— Você definitivamente está tentando nos m***r, Angel! — Cate exclama repousada em minha cama.
Rose penteia meus cabelos em silêncio e Jan tem suas costas apoiada na parede ao lado da minha penteadeira, me encarando.
— Perdão, meninas. — Lamento. — Mas tive uma noite péssima, foi necessário buscar refúgio entre as flores.
— E para que nós servimos, Alteza? — Jan também está irritada. — Pelos Santos, nós entramos em desespero ao não encontra-la em seus aposentos.
— Não continuem a perturbar a Princesa, garotas. A Angel está passando por uma momento complicado e nosso papel é apoia-la. Se ela precisou de ar durante a noite, qual o problema? — Rose se põe em minha defesa, sempre um amparo para mim. — A pobrezinha deve ter ficado aterrorizada sozinha lá fora, no meio do nada.
— Sim, eu fiquei. — Abaixo a cabeça, recebendo uma carícia de consolo em meus fios. — Até que...
— Até que o que? — Cate rapidamente senta em cima de seus joelhos, se interessando pelo assunto.
— Um entregador de verduras me encontrou nos arredores, ele foi muito gentil e me guiou até o palácio. — Encaro meu reflexo no espelho, caminhando até hoje na aurora.
As cenas se repetem em minha cabeça e me permito sentir a mesma euforia, mas logo me obrigo a retornar para minha cinza realidade.
— Um entregador? Meu entregador? — Os olhos de Cate brilham.
— Para sua sorte, descobri o nome dele. O homem que encontrei é irmão do seu amado. Philip, não é um entregador e por isso apenas substituiu seu irmão no dia que você o encontrou. — Explico.
— Isso quer dizer que eu não o verei mais? Quer dizer... Philip não voltará ao palácio?
— Não é uma resposta que eu possa dar-lhe. Tristan não quer que seu irmão faça o serviço dele, então creio que apenas se houver uma extrema necessidade.
— Meu amor não é uma extrema necessidade para vocês? Como ousa pisar assim nos meus sentimentos? — Cate dramatiza nos fazendo gargalhar, mas meus pensamentos viajam até Tristan.
— Agora você nos contará tudo em detalhes, mocinha. — Rose avisa, num tom divertido.
— Será um prazer. — Ao menos eu poderei reviver tudo, em meus pensamentos.
•••
— Santíssimo! — Todas três meninas me olham como se vissem um fantasma.
Me assusto, ainda não vi o resultado da produção que durou o dia inteiro – Incluindo banhos, cuidados com pele, cabelo, unhas, prova de vestido, repassar os detalhes da noite e de como devo me comportar e assim por diante.
— Todas sabemos como você é linda, Angel, mas... — Continua Rose. Os olhos cheios de lágrimas. — Nenhuma de nós imaginava que o resultado pudesse ser tão espantoso.
— Graças a vocês. — Sorrio caminhando até elas, estendo as mãos e Rose pousa as dela sobre as minhas. — Está tudo bem, Rose. De verdade, eu sempre estive pronta para esse momento.
— Esse é justamente o problema, não é justo que sua vida tenha sido resumida a esse momento. Gostaria mesmo, todas nós gostaríamos... — Olha para as companheiras ao seu lado. — De poder fazer algo por você.
— Mais? — Sorrio. — Meninas, vocês são a minha vida. Minhas melhores amigas, as minhas confidentes, vocês são a única coisa que eu não mudaria na minha vida, são por quem eu oro todas as noites. Vocês são a família que Hyperion me deu.
— Se você não estivesse tão impecável e não fosse amassar o seu vestido, te daria um abraço agora. — Cate comenta, segurando as lágrimas.
— Parem já com isso! — Abro os braços, totalmente emocionada e exposta. As três se entreolham. — Venham aqui, é uma ordem!
Não sei se é o fato de estar completando os dezoito anos, o meu coração fraquejando desde o encontro com Tristan essa manhã, ou porque estou abrindo não de mim mesma hoje que é o motivo de meus sentimentos estarem descontrolados.
Cedendo, minhas fiéis companheiras me abraçam. Ficamos assim por segundos, uma amparando a outra até ouvirmos batidas firmes na porta. Está na hora!
