Capítulo 02

1339 Palavras
LEONARDO A noite pairava sobre a cidade quando retornei ao meu apartamento. Robson, meu leal mordomo, cumprimentou-me com um "boa noite" respeitoso, seu rosto expressando preocupação sutil. — Boa noite, senhor. Tomou seus medicamentos para a dor? Seus olhos, repletos de zelo, encontraram os meus. Eu, por um instante, franzindo o cenho em resposta. — Está tudo bem,Robson. Preciso me acostumar com a dor. Ele assentiu, embora a preocupação ainda se mantivesse em seu olhar. Uma lealdade que, mesmo envolta em formalidades, revelava uma inabalável dedicação. Um mordomo atento às necessidades, físicas e emocionais, de seu patrão. Antes que pudesse desviar-me para o refúgio de meu escritório, Robson antecipou-se. — Senhor, amanhã teremos entrevistas para a posição de diarista. Gostaria de estar presente? Meu olhar, momentaneamente desviado para o relógio que pendia em meu pulso, encontrou-se novamente com o de Robson. Uma escolha rápida entre o tempo que fugia e as demandas da mansão. — Não tenho tempo para isso, Robson. Cuide das entrevistas. Caminhei em direção ao escritório, deixando para trás o zelo de meu mordomo. Naquele espaço, cercado por sombras dançantes, eu me via diante das obrigações infindáveis que minha posição demandava. Envolto na penumbra de minhas próprias reflexões, dei continuidade a uma noite que, como tantas outras, se perdia na vastidão de minha solidão. Fechei a porta do escritório, isolando-me do mundo exterior. A penumbra revelava os contornos familiares, os móveis requintados e a imponente poltrona que me acolheria. Meu refúgio, onde a fachada de controle cedia à exaustão que a noite trazia consigo. Caminhei em direção à poltrona e, ao afundar nela, minha mão instintivamente encontrou o joelho mecânico. Uma conexão de metal que se fundia com a carne, uma junção infernal que era tanto uma extensão de mim quanto uma recordação incessante de tudo que se perdera. — Inferno... As palavras escaparam de meus lábios, murmuradas para o silêncio cúmplice do escritório. Minha mão percorreu a superfície fria da prótese, um gesto que denotava tanto frustração quanto um anseio contido. Desejava arrancar aquela extensão mecânica, liberar-me da constante lembrança de minha própria fragilidade. Mas sabia que, sem a prótese, era incapaz. Incapaz de andar, de mover-me, de ser o homem que fora antes do fatídico acidente. Eu a concebera meticulosamente, cada engrenagem, cada fio, projetados para replicar os movimentos naturais de uma perna humana. Até mesmo o sistema implantado em meu cérebro, uma proeza de minha própria engenharia, permitia-me sentir e controlar a prótese como se fosse uma parte intrínseca de meu corpo. No entanto, meu organismo, teimoso em sua natureza, continuava a rejeitar a máquina que eu, em um esforço desesperado, inserira em minha anatomia. Tantas noites passei estudando, aprimorando minhas habilidades de engenharia, tentando superar as barreiras que meu próprio corpo erguia contra mim. Cada avanço, um pequeno triunfo; cada recuo, uma lembrança dolorosa de minha própria vulnerabilidade. Aquele toque na prótese era um contato com o passado que insistia em permanecer presente. Uma batalha incessante entre o desejo de libertar-me da máquina e a consciência aguda de que, sem ela, a liberdade era apenas uma ilusão. Suspirei, uma exalação carregada de frustração e resignação. Meus olhos, fixos na penumbra do escritório, refletiam o cansaço que permeava minha alma. Precisava estudar mais, aprimorar minhas habilidades, superar as limitações auto impostas pela carne e pelo metal. No entanto, a exaustão pesava sobre meus ombros como um fardo insustentável. Cada avanço no campo da ciência cobrava seu preço, e eu, o inventor, o criador, estava exausto. A poltrona tornou-se meu trono de desabafo silencioso, onde a solidão se misturava com o eco de minhas próprias dúvidas. O conforto ilusório da noite, onde as estrelas, testemunhas silenciosas, eram as únicas a compartilhar minha vigília solitária. Levantei da poltrona, sentindo o peso da prótese mecânica acentuar-se com cada passo mancado. Cada passagem pelo escritório era um eco das minhas próprias limitações, um lembrete constante