Meus pés doem, meu coração segue bombeando mais sangue do que deveria. Um queimor percorre meu corpo, junto com o nervosismo.
Sinto-me como um passarinho que acabou de nascer e ainda não sabe voar, mas caiu do ninho.
— Perdida, senhorita? — Meu corpo gela ao ouvir a voz masculina logo atrás de mim.
Finalmente meus gritos desesperados atraíram alguém, mas necessitava ser um homem?
Já estou desorientada por não saber onde estou, ou como voltar para casa. Para completar, eu tenho nenhuma experiência com o s**o masculino. Além do meu pai, eu nunca falei com um. Os guardas do palácio não tem permissão para falar comigo, a não ser que lhe seja ordenado.
Engulo seco, respiro fundo e movo lentamente meu corpo até encontrá-lo.
Para minha surpresa, ele não é apenas um homem. Eu li muitas histórias ao estudar literatura, grega, romana, vários exemplos de homens belíssimos. Se eles existissem, seriam exatamente assim.
Fico paralisada, sem saber como como começar a falar diante dele. Me sinto uma i****a. Como a Princesa, futura rainha, não consegue nem abrir a boca diante de um homem?
Na verdade eu abro, mas torno a fechar, sem conseguir liberar nenhum som de minhas cordas vocais que parecem falhar assim como meu coração no momento em que ele sorri mostrando a fileira perfeita de dentes brancos e as covinhas em suas bochechas.
O homem é alto, voraz, com lindos cabelos negros e sedosos, seus olhos cor de mel são a coisa mais linda que já vi, eles brilham com os raios solares da manhã que o fazem muito bem. É alto, bem alto, e perto dos meus 1,65 de altura parece ainda maior. Devo chutar que é mais de 1,90. Além disso, seu corpo é forte, mas ao mesmo tempo não é coberto de músculos.
— Olá, está tudo bem? — Sorri. — Eu ouvi os gritos, está perdida?
Sua voz é branda, calma, ele fala comigo como se tivesse medo de me assustar ainda mais. Apenas assinto com a cabeça sem dizer nada, tirando outro riso dele.
— Você é muda? — Questiona, não troçando de mim, mas curioso. — Se eu for te ajudar, preciso saber para onde deseja ir.
Respiro fundo, um pouco trêmula, tentando achar minha voz. Mas meu coração parece que está correndo uma maratona dentro do meu corpo. Logo atrás dele há um carro com frutas e verduras, frescas e cheirando bem, muito coloridas. Franzo o cenho, intrigada.
— Para o palácio. — Curvo os olhos para o chão.
— Então estamos indo para o mesmo lugar. Posso acompanha-la? — Escondo um riso de euforia que rascunhei no meu rosto.
— Eu adoraria.
Ele carrega com facilidade as barras de madeira que levantam o carrinho carregado e começa a andar, fazendo sinal com a cabeça para que eu o siga. Mais tranquila, caminho silenciosamente ao lado dele, que parece não gostar muito de silêncio.
— Meu nome é Tristan, a propósito. É um prazer conhece-la. — Rompe o silêncio, atento ao caminho em nossa frente.
— É um prazer conhece-lo, Tristan.
— Obrigado. Mas geralmente as pessoas dizem seu nome também, sabe? — Ele tem um jeito leve, alegre e jovem. É como se fosse um desbravador do mundo e isso me intriga de um jeito preocupante.
— Entendo. Receio que essa não é uma situação "geral". — Retruco.
— Olha só... Há alguns instantes você nem abria a boca e agora já está me colocando em meu lugar, meus parabéns. — Levo a mão a boca, na tentativa de conter o riso, mas falho.
Gargalho - o que não é coisa de uma dama fazer em público, seu riso deve ser doce e calmo, apenas visível e não sonoro.
— O que foi? — Questiono ao notar seu olhar direcionado a mim, me assistindo sorrir, no mesmo momento minhas bochechas coram.
— Não seria adequado falar, Princesa.
— O que disse? — Meus olhos quase saltam do meu rosto. Paro de caminhar, ele faz o mesmo.
— Eu disse... Princesa. — Repete pausadamente, numa espécie de afronta enquanto larga seu carrinho e se aproxima de mim.
— Sinto muito decepciona-lo, senhor, mas não sou a Princesa. — Minto o mais convincente que consigo ser com minhas pernas falhando a cada passo que ele dá para perto de mim.
— Não é a Princesa? — Questiona desconfiado, com uma das sobrancelhas erguidas e me analisando dos pés a cabeça.
— Não, não sou. — Torno a engolir seco, buscando ar. — Por favor, afaste-se.
— Por que? Estamos conversando, devo ficar a metros de você? — Ironiza.
— Senhor... Eu...
— Será nosso segredo, Princesa.
— Eu já disse que não sou ela e acredite em mim, a Princesa Angeline ficaria ofendida se visse o senhor comparando-a a uma pobre criada. — Insisto.
