Raya
Acordei sentindo meu corpo mais leve, mas a sensação de fraqueza ainda me perseguia. O céu era diferente de tudo o que eu já havia conhecido no inferno. As cores eram mais suaves, o ar parecia mais puro, mas isso não me trazia nenhum tipo de conforto. Eu estava em território inimigo, e a presença da gargantilha de ferro ao redor do meu pescoço era a prova disso.
Depois de receber a segunda dose do antídoto, Valkar me deixou sozinha no quarto. Era um lugar bonito, espaçoso, mas ainda assim, uma prisão. Suspirei e me forcei a levantar, caminhando lentamente até a porta. Se eu iria ficar aqui, precisava pelo menos entender como as coisas funcionavam.
Saí pelos corredores do castelo celestial, tentando ignorar os olhares de desprezo que alguns anjos lançavam para mim. Eles me viam como uma aberração, um ser que não deveria estar ali. Mas eu não me importava. Já havia lidado com esse tipo de olhar antes.
Foi quando encontrei dois homens parados no final do corredor, conversando entre si. Diferente dos outros anjos, eles não me olharam com nojo, apenas curiosidade. Um deles tinha cabelos loiros e olhos dourados, sua postura era impecável, como se seguisse cada regra à risca. O outro tinha cabelos castanhos e olhos da mesma cor, e havia um sorriso divertido em seus lábios, como se estivesse prestes a fazer uma piada.
Quando me aproximei, o loiro foi o primeiro a falar:
— Você deve ser Raya. Sou Seraphiel, e este é Mikhail. Somos arcanjos responsáveis por manter a ordem por aqui.
— Ordem? — repeti, cruzando os braços. — E eu sou uma ameaça a essa ordem?
Mikhail riu baixinho, balançando a cabeça.
— Para falar a verdade, esperávamos alguém mais... caótico. Mas você parece bem comportada, por enquanto.
— Não tenho motivos para causar problemas — respondi, mantendo minha expressão séria. — Pelo menos não agora.
Seraphiel me analisou por um momento antes de dar um leve aceno de cabeça.
— Isso é bom. Ninguém quer conflitos desnecessários. Mas entendo que sua situação aqui não seja exatamente confortável.
Mikhail se encostou na parede, um sorriso travesso nos lábios.
— Sabe, eu até fiquei surpreso quando soube que você aceitou vir para cá. Pensei que demônios preferissem morrer a serem usados como garantia.
Minha expressão se fechou um pouco, mas antes que eu pudesse responder, Seraphiel lhe lançou um olhar de advertência.
— Mikhail, não precisa provocar.
Mikhail ergueu as mãos em um gesto inocente.
— Só estou tentando entender melhor nossa convidada.
Revirei os olhos e soltei um suspiro.
— Eu não queria morrer. Ainda não. Simples assim.
Seraphiel assentiu, parecendo satisfeito com minha resposta.
— É uma escolha sensata. E enquanto estiver aqui, nossa função é garantir que tenha um mínimo de estabilidade. Sei que está com muitas dúvidas sobre o céu. Podemos ajudar com isso.
Mikhail sorriu mais amplamente.
— Sim, e se precisar de uma visão menos entediante sobre as regras desse lugar, pode perguntar para mim.
— Eu ouvi isso — Seraphiel comentou, estreitando os olhos para o outro arcanjo.
— Era para ouvir — Mikhail respondeu com um sorriso travesso.
Não pude evitar um pequeno sorriso diante da interação dos dois. Pelo menos não eram como Valkar. Talvez minha estadia aqui não fosse completamente insuportável.
— Tudo bem — disse, relaxando um pouco. — Então me expliquem. O que exatamente significa eu estar aqui? O que acontece se eu quebrar alguma regra?
Seraphiel foi o primeiro a responder:
— Enquanto estiver aqui, você deve seguir as regras básicas do céu. Não pode usar poderes, não pode interferir nos assuntos celestiais e não pode tentar fugir. Qualquer violação dessas regras pode resultar em punições severas.
— E sobre as regalias? — perguntei, lembrando-me do que Valkar havia mencionado.
Mikhail sorriu e se inclinou ligeiramente para frente.
— Bem, isso depende do seu comportamento. Se mostrar que não é uma ameaça, pode ganhar alguns privilégios. Mas se tentar alguma coisa... digamos que não será tão fácil escapar das consequências.
— E o que exatamente acontece com os demônios que são capturados e não têm um acordo? — perguntei, minha voz mais baixa.
Seraphiel hesitou por um momento, então respondeu com um tom neutro:
— São mantidos no calabouço e tratados como prisioneiros. A maioria não sobrevive por muito tempo.
Um arrepio percorreu minha espinha. Então eu realmente tive sorte de estar aqui sob um acordo.
Mikhail percebeu meu desconforto e tentou amenizar o clima.
— Mas hey, pelo menos você tem um quarto e liberdade para andar por aí. Isso já é uma grande vantagem, certo?
Assenti lentamente. Sim, era uma vantagem. Mas ainda assim, estava longe de ser algo confortável.
— Certo — suspirei. — Algum conselho sobre como sobreviver aqui sem enlouquecer?
Mikhail sorriu amplamente.
— Sim. Ignore os olhares de desprezo, tente não dar muita bola para Valkar e, acima de tudo, não tente provar nada para ninguém. Eles nunca vão aceitar você aqui, então não vale a pena tentar.
Seraphiel suspirou.
— Mikhail, não seja tão duro.
— Estou apenas dizendo a verdade — Mikhail retrucou. — Raya já deve saber disso.
Infelizmente, ele estava certo. Eu nunca seria aceita aqui. Mas isso não significava que eu precisava tornar minha estadia um inferno ainda maior do que já era.
— Agradeço pelos conselhos — disse, tentando manter minha voz neutra. — Acho que vou precisar de toda ajuda que conseguir.
Seraphiel sorriu de forma gentil.
— Estaremos por perto caso precise de algo.
Mikhail deu uma piscadela.
— E se quiser conversar sobre qualquer coisa que não envolva regras e burocracia, eu sou o cara certo.
Balancei a cabeça com um pequeno sorriso. Talvez minha vida no céu não fosse completamente solitária. Ainda assim, eu precisava tomar cuidado. Porque, no fim das contas, eu continuava sendo um demônio em território inimigo.
Esses dois talvez me façam esquecer um pouco os problemas, parecem serem legais, o completo contrário de Valkar, aquele parece querer me matar apenas com o olhar.
Ele me faz sentir um frio no corpo, como se fosse morrer. Já esse dois me fazem sentir um pouco de normalidade, já que não me desprezam e nem demostram repulsa ao me ver.
Talvez se eu me mostrar uma boa garota, o que eu normalmente sou, os líderes podem mandar tirar minha gargantilha.