POV Yani
Acordo com uma sensação de peso nos olhos, como se a exaustão me envolvesse por completo, tornando impossível abrir as pálpebras, como se meu corpo estivesse imerso em um sono profundo, mas, ao mesmo tempo, inquietante. O tempo vai passando, e aos poucos, uma força misteriosa me desperta, obrigando-me a abrir os olhos, ainda com dificuldade. Quando finalmente consigo focar a visão, imediatamente reconheço o lugar ao meu redor: é a cachoeira que fica perto da minha casa, o som da água caindo incessantemente é familiar e reconfortante, mas algo está profundamente errado. Como vim parar aqui?
Minha mente retorna a um momento recente... Brian. Eu o vi, eu compartilhei os meus poderes com ele. Mas como? Eu nem sabia que isso era possível, como eu poderia ter feito algo assim? O pensamento me angustia, enquanto o peso da confusão toma conta de mim.
De repente, uma voz, suave como o vento, me chama. Olho ao redor, mas não vejo ninguém. Apenas o barulho constante da cachoeira preenchendo o silêncio. Então, novamente, a voz se faz ouvir, mais clara, mais urgente, como se estivesse tentando atravessar as barreiras da minha mente. E é então que percebo: a voz vem de trás da cortina de água. Meu corpo se move instintivamente, e eu me vejo seguindo o som até chegar a um caminho estreito, um trilho íngreme que parece estar me guiando, como se estivesse destinado a me conduzir para algum lugar desconhecido, mas familiar.
Caminho com cuidado e, ao virar uma curva, algo incomum chama minha atenção. Uma flor, de um vermelho intenso como o sangue, brilha ali, solitária, como se desafiasse o ambiente selvagem ao redor. Não é uma rosa, isso eu sei. Mas que flor é essa? Um mistério que ecoa em minha mente. Ao tocar a pétala da flor, o espelho da água da cachoeira se agita, e, com um movimento etéreo, o rosto de uma mulher surge diante de mim, refletido sobre a superfície fluida. Não sinto medo, mas uma profunda curiosidade me toma por completo, como se esse momento fosse parte de algo maior.
— Me chamou? — pergunto, quase como se minha voz fosse um eco de minhas próprias dúvidas.
— Sim, Yani Evans. Eu te chamei há muito tempo, mas você era jovem demais para me ouvir.
Nesse instante, uma memória me invade, vívida e inesperada: meu aniversário de dez anos. Eu estava indo para a casa de minha avó, e foi nesse momento que ouvi uma voz, uma presença imponente que me parecia familiar e distante ao mesmo tempo. Como se estivesse lendo meus pensamentos, a mulher responde:
— Era eu te chamando.
Minhas perguntas se acumulam, mas uma se destaca acima das demais:
— Por que me chamou?
— Para te dizer a verdade — a resposta é profunda, como um segredo guardado por séculos. — Seus poderes vão além do que você imagina. Seu poder é como essa flor, onde você é o caule e sua matilha são as pétalas.
Meu coração acelera, o entendimento começa a nascer, mas as palavras ainda não fazem sentido.
— Você quer dizer que posso compartilhar meus poderes com quem eu desejar?
Ela sorri com uma suavidade enigmática e responde:
— Não. Eu digo que você compartilhará um terço de seu poder com aqueles que precisarão dele. Você saberá com quem compartilhá-lo. Mas o principal poder será dado ao seu companheiro. Eu decidi isso. Na noite de acasalamento, você poderá compartilhar seu poder com ele, e ele compartilhará o dele com você. Vocês nasceram para estar juntos, assim como eu vivi para cumprir o meu destino.
O peso das palavras se instala sobre mim, como uma verdade imutável, mas algo ainda me inquieta.
— Quem é você? — a pergunta sai como um sussurro.
A mulher, com um olhar carregado de mistério, começa a desaparecer lentamente. Seu rosto se dissolve na água, mas sua voz persiste, como um último suspiro de alerta.
— Preciso ir. Você terminará o que eu não consegui terminar. Tenho fé em você... Mas, lembre-se: não confie em Líam. Ele virá atrás de você, e te enganará, assim como me enganou...
Com essas palavras finais, ela se desvanece por completo, deixando-me sozinha com uma tempestade de perguntas e incertezas dentro de mim.
