Capítulo 8

1047 Palavras
Raya Meus olhos piscam lentamente, tentando se ajustar à claridade do quarto. Meu corpo está fraco demais para mover qualquer parte com força, mas minha mente ainda está consciente o suficiente para saber que algo está errado. A presença ao meu lado é intensa, sufocante. Não preciso virar minha cabeça para saber que alguém está ali, observando-me como um predador à espreita. Antes que eu possa reagir, braços fortes me erguem do colchão. Um arrepio percorre minha espinha quando sinto o toque frio da armadura metálica. O cheiro de mirra e algo puramente celestial preenche minhas narinas, me causando um leve enjoo. Tento falar, mas minha garganta está seca. Estou sendo carregada como se não pesasse nada, como se fosse apenas um fardo a ser transportado. — Eu não imaginava que uma demônia da família real fosse aceitar ser uma refém — a voz fria e desdenhosa corta o silêncio. — Mas parece que até demônios têm medo de morrer. Valkar. Só pode ser ele. O arcanjo albino que foi responsável pelo caos que aconteceu no inferno. O mesmo que enfrentou meu avô materno e meu avô paterno, e saiu praticamente ileso. Seu tom de desprezo me atinge como lâminas afiadas, mas estou cansada demais para responder. Meu corpo não me obedece. Sou levada para fora do quarto, passando pelos corredores do castelo onde passei toda minha vida. Tudo parece desfocado, como se meu cérebro estivesse se recusando a absorver a realidade do que está acontecendo. Sinto o aperto dos braços de Valkar ao meu redor, mas não há calor neles. Só frieza. Desdém. Os olhos de meus pais me encontram quando passamos pela entrada principal do castelo. Minha mãe tem os punhos cerrados, os olhos marejados, mas seu rosto é uma máscara de impassividade. Meu pai parece feito de pedra, o maxilar travado, mas seu olhar é um furacão de emoções contidas. Sei que ele quer me arrancar dos braços desse arcanjo arrogante, mas não pode. Não agora. Sinto meu coração apertar. Então tudo se dissolve em luz. --- Acordo sentindo um calor diferente ao meu redor, mas não é sufocante como o do inferno. Pelo contrário. O ar é leve, quase etéreo. Minha pele formiga, uma sensação estranha percorre cada célula do meu corpo. Abro os olhos e imediatamente percebo que não estou mais em casa. O céu acima de mim é tão azul que chega a doer. As nuvens parecem feitas de algodão puro, pairando como esculturas divinas sobre um horizonte que parece se estender infinitamente. Tento me sentar, mas meu corpo ainda está fraco. Preciso de um momento para compreender onde estou. Heaven. Meu peito se aperta com a confirmação. Os arcanjos conseguiram. Eles me levaram para cá. Olho ao redor, notando a arquitetura absurdamente branca e limpa. Cada detalhe parece ter sido feito para irradiar perfeição e pureza, mas para mim, tudo parece frio e impessoal. — Então acordou. — A voz de Valkar ecoa pelo espaço. Me viro devagar, encontrando seus olhos azuis me observando com algo entre desprezo e tédio. Ele está parado perto de uma janela gigantesca, as asas dobradas elegantemente atrás de si. — Esperava que ficasse desacordada por mais tempo. Teria menos trabalho. Eu abro a boca para responder, mas minha garganta ainda está seca. Me esforço para engolir e finalmente consigo murmurar: — O que… o que quer de mim? Ele arqueia uma sobrancelha, cruzando os braços. — Você é nossa garantia. Nada mais, nada menos. Não se ache importante, princesa. Você está aqui para que os demônios pensem duas vezes antes de atacar Heaven e continuar caçando os nossos. Simples assim. Seu tom casual, como se estivesse explicando algo banal, me faz querer socá-lo. Mas tudo que consigo fazer é fechar as mãos em punhos sobre o lençol. — Meu pai nunca aceitaria um acordo injusto. — Minha voz sai mais firme do que eu esperava, apesar do cansaço. — Se estou aqui, é porque ele encontrou alguma lógica nisso. Valkar solta uma risada seca. — Ah, sim. Seu pai foi bem previsível. Explodiu de raiva, ameaçou matar meio céu e inferno se você morresse… patético, como sempre. No fim, ele sabia que não tinha escolha. — Ele se aproxima, sua presença dominando o espaço. — Você deveria agradecer por ele ter ao menos tentado negociar sua sobrevivência. Muitos de nós achávamos que ele apenas deixaria você morrer para não sujar as mãos com esse acordo. Seus olhos perfuram os meus, como se desafiassem qualquer réplica que eu pudesse ter. Mas eu não vou ceder. Não para ele. Respiro fundo, ignorando o aperto no peito e a fraqueza no corpo. — Então é isso? Me mantém aqui como um troféu para esfregar na cara do inferno? Espera que eu aceite isso calada? Valkar ri novamente, um som frio e sem humor. — Espero que se mantenha viva. Isso já é o suficiente. E não tente nada, porque você está fraca demais para ir a qualquer lugar. Além disso… — ele se inclina ligeiramente, sua voz caindo para um tom mais baixo. — Você pode não ter percebido ainda, mas seu corpo já começou a mudar. Minha respiração para por um instante. — O que quer dizer com isso? Ele se afasta, voltando para perto da janela, parecendo satisfeito com meu desconforto. — Não é óbvio? Você está no céu. Um lugar que não foi feito para seres impuros como você. Mas… — Ele lança um olhar de soslaio para mim, um sorriso frio nos lábios. — Você é uma exceção, não é? Meio demônia, mas com pingo de sangue celestial. Minhas mãos tremem sobre o lençol. Meu corpo realmente parece diferente. Não é apenas a leveza do ambiente, mas algo interno, algo que ainda não compreendo. Minha conexão com o inferno parece distante, como se estivesse sendo abafada. — O que está acontecendo comigo? — murmuro, mais para mim mesma do que para ele. Valkar apenas observa, sem pressa. — Vamos ver, não é? — Ele se vira completamente, começando a caminhar para fora do quarto. — Não morra antes da hora, princesa. Ainda temos muito o que fazer. A porta se fecha atrás dele, e eu finalmente solto um suspiro longo e trêmulo. Estou presa no céu. E algo está mudando dentro de mim.
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