— Uma criada? — Gargalha. Seu rosto se ilumina a cada vez que ele sorri, seus cabelos bagunçados dançam em sua testa e o dão um ar despreocupado. — Seu robe, é inalcançável para qualquer criada. Você fala como se tivesse saído de um livro de história e bom... todos falam que a Princesa é a mulher mais bela do nosso país.
— É por isso que...
— Não pode haver alguém mais bela que você, nem no reino, ou em qualquer outra parte do mundo. — Me interrompe.
— Está enganado, senhor. — Peço, com a cabeça baixa e tento passar por ele, que coloca seu corpo enorme para impedir minha passagem. — Sou uma das damas de companhia da Princesa, por isso tenho acesso a tais roupas e uma boa educação.
— Não irei insistir mais, então, aceitarei sua recusa em silêncio. — Sorri com os olhos e libera minha passagem, sinalizando com a mão para que eu continue o caminho.
— É você quem sempre entrega verduras para o palácio? — Questiono, lembrando da paixão de Caterine pelo entregador.
As características que ela nos deu foram diferentes em demasia e por isso fico curiosa.
— Sim, sou eu. — Franzo o cenho. — Na verdade isso sempre foi o trabalho da minha família, mesmo que eu deteste.
— É um trabalho muito digno e bonito, lidar com a terra, conhecer tão bem os alimentos, plantar e colher. — Vamos caminhando pelas estradas de chão rodeadas de árvores e mata.
— Não é essa a questão. É um trabalho bonito, apenas não é para mim. — Se explica, felizmente não ficando bravo com a minha intromissão. — Eu tenho outros planos.
— O que gostaria? Deixe-me adivinhar, se tornar um modelo em alguma passarela famosa pelo mundo? — Brinco.
— Acha que pareço um modelo? — Tristan lança-me um olhar libertino.
— Não olhe-me de tal maneira. — Desvio o olhar, sentindo como se borboletas voassem aleatórias em meu estômago e minhas bochechas corarem. — Você parece ter as características necessárias para mim.
— Não sou a sua Princesa, senhorita. Não precisa falar comigo tão formalmente, basta dizer que sim. — Sorri. — Mas não, eu... Quero ser um pintor, um artista. Colher verduras não é o que eu quero para minha vida, mas preciso ajudar no sustento da minha família. Nem todos podem se dar ao luxo de sonhar. — Meu queixo cai, estou literalmente boquiaberta com sua revelação. — O que foi? Está chocada.
— Devo dizer que sim. — Gargalho, não me divertindo, mas com animação. — Estou extasiada... Quer dizer... É preciso muita sensibilidade e um lindo dom para tal profissão. Não achei que teria o prazer de conhecer um homem com tais qualidades.
— Infelizmente, eu sou apenas um aspirante a pintor. — Revela. — Não tinha intenção de criar tanta expectativa. Mas se estiver interessada, eu posso lhe mostrar algumas das minhas pinturas um dia desses.
— Eu adoraria, Tristan. — Me entristeço, lutando para não mostrar as feridas do meu coração para ele. — Mas eu infelizmente não posso sair muito do palácio, a Princesa necessita dos meus cuidados e preciso estar a sua disposição.
— A Princesa não pode se cuidar sozinha por alguns minutos? — Questiona.
— É o meu trabalho. — Retruco, sentindo meu corpo fraquejar e cambaleio por cima do corpo enorme de Tristan. — Sinto muito, eu...
— Está tudo bem. — Tranquiliza. Minhas mãos me impediram de me chocar contra ele, elas pousaram em seu peitoral firme. Sinto seu calor nas pontas dos meus dedos, seu olhar me causa calafrios desconhecidos a medida que o pouco do verde no mel dos olhos dele vai me despindo lentamente. — Você está bem? O que aconteceu?
— Estou, perdoe-me por isso. — Respiro fundo e lentamente retiro minhas mãos dele. Ajeito meu robe e tento controlar as sensações do meu corpo, sensações essas que me deixam confusa. Tristan larga seu carrinho e para minha infelicidade dirige sua atenção apenas a mim. — Caminhei até o sol raiar, não comi faz algum tempo, estou apenas um pouco fraca. Não há nada para se preocupar.
— Entendo. — Sorri de lado. — Permita-me, por favor.
— Perdão? — Franzo o cenho, mas não tenho tempo de receber resposta alguma. Tristan fecha as mãos em minha cintura e me ergue até a borda do carrinho de madeira.
Meu coração definitivamente não estava preparado para sentir seu toque, as mãos dele são enormes e fortes. Tristan me levanta como se carregasse uma simples pétala de uma rosa, com facilidade e delicadeza, até me sentar na madeira livre de seu carrinho de verduras. Minhas bochechas coram e engulo seco, um pouco trêmula - torcendo para ele não perceber.
— Eu também tenho algumas frutas aqui, espere um instante. — Pede. Novamente perdi totalmente a fala, então não consigo repreende-lo pela impertinência ou agradece-lo pela preocupação. — Que tal... Gosta de tangerinas?
