Talvez eu tenha exagerado um pouco nas três taças de vinho, mas estava tão feliz com a sensação de paz que este lugar me trazia. Beber um bom vinho ao som de um piano era tão reconfortante que me deixei levar, ri sozinha balançando a cabeça negativamente com tamanha besteira.
Como minha mente podia ser tão bipolar assim? Passei semanas me sentindo um lixo e querendo sumir, e hoje, numa segunda-feira que deveria me deixar irritada por ter voltado ao trabalho, me sinto tão bem e feliz. Vai entender.
Guardei meu celular na bolsa e logo puxei a alça da mesma, mostrando que iria me levantar para ir embora. Se ele não levantasse agora e viesse até a minha mesa, teria que remarcar outro encontro, o que atrapalharia todos os meus planos. Como se o universo estivesse a meu favor, vi uma sombra se sentar na cadeira vazia em minha frente e sorri genuinamente alegre.
— Posso oferecer mais uma taça de vinho para a moça? — Não, não pode, preciso ficar sóbria.
— Só se o senhor me acompanhar em uma bebida — disse com a voz dócil e baixa, voltando a descer a alça da minha bolsa, mostrando que aceitava seu convite.
André Zyuganov logo acenou para o garçom, e eu parei para analisá-lo mais de perto. Suas fotos antigas nas redes sociais escondiam seu charme; não podia negar que estava diante de um homem atraente. Ou talvez fosse as três taças de vinho.
Ele tinha um corpo comum para a sua idade, não era forte, um pouco cheinho. Sua calvície, que deveria estar aparente, era coberta por uma careca muito bem aparada. Mas, em compensação, sua barba loira era perfeitamente desenhada na pele, como se fosse sua parte mais cuidada. Bem alinhado, e ele cheirava a um perfume até que agradável. Tinha olhos pretos chamativos e usava um terno com um caimento perfeito.
— Por favor, não me chame de senhor — ele sorriu de forma galanteadora. — Qual é o seu nome?
— Letícia Petit — ergui a mão para ele. — E o senhor é?
— Claramente não é daqui, Letícia — ele pegou minha mão, e o que pensei que seria um cumprimento virou um gesto de cavalheirismo, beijando o dorso da minha mão, como se fazia em décadas antigas. — André Zyuganov.
— Prazer em conhecê-lo — dei uma risada baixa, mostrando estar tímida com o contato. Logo, minha taça foi deixada na mesa e seu copo de martini na outra ponta. Havia três seguranças na porta, dois sentados na mesa ao lado e um atrás da mesa em que eu estava. Ele se sentou ali no instante em que o senador invadiu meu espaço. Não conseguiria topar ele ali, mas precisava ter acesso ao seu celular. — Não, sou da França, estou de férias passeando.
— Então, está gostando de Moscou? — ele tomou um gole do seu martini.
— Não tive muito o que visitar; acabei de chegar hoje à noite, pretendo sair amanhã. —Sorri enquanto levava minha taça de vinho aos lábios. Podia não ter tanta confiança em mim mesma, mas sabia seduzir minhas vítimas como ninguém.
— Posso oferecer um jantar especial amanhã à noite? — Mentira, seria tão fácil assim. Desse jeito não tem graça.
— Notei que muitos homens estão olhando para nós de vez em quando — falei me embolando em um francês misturado de propósito. — Creio que o senhor deve ser alguém importante... e não vou me sentir confortável com tantos olhares.
— Prometo que será um jantar particular — ele fez questão de passar os dedos na minha mão que segurava a taça. — Aceite meu convite, princesa.
— Posso te passar meu número? Assim você me manda um oi e, até amanhã, dou uma resposta — fiz um biquinho e logo coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha, deixando à mostra minha clavícula e mostrando meu decote de propósito. — Juro que dou um retorno amanhã cedo; preciso pensar.
— Vou pedir um papel e você... — ele parou de falar no instante em que toquei no seu braço sobre a mesa. Seu olhar foi na direção das minhas unhas grandes pintadas de vermelho. — Na realidade, anote aqui — e assim meu peixe caiu na isca.
Peguei seu celular, fazendo questão de colocar meu braço com o relógio sobre a mesa e aproximar o celular dele. Precisava apenas de quinze minutos, afinal foi isso que Rubens me disse quando me deu isso. Anotei meu número e, antes de entregar o celular, o olhei nos olhos. Ele mordeu os lábios de forma descarada enquanto analisava mais meu decote do que meu rosto. Anotei meu nome, entregando a ele o número descartável de um dos dez celulares que tinha em casa.
— Pronto. — Disse chamando sua atenção de volta. — Olha só a hora, eu preciso ir. Não quero ficar até mais tarde em uma cidade que não conheço bem ainda.
— Posso te levar; qual é o hotel? — segurei a vontade de revirar os olhos.
— Estou de carro, mas obrigada pelo convite. — Ele apenas acenou e logo pisquei para ele, pegando minha bolsa e saindo do restaurante perfeitamente calma e tranquila.
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Esperava o elevador privativo da cobertura de Rubens terminar seu trajeto. No instante em que minha presença foi anunciada ao porteiro, não demorou para ser liberada. Podia estar nervosa por nunca ter pisado ali, mas meu dia estava indo tão bem que nada iria estragar o final da minha noite.
Enquanto contenho o nervosismo, me ajeitei no canto do elevador, tirando minhas sandálias. Com os pés descalços sentindo o tapete de pelinhos, relaxei ainda mais; eu podia facilmente deitar neste elevador e dormir perfeitamente bem ali.
Ri sozinha desse pensamento e, assim que a porta do elevador foi aberta, meu sorriso sumiu. Qual era o problema de Erdoğan em usar camisa? Ele vestia apenas uma calça jeans preta, o que mostrava que provavelmente ele tinha saído para algum lugar. A julgar pelos seus cabelos, penteados com algum gel modelador, todo para trás, e apenas uma mecha teimosa em sua testa fora do alinhamento.
Contive a vontade de morder os lábios com aquela visão. Ele, descalço, com aquela calça jeans preta, mostrando cada parte do seu tanquinho e bíceps livremente, seus ombros largos relaxados e um copo de whisky na mão. Além daquele cabelo penteado daquela forma, eu me sentia fazendo um acordo com o próprio dïabo.
— Ainda não me acostumei a ver você bebendo — disse entrando em seu apartamento tentando agir naturalmente, como se estivesse em casa.
Era realmente gigante aqui. Entendi agora que, de um ano para cá, ele passava mais tempo aqui do que na sede. Primeiro ponto era tranquilo, segundo enorme. Assim que saí do elevador, podia ver a enorme cozinha americana, toda preta e branca. À frente, uma pequena escadinha em U dava acesso à sala.
Uma lareira eletrônica embutida na parede de tijolinhos pretos. Acima dela, uma televisão enorme pendurada na parede, um sofá branco bem espaçoso e uma mesa de vidro ao centro. Sobre a mesa, uma garrafa de whisky, seu computador e alguns papéis espalhados.
— Gosto de beber, mas em casa ou na companhia de amigos — ergui uma sobrancelha para ele. Pois, em sua frase, estava claro que nossa família não era seus amigos, já que só bebia com Kauan. — Demorou para enviar mensagem; achei que não viria.
— Meu alvo demorou bastante — larguei minha sandália no chão próximo ao balcão da cozinha e minha bolsa sobre o mesmo. — Quero água.
Ele apontou na direção de um armário e depois para o filtro elétrico. Voltei minha atenção para ele para fazer uma careta, mas ele já estava de costas, voltando para a sala. Legal, eu ia ter que me sentir em casa mesmo.