Claro, ainda perdi. Mas foi uma melhora. Depois de mais algumas rodadas de luta, decidi que era a hora de perguntar o que me incomodava desde que cheguei. — O que exatamente você é? Ele arqueou uma sobrancelha. — Um Serafim. — respondeu, como se fosse óbvio. — Mas... você tem três pares de asas. Isso não significa que você já é um Serafim completo? Ele desviou o olhar, sua expressão endurecendo. — Um Serafim verdadeiro tem seis pares de asas. Eu sou incompleto. — disse, como se fosse algo óbvio, mas pude notar um leve amargor em sua voz. Fiquei em silêncio por um momento, absorvendo a informação. Nunca havia pensado que até mesmo os seres mais poderosos do céu pudessem ter suas próprias falhas. Valkar, o arrogante e frio Valkar, era incompleto aos olhos dos outros anjos? — Isso te incomoda? — perguntei, curiosa. Ele me lançou um olhar cortante. — Isso não é da sua conta. Continue treinando. Você ainda é patética. — disse, voltando à sua postura rígida. Revirei os olhos, mas segui seu comando. Ainda tinha muito o que aprender.
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