de um passado que insistia em não me abandonar. Caminhei em direção à mesa do escritório, o cenário da minha busca incessante por soluções. Ali, entre papéis e projetos inacabados, repousava a caixa de analgésicos. Sem hesitar, peguei-a e despejei três comprimidos na palma da mão, engolindo-os de uma vez. O whisky, aliado improvável contra a dor, estava a postos no balcão. Servi-me com uma destreza forjada pela prática constante desse ritual. O líquido âmbar dançou no copo, um convite ao esquecimento temporário que só o álcool podia proporcionar. Inalei profundamente, preparando-me para a combustão alcoólica que queimaria meu estômago. O primeiro gole foi como um soco controlado, o calor do líquido mesclando-se à ardência dos comprimidos. Uma sinfonia de sensações que, por um breve instante, desviava minha atenção da dor física. — Maldito seja o dia em que decidi pular de paraquedas. A frase escapou de meus lábios em um sussurro, mas ressoou no silêncio do escritório como uma sentença. A decisão temerária, o salto que me custara a perna e, mais do que isso, a paz de espírito. Cada fragmento de dor, cada lembrança agonizante, era uma penitência autoinfligida. Apertei o copo com força, como se pudesse esmagar as memórias que afloravam com a dor constante. O último gole do whisky desceu pela garganta, levando consigo a queimação do álcool e a amargura de arrependimentos que se acumulavam como cicatrizes invisíveis. O copo, agora vazio, retornou ao balcão com um som oco. O escritório, palco das minhas batalhas internas, testemunhou mais uma cena na trama interminável da minha busca por alívio. E ali permaneci, entre projetos inacabados e analgésicos, um homem que carregava o peso não apenas da prótese mecânica, mas também das escolhas que moldaram sua existência. A mente me traía ao relembrar o capítulo mais sombrio da minha história. Aquele período em que a vida parecia ter congelado, uma pausa dolorosa marcada por uma perda dupla que se desdobrava a cada lembrança. Estava deitado na maca do hospital, os olhos semicerrados tentando se adaptar à luz. Algo não estava certo. A sensação de vazio, a ausência de algo que sempre estivera presente, fez meu coração acelerar antes mesmo de compreender a gravidade da situação. Uma enfermeira, cujos olhos revelavam compaixão e pesar, correu para meu lado. Sua voz era um murmúrio suave que tentava me acalmar, mas as palavras se dissolviam antes de alcançar meu entendimento turvo. Logo, um médico entrou em cena, e suas palavras caíram sobre mim como pedras pesadas. Seis meses. Seis meses em coma, inconsciente da batalha que meu corpo travava pela sobrevivência. Seis meses em que a mulher que eu amava estava ausente, abandonando-me nas sombras da inconsciência. A revelação foi uma ferida ainda fresca, uma traição descoberta quando minha existência ainda estava entrelaçada entre a realidade e o torpor do sono profundo. A dor física parecia insignificante diante da ferida emocional recém-aberta. Minha mãe, guardiã silenciosa durante aqueles dias sombrios, compartilhou a verdade que ela própria hesitava em pronunciar. Minha noiva partira, deixando-me à deriva quando eu mais precisava dela. A justificativa era uma amálgama de palavras que formavam uma sentença insuportável: ela não conseguia suportar a carga, a responsabilidade de estar ao lado de um homem transformado, fisicamente e emocionalmente. A dor da perda da perna, que antes eu considerava o auge do sofrimento, foi subitamente ofuscada pela faca afiada da traição. A fidelidade prometida em votos de amor se desfez como uma ilusão c***l, evaporando-se como a névoa matinal que desaparece com a chegada impiedosa do sol. Aprendi da maneira mais dura que as cicatrizes emocionais podem ser tão profundas quanto as físicas, e a ausência de uma perna tornou-se secundária diante do vazio deixado por um coração quebrado. Enquanto eu lutava para me reerguer, a mulher que eu considerava minha parceira de vida escolheu a retirada, deixando-me, de forma inusitada, em dois estados de perda. Aqui quero ver sofrimentoooooo, quem ama? Comenta aqui que quero saber, pode ser vários emoji ou UP. 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