Ana Júlia Alencar ❦
Estar na casa de Rubens Erdoğan não era exatamente o que eu imaginava que um dia faria. Com um pedaço de pizza na mão e meus pés no chão, caminhava pelo andar de cima. Especificamente em seu quarto, que era grande o suficiente para acomodar umas dez pessoas.
A cama estava perfeitamente arrumada, e uma televisão de cinquenta e oito polegadas pendia da parede. Me surpreendi ao notar que as paredes do quarto eram de um tom azul escuro, enquanto o banheiro, com duas pias e um box grande, era a única parte branca daquele lugar.
Notei a banheira no canto do box e revirei os olhos, percebendo o quão chique era o apartamento. Assim que mordi o último pedaço da minha pizza, saí do quarto, passando o dedo sobre o tecido do meu pijama enquanto caminhava até a última porta.
Mas, ao tentar abri-la, me deparei com ela trancada. O que tem atrás dessa porta para ser o único cômodo trancado? Entediada, dei a mim mesma uma nova missão: entrar por essa porta. Assim que virei meu corpo, ouvi um trovão; a julgar pelo clima nublado, essa noite seria chuvosa.
Optei por concluir minha missão amanhã; gostava do barulho da chuva, ele me acalmava. E seria com esse som que dormiria hoje. No instante em que entrei no meu quarto e me ajeitei na cama, olhei para a porta aberta, encarando a luz que vinha do corredor aceso.
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Não sei dizer se foi por causa do trovão alto, que parecia fazer o prédio tremer, ou pelo pesadelo que estava tendo, mas perdi o sono. Assim que notei que eram cinco horas da manhã. Observei a luz do corredor apagada; então, Rubens havia chegado, não é?
Outro trovão me fez fechar os olhos; no último andar desse prédio enorme, me sentia dentro da nuvem. O que deveria me acalmar, na verdade, me estressava. Peguei o celular que Rubens havia me entregado, e, ao ler sua mensagem perguntando se eu havia comido, senti um arrepio percorrer minha espinha.
Motivo um: a mensagem havia sido enviada há dez minutos, e o relógio do aparelho marcava quatro e cinquenta. Se ele tivesse chegado, não estaria me mandando mensagem. Motivo dois: assim que me levantei da cama, ouvi um barulho vindo da cozinha.
Enviei um SMS para ele, perguntando se já havia chegado, só para desencargo de consciência. Pensei que a luz que deixei acesa pudesse ter sido apagada por uma queda de energia, mas logo essa conclusão caiu por terra, pois a luz vermelha da televisão desligada me dava a certeza de que ainda tínhamos energia.
Saí do quarto com passos largos, querendo chegar até o interruptor. No caminho, senti uma pancada forte na cabeça e ouvi o som de uma frigideira se chocando contra algo. Ou melhor, contra o meu rosto. O celular que estava em minha mão caiu, e meu corpo foi ao encontro do chão. Gemi pela dor na cabeça e, enquanto forçava meus olhos a se acostumarem com a escuridão, notei uma sombra vindo em minha direção.
Só tive tempo de rolar para o lado oposto antes de ouvir a frigideira bater no chão. Meu corpo começava a borbulhar, minhas mãos formigavam, e eu sentia o gosto do meu próprio sanguę nos lábios.
Levantei-me rapidamente e corri em direção ao interruptor. Assim que a luz foi acesa, coloquei a mão na frente dos olhos, forçando minhas pálpebras a ficarem abertas. Visualizei uma mulher alta, de longos cabelos pretos — claramente um aplique —, morena, com quadris largos. Ela tinha um nariz fino, bochechas cheias, olhos pretos e um sorriso diabólico no rosto.
No momento em que a vi puxar uma arma da cintura, corri para a cozinha, abaixando-me a tempo de ouvir o primeiro tiro. A ilha no meio da cozinha protegia meu corpo enquanto eu passava as costas da mão pelo nariz, limpando o sanguę que ainda escorria.
No segundo tiro, abri a primeira gaveta que vi, vasculhando os talheres e pegando uma faca de serra. Encolhi-me novamente contra a ilha, no momento certo em que vi o tiro atingir a ponta da gaveta, onde estava minha mão.
— Mandaram eu tomar cuidado com você — ela debochou, rindo. — Mas isso é ridículo — o tom de sua voz a denunciava enquanto eu me agachava, andando como um caranguejo para o lado oposto. — Olha só pra você, aposto que não sobe uma escada sem se cansar no terceiro degrau.
Assim que vi seu pé entrar no pequeno espaço da cozinha, corri para suas costas. A vaca se virou na minha direção. "Lenta demais", pensei, pois, em um instante, cravei a faca em seu ombro e, no outro, segurei a arma que iria disparar contra mim foi direcionada para o chão.
Chutei sua barriga com força e soltei a faca ainda presa em sua pele, apenas para ter meu punho livre e acertar um soco em seu rosto. A arma finalmente caiu de suas mãos, e eu a chutei para longe.
— Vou perguntar só uma vez — disse, fechando as mãos em punho e me preparando para uma luta corpo a corpo. — Quem é você?
— Jéssica Juvenal — ela respondeu, sorrindo e tirando a faca do ombro. A tal Jéssica fechava a mão direita em punho enquanto segurava a faca com a outra. Eu dava passos para trás, saindo do espaço apertado da cozinha. — Fui contratada para måtar você.
