Os dias tinham perdido a cor desde que Samanta foi embora. A favela seguia o mesmo ritmo — o som dos rádios, os gritos das crianças, o cheiro da carne na brasa — mas pra mim, tudo parecia cinza. Eu cumpria meu papel, comandava, resolvia os problemas, mantinha o morro seguro… mas por dentro, estava vazio. Vinícius dizia que eu estava diferente. Mais calado, distraído. Talvez eu estivesse mesmo. Desde que soube que a mãe dela a mandou pra longe, parecia que uma parte de mim tinha ido junto. Mas naquela noite, algo queimava dentro de mim — um pressentimento. O vento soprava do alto do morro, trazendo um perfume que eu conhecia de longe. Doce, leve, impossível de confundir. Eu subi até o ponto mais alto, o mesmo lugar onde eu costumava pensar nela, e foi ali que a vi. Samanta. Ela estava

