Capítulo 4

1045 Palavras
Raya A dor começou como uma fisgada discreta, mas logo se espalhou pelo corpo de Raya como se algo estivesse corroendo seu interior. Ela respirou fundo e fechou os olhos, tentando ignorar a sensação, mantendo uma expressão impassível enquanto Sarah, sua avó, permanecia ao seu lado, atenta aos sons da batalha lá fora. Ainda não estavam completamente seguros. Qualquer fraqueza exposta poderia ser perigosa. Mas o peso da dor aumentou. Seu peito se apertou, suas mãos tremiam levemente. Raya cravou as unhas na palma da mão para tentar conter um gemido, mas não foi o suficiente. O som escapou de seus lábios, e Sarah virou-se de imediato. — Raya? — Sarah franziu o cenho, sua expressão suavizando ao perceber que algo estava errado. — Estou bem — Raya mentiu rapidamente, forçando um sorriso. Sarah não pareceu convencida, mas antes que pudesse insistir, Raya sufocou um novo gemido de dor. O alerta nos olhos da avó foi imediato. Em segundos, Sarah correu para fora do cômodo em busca de ajuda. Raya tentou chamá-la de volta, mas não teve forças. Seu corpo parecia cada vez mais pesado. Pouco tempo depois, Aron, seu tio, apareceu, alto e imponente, com sua expressão rígida e olhar afiado. — Sempre se metendo em problemas, hein? — Ele disse, antes de pegá-la sem cerimônia e jogá-la sobre o ombro —quase vez Sarah surtar. Se estivesse em melhores condições, Raya teria reclamado do tratamento brusco, mas estava cansada demais para se importar. Sentiu o mundo girar ao seu redor conforme Aron avançava rapidamente pelos corredores, mantendo uma mão livre para o caso de precisar lutar. Ela tentou manter-se consciente, mas sua visão ficou embaçada, e tudo desapareceu em uma escuridão silenciosa. --- Quando acordou, a primeira coisa que viu foi a poltrona ao lado de sua cama de hospital. Nela, seus pais estavam adormecidos, um sobre o outro, como se não quisessem se afastar por nada no mundo. Scarlett estava recostada no peito de Asura, e ele a segurava com firmeza, mesmo em meio ao sono. Raya os observou por um momento, admirando como eram perfeitos juntos. Era raro vê-los tão tranquilos, tão carinhosos. Sua mãe sempre dizia que Asura não demonstrava sentimentos facilmente, mas para Scarlett ele parecia abrir uma exceção. Tentou se levantar, mas um peso a puxou de volta. Seu corpo estava fraco, os músculos pesados como chumbo. Franziu o cenho, algo definitivamente estava errado. — Pai? Mãe? — chamou, sua voz mais fraca do que esperava. Os dois despertaram imediatamente. Scarlett foi a primeira a se aproximar, jogando os braços ao redor da filha, segurando-a com força. Raya percebeu que a expressão de seus pais era mais séria do que a situação parecia exigir. — Estou morrendo? — brincou, tentando aliviar o clima, mas ao ver a reação dos dois, percebeu que não deveria ter dito isso. — Não ouse dizer isso, entendeu? — A voz de Asura saiu baixa, mas carregada de uma ameaça velada, como se apenas a ideia de perdê-la fosse insuportável. — Vamos dar um jeito em tudo, e você vai ficar bem — Scarlett sussurrou, afagando seus cabelos. — O que tem de errado comigo? — Raya perguntou, seu tom finalmente carregando uma preocupação real. Asura respirou fundo antes de responder. — Tinha algo nas armas dos arcanjos. Um tipo de veneno que mata lentamente. Mas já estamos procurando uma cura, e se não encontrarmos, eu mesmo destruo Heaven inteira. — O ódio em seus olhos era inconfundível. Scarlett suspirou. — Vamos tentar um acordo com eles antes de qualquer coisa. O mais importante agora é que você não gaste energia. Fique de cama. Não se levante. Isso pode acelerar a toxina em seu corpo. Você é minha filha, e deverá viver mais que eu. — Sua voz vacilou no final, um medo genuíno escorrendo por suas palavras. — Mãe, está tudo bem. Eu vou te ouvir. Não levanto dessa cama até conseguirem resolver tudo. — Raya tentou tranquilizá-la. Asura soltou um pequeno suspiro e, pela primeira vez desde que acordou, esboçou algo que parecia um meio sorriso. — Tão responsável que nem parece filha da sua mãe. — Ele brincou, tentando aliviar o peso no ambiente. Scarlett o fuzilou com o olhar, mas a tensão no ar finalmente cedeu um pouco. Pouco depois, Vayron entrou no quarto. Ele carregava uma caixa de chocolates, e seu sorriso habitual estampava seu rosto. — Se está de cama, pelo menos coma algo doce. — Ele estendeu a caixa para ela. Raya aceitou, pegando um chocolate e colocando na boca. O sabor ajudou a desviar um pouco sua atenção da dor. — Então, como está se sentindo? — Vayron perguntou, sentando-se ao lado da cama. — Como se tivessem colocado fogo dentro de mim, mas sem a parte divertida de poder controlar as chamas. — Raya revirou os olhos. — Bem, pelo menos seu humor continua intacto. — Vayron riu, mas logo ficou sério. — Você não está sozinha nisso. Vamos resolver, Raya. Somos a realeza do inferno. Não vamos deixar que façam isso com você sem consequências. — Sei disso — ela suspirou. — Mas ainda é frustrante ficar aqui deitada sem poder fazer nada. — Se serve de consolo, alguns de nós também foram envenenados. Mas estão em pé. Você só está de cama porque o veneno teve um efeito mais forte em você. — Vayron disse, tentando aliviar a sensação de impotência da irmã. — Ótimo, então além de envenenada, sou fraca — ela resmungou. — Ou só preciosa demais para nos arriscarmos a perder. — Vayron deu um pequeno sorriso. Nos dias seguintes, sua família foi visitá-la constantemente. Seus avós Dantalion e Sarah apareceram para checar sua condição, prometendo que fariam tudo para encontrar a cura. Seus avós maternos, Dagon e Mia, também estiveram ao seu lado, com Dagon visivelmente irritado pela situação, querendo partir para o ataque imediatamente. Apesar de toda a dor e da incerteza, Raya sabia que estava cercada por aqueles que a amavam. E, por mais que odiasse depender dos outros, pela primeira vez em muito tempo, permitiu-se descansar e confiar que sua família resolveria tudo. Ela sabe que tem a sorte que muitos não tem no inferno, ter uma família que se importa e realmente te ama.
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