Já comi algumas vezes, mas a fruta já vinha descascada e pronta para consumo. Não faço ideia de como dizer a ele que uma pessoa normal não sabe descascar uma tangerina. Penso alguns instantes numa resposta plausível e crível, mas Tristan não espera, ele vem até mim com aquele sorriso lindo no rosto e para em minha frente.
Eu o assisto descascar com facilidade a fruta em suas mãos grandes, então ele mesmo retira o primeiro pedaço e aproxima de mim esperando que eu abra minha boca. Meus olhos estão crescidos e meu rosto avermelhado quando abro meus lábios, permitindo que ele gentilmente coloque a tangerina na minha boca.
— Está deliciosa. — Solto hipnotizada pelos seus olhos e sua forma natural de olhar, seu sorriso lindo torna a aparecer. — Obrigada.
— Nós somos os únicos que produzimos na região. — Avisa.
— E o faz muito bem.
— Deixe-me experimentar. — O homem simplesmente leva o dedo que acabou de tirar da minha boca até seus lábios e chupa despreocupado. — Realmente, deliciosa.
Nesse momento um frio desconhecido sobrevoa minha barriga, me fazendo levar a mão disfarçadamente até o local e franzir o cenho. Tristan tem um olhar satisfeito no rosto, mas acaba se compadecendo da minha situação e me entrega a fruta para que eu continue a me alimentar.
Estou controlando melhor minha respiração, mas o controle vai por água abaixo quando Tristan se ajoelha em minha frente e segura meu tornozelo, levantando alguns centímetros da barra do meu robe. Tento puxar a perna como autodefesa, mas ele me impede, segurando com força.
— Não se preocupe, vai ajudar com a dor, confie em mim. — Posso não conhecer muito da vida, mas sei que não é adequado confiar em estranhos.
"Ele parece inofensivo" - Digo a mim mesma, antes de relaxar o pé.
Uso a tangerina para me distrair, tentando não pensar no homem belo e forte ajoelhado na minha frente. Tristan retira a pantufa do meu pé e começa a massageá-lo. Ele tem mãos fortes e dedos habilidosos, seu aperto é firme e cuidadoso, me causando arrepios por todo meu corpo. Fecho os olhos sentindo cada parte minha reagindo ao toque dele, um arrepio na espinha, meu ventre, meu coração, tudo muda a cada carícia dele.
— Isso é...
— Muito bom, não é? — Comenta sorridente, trocando de pé e fazendo o mesmo com o outro. — Sou bom com as mãos, mexo com terra e sou pintor.
— Tenho certeza que sim, em breve você será um grande pintor.
— Não tenho tanta certeza disso, eu tenho coisas mais importantes para fazer do que pensar em mim mesmo.
— Entendo. — Ele nem imagina o quanto.
— Meu irmão é mais novo, ele vem as vezes trazer as verduras em meu lugar. Mas eu prefiro que ele estude e eu faça o trabalho pesado, então não sobra muito tempo.
— Irmão? — Sorrio. — Por acaso seu irmão tem cabelos com cachinhos loiro médio?
— Sim, ele tem. — Franze o cenho, confuso.
É o entregador que a Caterine viu! Por isso ela não o viu mais... Tristan só precisou de ajuda no dia.
— Uma amiga... — Seus polegares conseguem amolecer meus pés e aliviar as dores, me interrompendo. — Humm... — Não consigo controlar um gemido baixo quando ele aperta entre meus dedos. Eu o encaro petrificada comigo mesma, desejando desaparecer, mas Tristan apenas sorri despreocupado e continua a massagem. — Uma amiga encontrou com ele, como nunca vi você no palácio, achei que ele era o entregador de verduras.
— Creio que ficarão sem ver o Philip por um tempo, é época de provas. — Cate está me devendo uma, graças a mim ela saberá o nome de seu amado misterioso e também que ele ainda está no colégio.
— Podemos continuar, por favor? — A conversa, a companhia e ser uma pessoa comum está sendo maravilhoso, porém a realidade me aguarda. — A Princesa vai acordar em breve e preciso estar com ela, é um dia importante.
— Acha que consegue andar normalmente agora, senhorita? — Tristan devolve o calçado aos meus pés e fica de pé.
— Graças a você, sim. — Ele segura minha cintura entre suas mãos, me colocando no chão com a mesma facilidade. Sorrio um pouco sem graça. — Obrigada.
— Sem problemas. — Ele torna a segurar seu carrinho de verduras e seguimos um caminho tranquilo. — Só falta alguns minutos, estamos perto.
E quando ele diz isso, meu coração vai ficando pequenininho.
Os poucos minutos que tive com Tristan foram mais reais e intensos que tive em toda minha vida. É assim que a vida seria se eu tivesse a chance de vive-la? Eu poderia ser tão feliz e livre como ele?
— Então... — Paramos frente ao palácio, não posso entrar junto com ele. — É aqui que nos despedimos. Obrigada pela ajuda, Tristan.
— Foi um prazer, Princesa.