Ela avançou em minha direção, mas me esquivei do primeiro soco. Logo joguei meu quadril para trás, também escapando do alcance da faca. Seu segundo soco foi bloqueado pelos meus braços, e sua mão livre, com a faca, veio em direção à minha costela.
Peguei seu punho ainda em movimento e agarrei seus cabelos presos em um r**o de cavalo. Com a ajuda do meu corpo, forcei o dela contra o chão, fazendo-a passar por cima de mim e chocar seu corpo no piso frio. Ela gemeu de dor pelo impacto, e, antes que pudesse reagir, apertei seu punho, fazendo-a soltar a faca.
A c****a teve tempo de reação, pois senti seu joelho acertar minha cabeça com tanta força que meu corpo cambaleou para trás, e me segurei na parede do corredor para não cair. Minha cabeça zumbiu, e minha refeição de mais cedo ameaçou voltar pela garganta.
Engoli a vontade de vomitar e olhei para o lado, vendo a frigideira. Agarrei o cabo com força, e no momento em que Juvenal veio em minha direção, acertei seu rosto com tanta força que o metal entortou. Ela parecia mexer em seu bolso, e vi o brilho de um canivete. A faca era de alguma facção. Mas qual?
Os Orlov não seriam, pois, depois do último acontecimento entre eles e Makyson, um trato de paz foi selado. Eles não entrariam no nosso caminho, e nós não interferiríamos nos negócios deles. Era a única máfia na mesma região que a nossa, então de onde dįabos essa desgraçada filha da pūta veio?
Meus devaneios cessaram no momento em que a vi abrir o canivete e voltar a me atacar, dessa vez cortando meu braço e me fazendo morder a bochecha para evitar o grito causado pela ardência que me dominou.
— Veneno — disse rindo, enquanto eu sentia nitidamente algum fator químico invadindo meu sistema. — Agora a gente vai parar de dançar.
Corri até a outra parede, apoiando meus pés e tomando impulso para acertar um chute em sua cara. Logo em seguida, outro soco, e antes que a p*****a segurasse o canivete com mais força, cravei minhas unhas em seu rosto, fazendo questão de arranhar e sentir sua pele rasgar sob minhas mãos. Segurei seu pescoço, fechando meus braços ao seu redor e aplicando uma chave de braço, a ordinária filha da pūta esfaqueou meu braço, mas não a soltei.
Joguei meu corpo no chão, trazendo-a comigo, e fechei minhas coxas ao redor de seu corpo. Forcei seu pescoço enquanto fechava sua passagem de ar. Vi o desespero dominar seus olhos, e quando ela abriu a boca, notei o brilho de um comprimido.
Sem dar tempo de deixá-la concluir seu suįcídio, enfiei meus dedos em sua boca. Sem afrouxar o aperto no pescoço, puxei o comprimido de dentro de sua garganta, e aos poucos a vadįa parou de se debater e caiu desmaiada em meus braços.
Soltei-a de imediato, deixando meu corpo esparramado no chão, e estendi meus braços no piso gelado. Suspirei, afastando uma mecha de cabelo que invadia minha visão. Fiquei por um tempo deitada, esperando o ar voltar aos meus pulmões, mas no instante em que minha visão ficou turva, empurrei o corpo dela para longe e me levantei, indo de encontro ao aparelho que não parava de tocar. Assim que atendi, ouvi uma voz furiosa do outro lado da linha.
— Caralhö, Ana! — ouvi a voz de Rubens bradar do outro lado. — Quando se dá um celular é pra ser atendido, pōrra! Estou saindo daqui agora!
— Então continue — disse, ofegante, enquanto caminhava até a cozinha, desesperada por um copo de água.
— O que aconteceu? — pude ver Rubens paralisar do outro lado da linha. — Por que sua voz está assim? O que está acontecendo aí?
— Estamos sendo atacados — disse friamente, enquanto pegava a faca de serra do chão e caminhava na direção da mulher. — Jéssica Juvenal invadiu seu apartamento, informando que tinha ordens para me måtar.
Comecei a rasgar os tecidos de sua roupa preta, procurando por uma bendita tatuagem. Era uma lei que toda máfia deveria seguir: seus membros deviam ter uma tatuagem de identificação. "Bingo", pensei assim que vi em seu antebraço a tatuagem de uma rosa em chamas.
— Você está me ouvindo, Ana?! — piscando, me lembrei de Rubens. — Saia do apartamento agora! Eu e Makyson...
— As pessoas que atacaram o arsenal tinham a tatuagem de uma rosa em chamas? — perguntei.
— Sim — ele respondeu sem hesitar, já que Mancini estava me vendo como uma traidora e eu não estava por dentro das informações recentes na sede.
— Então é isso, floco de neve, estamos literalmente sendo atacados — suspirei, sentindo minha cabeça doer. — Chega logo, acho que fui envenenada e preciso ir ao meu laboratório.
Desliguei a chamada e caminhei até o quarto onde estava. Assim que joguei o aparelho na cama, ele voltou a tocar. Revirei os olhos, tirando a faca ainda presa no meu braço e arfando de dor.
Ignorando tudo ao meu redor, prendi meu cabelo em um coque desajeitado e comecei a tirar o pijama, querendo colocar uma calça legging e uma regata preta. Troquei meus pés descalços por um tênis.