Raya
O albino entrou no quarto mais uma vez, dessa vez trazendo minha bolsa. Era tudo o que eu havia pedido para minha mãe Scarlett colocar para mim antes de eu ser levada ao céu. Tantas coisas importantes estavam ali dentro: fotos, presentes que recebi de pessoas queridas e o pequeno frasco de perfume contendo veneno que Vayron me deu, caso eu não suportasse essa situação.
Valkar jogou a bolsa sobre a escrivaninha sem muita cerimônia. Ele cruzou os braços e me olhou com aquele mesmo olhar frio e cheio de desprezo.
"Eu olhei tudo dentro da bolsa", disse ele, sua voz carregada de arrogância. "Você é extremamente sentimental e mimada. Quem diabos leva um perfume para o céu numa situação como essa? Poderia ter escolhido qualquer outra coisa."
Mantive o silêncio, minha força não era suficiente nem para discutir. Ele revirou a bolsa mais uma vez e tirou de dentro um ursinho de pelúcia preto, com olhos azuis. Segurou-o entre os dedos, observando-o com interesse.
"Interessante... Achei que demônios não gostassem desse tipo de coisa." Ele virou o boneco de um lado para o outro, entediado. Então seus olhos frios encontraram os meus. "Na verdade, ele se parece com você. Tem a aparência de uma princesa bonita, educada e frágil, com esses olhos azuis que refletem o céu noturno... Mas sei que, se não fosse por essa gargantilha, você me queimaria vivo."
Minha mão voou para o pescoço, e meu coração disparou ao sentir o metal gelado ali. Uma gargantilha de ferro. Entrei em pânico ao perceber aquilo.
"Não tem como tirar", Valkar informou, como se lesse minha mente. "Melhor se acostumar. Se tiver uma boa conduta aqui dentro, pode receber algumas regalias. Talvez, e só talvez, permitam que você tire a gargantilha. Mas se dependesse de mim, você não teria nada disso. Nem um quarto. Nem a liberdade de vagar pelo castelo. Estaria presa num calabouço, como todos os outros demônios que capturamos, sendo torturada."
Suas palavras eram cruéis, mas não surpreendentes. Ele não me via como uma pessoa, apenas como um demônio a ser eliminado.
"Você tem sorte de tudo ter sido resolvido dentro de um acordo", ele continuou. "Seu bem-estar vai ser garantido desde que o Inferno siga as regras."
Engoli em seco. "De que adianta poder vagar por aqui se eu não posso me proteger? Sem meus poderes, se algo acontecer comigo... Se alguém tentar fazer alguma coisa..."
Valkar revirou os olhos e suspirou, exasperado. "Vocês, demônios, são insuportáveis, meu Deus. Estamos no céu. No máximo, vão tentar matar você por ser um demônio, mas violar uma garota? Isso é sujo. Nenhum ser celestial faria uma coisa dessas. Você está confundindo muito o Céu com o Inferno."
Ele se aproximou da cama e me encarou com aquela expressão fria e entediada. "Você não precisa temer maldades. Apenas olhares de desprezo. Nós não somos desprezíveis como os demônios."
Abaixei a cabeça, me sentindo completamente impotente. Sem minhas habilidades, eu não passava de um peso morto aqui dentro.
"Vem comigo. Precisa tomar a segunda dose do antídoto", ordenou ele, girando nos calcanhares. "Pode aproveitar para conhecer os arredores."
Que estranho... Por que parecia que ele se importava?
Me forcei a levantar da cama, mas minha visão escureceu por alguns segundos, e de repente, senti um par de braços fortes ao meu redor. Valkar me segurava, claramente irritado.
"Que desprezível... Nem em pé consegue ficar", resmungou. "Não ache que vou ficar carregando você para lá e para cá."
Apesar das palavras, ele me pegou no colo sem mais reclamações. Senti seus músculos tensos contra meu corpo. Para um anjo, ou mesmo um arcanjo, ele tinha uma estrutura física consideravelmente forte. Que tipo de ser celestial ele era?
"Você está muito quieta. No que está pensando?", ele perguntou.
"Em como fugir daqui", respondi sem pensar muito.
O corpo dele ficou rígido por alguns instantes. Então ele riu, um som seco e sem humor.
"Melhor não tentar. Você não quer morrer, não é?"
Olhei para ele, paralisada. "Se me matarem, não terão garantia de mais nada. E isso com certeza causaria uma guerra."
"Infelizmente, isso seria uma escolha sua", disse ele, seu tom levemente irritado. "Criamos uma barreira no Céu para impedir que você saia. Se tentar, será queimada viva. Igual você fazia com aqueles monstros no Inferno."
Franzi o cenho. "Você me observava?"
"Era meu trabalho", ele disse, como se fosse óbvio. "Acha mesmo que tudo foi por acaso? Precisávamos de você. E eu consegui cumprir minha missão. Espero que me reconheçam por isso, e que eu nunca mais precise lidar com você. Odeio demônios."
Fiquei em silêncio enquanto ele me carregava para fora do castelo. Sentia olhares curiosos dos anjos, mas esses olhares rapidamente se transformavam em desprezo ao notarem minhas asas negras. Para eles, eu não passava de um ser impuro.
Não demorou para Valkar me levar a um pequeno hospital. Ele me colocou em uma maca e aguardou enquanto um anjo de cabelos loiros se aproximava. O anjo pegou uma seringa e aplicou um líquido dourado em meu braço.
Uma queimação tomou conta do meu corpo, de dentro para fora. Gemei de dor, me contorcendo um pouco.
"Vai arder um pouco", disse o anjo médico, sem se comover. "É um líquido sagrado, e você é um demônio. Mas logo passa. Soube que tem algum parente angelical distante, então talvez os sintomas sejam menos agressivos. Ou talvez o contrário."
Fiquei olhando para ele, sentindo meu corpo arder. Ele terminou de anotar algo em uma prancheta antes de me encarar.
"De qualquer forma, você não vai precisar de uma terceira dose. Logo estará bem."
Apenas fechei os olhos, tentando conter a dor. Mas dentro de mim, eu sabia: estar "bem" era algo que jamais aconteceria enquanto eu estivesse prisioneira neste lugar.
Esse Valkar é obviamente perigoso, um problema para mim, ele parece me odiar e desprezar sem nem mesmo me conhecer direito, me pergunto para que tanto ódio, eu sou nova e nunca fiz nenhum m*l a anjos.