Asura
Eu sou o rei do inferno. Não posso demonstrar fraqueza. Não posso demonstrar medo. Mas, enquanto observo minha filha caçula deitada naquela cama, pálida e fraca, sinto um nó sufocante se formar no meu peito. Raya sempre foi forte. Sempre foi destemida. Vê-la assim, vulnerável, quase sem forças para me olhar nos olhos, é um tormento que nunca imaginei enfrentar.
Scarlett está ao meu lado, segurando a mão de nossa filha como se o simples toque pudesse protegê-la desse maldito veneno. Sei que minha esposa está tentando se manter positiva, mas conheço cada expressão dela. Cada movimento sutil do seu rosto. Ela está aterrorizada.
Ela já sofreu demais para trazer Raya ao mundo. O parto foi um inferno, e por um momento achei que fosse perdê-la. Scarlett sobreviveu, mas nunca esqueceu a dor, o risco, o medo. Se Raya morrer... não sei se minha esposa aguentaria. Não sei se eu aguentaria.
Vayron entra no quarto, trazendo consigo uma tentativa de normalidade. Ele age como se nada estivesse errado, brincando com a irmã, oferecendo-lhe chocolates e contando piadas que só arrancam sorrisos tímidos dela. Ele também está preocupado, mas, assim como eu, não pode demonstrar fraqueza. Ele será o próximo rei. Precisa ser forte.
Minha mãe, Sarah, está cuidando dos outros envenenados, mas a maioria deles consegue se manter de pé. Apenas Raya foi atingida de uma forma tão severa. E isso me mata por dentro. O veneno dos arcanjos não é algo que possamos simplesmente curar.
Os anjos finalmente aceitaram um possível acordo. Ainda não sei o que eles vão exigir em troca, mas isso pouco importa. Se for necessário, queimarei Heaven até o último pilar. Destruirei cada arcanjo, cada ser celestial que ousar se opor a mim.
— Eles aceitaram conversar — Scarlett diz, a voz trêmula de alívio e desconfiança ao mesmo tempo.
Eu aperto os punhos.
— Não vou negociar. Vou pegar essa cura à força, se for necessário.
Scarlett me encara, os olhos azuis ardendo em intensidade.
— Asura, não podemos agir de forma precipitada. Raya precisa da cura agora. Se atacarmos, podemos perder qualquer chance de consegui-la rapidamente.
Eu sei que ela tem razão, mas o ódio dentro de mim queima com mais força que nunca. Esses malditos ousaram tocar na minha filha. Eles quase tiraram de mim o ser mais precioso que eu tenho.
Eu respiro fundo. Me acalmo. Porque eu sou o rei do inferno. E não posso demonstrar fraqueza.
— Muito bem. Vamos ver o que eles querem. Mas se isso for uma armadilha, eu mesmo trarei o caos para Heaven.
Porque ninguém toca na minha família e sai impune.
Raya
Levantar da cama parece uma batalha por si só. Meu corpo está fraco, meus músculos pesados, mas eu simplesmente não consigo mais ficar deitada. Se for para morrer, que seja de pé, andando, e não acamada como uma inválida. Meu orgulho não permite.
A cada passo pelos corredores, sinto minhas pernas vacilarem, mas me obrigo a continuar. Sei que meus pais estão destruídos por dentro, a possibilidade de me perder os corrói, mas eles jamais demonstrariam isso. Não querem piorar minha situação, e eu entendo. No Inferno, fraqueza é sinônimo de ruína.
As paredes do castelo são frias, o silêncio opressor. No entanto, minhas orelhas captam vozes ao longe. Empregadas. Elas cochicham, achando que ninguém as ouve. Fecho os olhos e me concentro, minha audição apurada captando cada palavra.
"Dizem que aquele arcanjo albino de três asas conseguiu lutar de igual para igual com Dagon", comenta uma delas, a voz morena e firme. "Depois com Dantalion. A luta só acabou porque o arcanjo decidiu recuar."
Um frio percorre minha espinha. Então aquele ser realmente era poderoso o bastante para enfrentar os demônios mais fortes que o Inferno já viu? Dagon e Dantalion podem não se suportar, mas são praticamente lendas vivas. Se esse arcanjo os desafiou sem ser derrotado, então é um inimigo a temer.
"Eu nunca imaginei que um arcanjo pudesse ser tão forte... além de bonito também", diz a outra, uma loira com um tom de voz mais sonhador.
Reviro os olhos. Como podem pensar nisso em um momento desses?
"Infelizmente, é um ser divino e merece ser exterminado", rebate a morena.
"Tenho certeza que esse ataque não foi por acaso", continua a loira, agora mais séria. "Logo a princesa, que sempre teve uma saúde perfeita, ficou nesse estado. Enquanto os outros envenenados tiveram uma reação menos severa. Certeza que vão usar a vida dela para negociar com nosso rei. Asura não vai permitir que a filha morra."
Meu coração aperta. Então é isso? Um plano desde o início? Um ataque cirúrgico para me colocar como moeda de troca? Meu pai faria qualquer coisa para me salvar, disso eu sei. Mas a que custo? E se as exigências forem absurdas? Se isso colocar o Inferno em uma posição vulnerável? Se for para ser um problema, prefiro morrer. Não quero ser lembrada como a ruína do Submundo.
"É uma lástima", suspira a morena. "Eles tentaram tanto ter mais um filho... e quando conseguem Raya, essa situação acontece. A rainha Scarlett vai ficar desolada se ela morrer."
Minha mãe...
Fecho os olhos, reprimindo a emoção. Mamãe sempre foi forte, mas sei o quanto sofreu quando estava grávida de mim. Como quase morreu no parto. Como ter outro filho era um sonho para ela e meu pai. Se eu partir, será que ela sobreviveria à dor?
"Tenho certeza que logo vão dar um jeito", conclui a loira. "A reunião já foi marcada. Só precisamos esperar o acordo."
Então meu pai já está decidindo. Espero que não seja uma emboscada. Espero que ele não ceda a qualquer condição absurda apenas para me salvar. Espero que antes de decidir qualquer coisa me consulte antes, pois nem coisas que nem eu aceitaria.
Eu não posso fazer nada e sim esperar o que o destino me reserva, mesmo que me cause extremo medo.
Minha vida está nas mãos da minha família, tentei não ser um peso, mas acabei sendo no final das contas.