Faz dias que o morro parece mais silencioso. Mas não é o tipo de silêncio bom. É aquele que pesa, que machuca o ouvido e aperta o peito. Desde que Samanta foi embora, nada aqui tem o mesmo som. Nem o batuque dos bailes, nem as conversas do pessoal no beco, nem o barulho das motos subindo o asfalto. Tudo perdeu o ritmo. E eu também. Fico fingindo que tá tudo bem. Que o foco é o comando, as fronteiras, os acordos. Mas quando o rádio cala e a fumaça do cigarro sobe devagar, o nome dela vem na cabeça. Samanta. A menina dos olhos doces… A que conseguiu atravessar um muro que ninguém nunca passou. Vinícius percebeu. Ele tenta disfarçar, mas o olhar dele sempre entrega — aquele misto de preocupação e pena. — Tá diferente, irmão — ele me disse outro dia. — O morro precisa de você inteiro.