Fico parada, absorvendo o peso das revelações, ainda tentando entender o que tudo isso significa. Então, minha atenção se volta novamente para a flor, e, de forma quase involuntária, estendo a mão para tocá-la mais uma vez. Ao fazer isso, sinto uma onda de energia percorrer meu corpo, como se eu estivesse absorvendo algo de dentro da flor, algo muito mais antigo e poderoso do que qualquer coisa que eu tenha experimentado. O vermelho intenso da flor começa a desaparecer lentamente, se dissipando no ar até que, finalmente, ela se evapora por completo.
Sinto-me tonta, minha visão fica turva e as forças começam a abandonar meu corpo. Uma sensação de peso me toma por completo, como se cada parte de mim estivesse se desintegrando. Não consigo resistir. Meu corpo cede à vertigem e à exaustão, e eu me vejo desabar nas águas da cachoeira, sendo engolida pela correnteza, como se a própria natureza quisesse me levar embora.
Acordo lentamente, como se estivesse emergindo de um sono profundo e desconcertante, o peso da cabeça é avassalador, e a sensação de estar desorientada não me deixa em paz. Minha visão ainda está turva, e o ambiente ao redor parece embaçado. A luz suave de um quarto de hospital entra pelas cortinas fechadas, iluminando vagamente as paredes brancas e frias. Automaticamente sinto o cheiro de Brisa do mar, sei que ele está aqui. É como se eu estivesse de volta à beira da praia, sentindo o vento fresco e salgado nos cabelos, com o som das ondas batendo suavemente nas rochas. É o cheiro de liberdade
Meus dedos se movem levemente, tentando se ajustar à nova realidade. Minha mão… Eu sinto algo. Uma sensação quente e reconfortante, como se uma força invisível estivesse segurando minha mão com delicadeza, mas firmeza.
O som de uma respiração tranquila chega aos meus ouvidos, suave e ritmada. Viro a cabeça lentamente, tentando entender o que está acontecendo, e então vejo Brian. Ele está ao meu lado, sentado em uma cadeira, sua cabeça descansando sobre o apoio de uma cama, os cabelos desarrumados, os olhos fechados, e um semblante de paz em seu rosto. Ele segura minha mão com ternura, como se temesse que eu fosse desaparecer a qualquer momento. Como se soubesse que eu o estava olhando ele abre os olhos devagar.
Ao olhar para ele, percebe que seus olhos, normalmente tão claros, estão turvos, uma névoa obscurecendo o azul vibrante. Um frio sobe pela espinha, e uma lembrança do que havia visto antes de desmaiar surge – a flor vermelha, a voz da mulher na cachoeira, e o poder que havia absorvido.
— Você está bem? O que aconteceu?
— Está tudo bem, fico feliz que esteja bem. - Brian diz de forma calorosa, mas percebo incomodo em seus olhos.
— O que hove com seus olhos, acabei de acordar e já estamos brigando? Digo de forma rápida para que ele sabia que eu saber a verdade.
— Cassandra… ela fez algo comigo nas masmorras. Não sei como, mas aquilo… me fez perder um pouco da minha visão…
Olho curiosa, — Cassandra, o que ela tem haver com isso?
Ele pacientemente me explica tudo o que ocorreu a partido do momento que teve a visão.
— Brian, os calafrios acontecem comigo também, isso significa que a pessoa está mentido ao responder sua pergunta. Ele me olha surpreso.
— Feche os olhos...
Coloco minha mãos sobre seu olhos e sinto um calor que emana de minhas mãos, é suave no início, mas logo se intensifica. Como se uma luz fosse despertada dentro dela. A energia circula em torno da plana de minha mão. Seus olhos absorvem a sensação, e quando os abre novamente, há um brilho renovado, uma claridade que não estava ali antes.
— Você fez isso. Eu… eu me sinto melhor agora.
Ela retira as mãos, ainda sentindo a energia vibrar dentro de si. Olha para ele, os olhos cheios de perguntas, mas também de uma certeza silenciosa.
— Eu não sei como, mas… algo dentro de mim, tive um sonho, me permitiu fazer isso. Eu precisava curar você.
Ele sorri, tocando o rosto dela com a ponta dos dedos, como se quisesse confirmar que ela estava realmente ali, que tudo estava bem.
— Eu confio em você. E sei que não importa o que aconteça, você vai conseguir entender esse poder…
Ela sente uma onda de calma tomar conta de si. As palavras dele a tocam profundamente, e sabe, mais do que nunca, que sua jornada com ele está apenas começando. Eles têm algo juntos, algo que vai além do que ela pode imaginar. O médico da alcatéia chega e faz todos os procedimentos necessários.