O CORAÇÃO QUE EU NÃO CONSIGO CALAR

1236 Palavras
Desde o momento em que descobri quem ele era, nada mais pareceu igual. O Morro do Horizonte, que sempre foi o cenário da minha rotina, agora parecia um palco de lembranças. Cada beco, cada esquina, cada som de moto acelerando me fazia lembrar dele. Erik. O nome que eu tentei apagar da mente, mas que o coração insistia em repetir em silêncio. A verdade é que eu não queria sentir nada. Eu tentei. Mas como se controla algo que nasce dentro da gente sem pedir permissão? Minha mãe achava que me proibir de vê-lo resolveria tudo, mas o que ela não entendia é que o sentimento não precisa de encontros pra crescer. Às vezes, ele se alimenta só da lembrança, do olhar, da sensação que alguém deixou em você. E era isso que acontecia comigo. Faziam três dias desde o confronto. Três noites sem dormir direito. Eu ainda ouvia o barulho dos tiros, o eco do caos, e o momento em que ele apareceu, me empurrando pra trás do carro, me protegendo como se minha vida valesse mais que a dele. Quando fecho os olhos, vejo o rosto dele iluminado pela luz fraca da rua — o olhar intenso, protetor, decidido. Ele não disse nada. Não precisou. O silêncio dele falava mais do que qualquer palavra. Agora, cada vez que o vento sopra pelas janelas, eu sinto aquele mesmo arrepio, aquela mistura de medo e desejo que me tira o ar. Na manhã seguinte, tentei agir como se nada tivesse mudado. Arrumei a cama, lavei a louça, fui pro curso de auxiliar de enfermagem. Finjo que a vida segue igual, mas, por dentro, há um turbilhão. Enquanto a professora explicava sobre primeiros socorros, minha cabeça viajava. Penso se ele está bem, se se feriu, se ainda está por aí… ou se sumiu como apareceu. “Samanta?”, a professora chamou, tirando-me do transe. — Sim, professora. — Respondi rápido, fingindo atenção. Mas a verdade é que eu não estava ali. Parte de mim estava vagando por aquelas vielas, tentando entender como alguém pode entrar na sua vida de repente e bagunçar tudo sem dizer uma palavra. Quando a aula acabou, encontrei Isabela na porta. — Você tá péssima — ela disse, cruzando os braços. — Tá com essa cara de quem não dorme há dias. — É só cansaço — menti, evitando o olhar dela. — Cansaço ou aquele tal de Erik? Suspirei, sem forças pra fingir. — Não sei o que tá acontecendo comigo, Isa. Ela me encarou com um meio sorriso. — Você tá se apaixonando, amiga. E pelo homem mais complicado do morro. — Eu sei — respondi, olhando o chão. — Mas como eu posso sentir isso por alguém que vive desse jeito? — O coração não entende de certo ou errado, Sam. — Mas ele vive num mundo de armas, Isa. Um mundo que mata. — E você vive num mundo que cura — ela retrucou com calma. — Talvez seja por isso que ele te olhou daquele jeito. Fiquei em silêncio. Porque, no fundo, eu sabia que havia algo mais naquele olhar. Um pedido de socorro, talvez. Como se, por trás de toda aquela força, houvesse um homem cansado de lutar. Naquela noite, sentei na laje e fiquei olhando as luzes da cidade. As estrelas pareciam mais distantes do que nunca. Peguei meu caderno — o mesmo onde costumo escrever meus pensamentos — e comecei a desabafar com o papel, porque era o único que não me julgava. “Eu devia esquecê-lo. Devia obedecer minha mãe, devia pensar em mim. Mas como se esquece alguém que te olhou como se o tempo tivesse parado? Como ignoro o homem que me salvou sem nem me conhecer?” As lágrimas vieram sem aviso. Chorei em silêncio, tentando engolir o nó na garganta. Eu sabia que me apaixonar por Erik era o tipo de erro que não tem volta. Mas também sabia que, mesmo se tentasse fugir, esse sentimento me encontraria de novo. Nos dias seguintes, o morro ficou mais tenso. Ouvia-se falar de movimentação de facções rivais, de Erik sumido, de homens armados rondando as vielas. A cada boato, meu peito apertava. “E se ele estiver ferido?” — era a pergunta que não me deixava em paz. Na quarta-feira, voltando do curso, ouvi dois rapazes conversando perto do mercadinho. — Dizem que o chefe levou um tiro — um deles comentou. Meu coração disparou. Parei por um instante, tentando disfarçar o interesse. — Tá sumido desde o confronto. Só o Vinícius sabe onde ele tá. Continuei andando, fingindo que não escutei, mas por dentro eu tremia. Se ele estivesse ferido, quem cuidava dele? Será que estava sozinho? Em casa, minha mãe percebeu meu nervosismo. — Samanta, o que foi? Tá branca assim por quê? — Nada, mãe. Só tô cansada. Ela me olhou desconfiada, mas não insistiu. Ainda assim, eu sentia o peso do olhar dela me seguindo. Mais tarde, trancada no quarto, olhei pela janela o morro iluminado por luzes fracas. A cada clarão, meu coração batia mais rápido. Eu queria vê-lo. Só mais uma vez. Mesmo que fosse de longe. Fechei os olhos e imaginei Erik, em algum lugar, tentando se recuperar. Imaginei sua expressão séria, o olhar firme. E, pela primeira vez, desejei poder curá-lo — não só dos ferimentos, mas de tudo o que a vida o obrigou a ser. O que eu sentia era loucura, eu sabia. Mas era uma loucura que vinha com doçura, com vontade de cuidar, de entender, de se aproximar. Nos dias seguintes, tentei viver como antes, mas nada parecia normal. A cada som de moto, eu olhava pela janela. A cada homem de boné e corrente passando pela rua, meu coração saltava, esperando que fosse ele. Mas ele não aparecia. E a ausência dele começou a doer. Era como se o morro inteiro sentisse falta de algo. Como se até o vento tivesse ficado mais pesado. Certa tarde, fui com Isabela até a praça onde as crianças brincavam. O som das risadas enchia o ar, e por um momento me senti em paz. — Sabe o que eu acho? — Isabela disse, sentando ao meu lado. — Que vocês ainda vão se encontrar. — Não sei… talvez seja melhor que não. Ela riu. — Você fala isso, mas o brilho nos teus olhos te entrega. Sorri, meio sem jeito. Talvez ela tivesse razão. Porque, no fundo, algo em mim dizia que nossos caminhos ainda se cruzariam. Quando voltei pra casa, o céu já estava escurecendo. A mãe me esperava na porta, como sempre. — Chegou bem? — perguntou, com o mesmo tom protetor. — Sim, mãe. — respondi, beijando o rosto dela. Mas, naquela noite, quando deitei, o pensamento voltou pra ele. E, antes de adormecer, uma certeza me invadiu: Mesmo que eu quisesse, não havia volta. Aquele homem, com toda a escuridão e mistério que o cercavam, tinha deixado uma marca em mim. E por mais que o mundo dissesse que eu devia fugir, meu coração só queria correr em direção a ele. “O amor não pede licença pra nascer”, pensei. “E quando nasce em meio ao perigo, cresce mais forte — como flor que insiste em brotar no concreto.” Fechei os olhos. O coração batia forte. E lá dentro, entre medo e desejo, eu já sabia: Eu estava perdida em Erik Santana.
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