A essa altura a festa já começou, as pessoas convidadas, inclusive a imprensa já estão no palácio se divertindo e a espera da Princesa escondida, a Pérola de Hyperion.
Caminho elegantemente até o enorme espelho preso a parede dos meus aposentos, assumindo a postura oficial e formal da Princesa. Respiro fundo ao encarar o meu reflexo, realmente, nem mesmo eu sou capaz de me reconhecer.
Meu vestido é verde, como a cor da nossa bandeira e das folhas da árvore que representa nosso reino, Hyperion. O decote em triângulo favorece meus s***s apertados no espartilho que torna possível minha cintura ser rodeada até por mãos pequenas como as minhas, sem contar pelo corpete totalmente coberto por pérolas. O tecido fino despenca da cintura até o chão, num volume digno das Princesas da Disney ou de uma verdadeira noiva. Na saia inteira há bordados a mão em forma de folhas que vão embelezando a roupa.
Meus cabelos foram trançados, uma mistura de vários tipos de tranças. O penteado começa com uma trança embutida, despencando numa tranca lateral espinha de peixe volumosa até a altura do quadril. No comprimento da trança, pontos brilhantes de pérola para combinar com o corpo do vestido foram presos, uma das minhas tiaras mais chamativa, feita de ouro e coberta de esmeraldas.
A maquiagem é leve, tons pastéis e um rosado leve na boca. Meus pés cobertos por um simples sapatinho perolado, com saltos médios que fazem barulho a cada passo meu até a sala do trono. Os bailes acontecem aqui para lembrar o poder do Rei e da Rainha.
As portas enormes estão fechadas em minha frente, e no momento em que elas abrirem, o mundo saberá quem sou eu. Meu coração bate num ritmo desconhecido, fora de qualquer compasso. Meus pensamentos inevitavelmente caminham até Tristan.
Até o último instante, ele me chamou de Princesa. Não fui capaz de convence-lo que era apenas uma empregada do palácio, mesmo assim, tentei. Menti olhando em seus belos olhos cor de mel, na tentativa de manter nosso encontro como algo puro, real e longe de toda a obrigação que o meu cargo exige. Eu quis ser apenas a Angel.
Mas amanhã, ou melhor, daqui a alguns instantes, meu rosto estará estampado em cada jornal, tela, revista e mídia que se possa imaginar.
Uma lágrima solitária escorre pelo meu rosto quando lembro do sorriso dele, as covinhas aparecendo em suas bochechas, os olhos se fechando... Pelos Santos... Que d***a é essa no meu coração?
Concentre-se, Angeline. Tristan foi um belo instante. Foi como a bruma do mar, logo ela se desfaz, assim como ele.
Uma fresta vai surgindo na minha frente, luzes me iluminando. As portas estão se abrindo. Puxo o ar até encher meus pulmões, na tentativa de buscar forças. Então levanto o máximo que posso meu queixo assumindo uma pose que não é minha, fingindo uma coragem que eu não tenho.
— Princesa Angeline Brighton MacGyver Windsor. — Meu nome é apresentado assim que as portas se abrem, os flashes começam junto com olhares e burburinhos.
Estou acostumada com os flashes das câmeras, uma das coisas que envolveu meu treinamento foi me preparar para isso, com o objetivo de sair bem nas fotos. Mantenho os olhos abertos, o queixo erguido e uma pose séria, oficial.
Começo a caminhar lentamente pelo tapete vermelho que leva ao trono dos meus pais. Aceno com a cabeça, cumprimentando educadamente as pessoas no caminho. Cada par de olhos estão virados para mim, cada boca fala sobre mim.
Todos me encaram numa confusão explícita em seus rostos, choque e satisfação. Curvo meus lábios num sorrisinho fraco.
— Meu Rei. — Me curvo respeitosamente frente ao trono. — Minha Rainha.
— Está belíssima, minha Angeline. — Meu pai é o primeiro a me receber.
Sorrio para ele, fico de volta a minha posição inicial e sigo para o meu posto, de pé entre os dois tronos.
— Tenho certeza que o Príncipe irá se encantar com você. Realmente parece uma Pérola, delicada e rara. — Minha mãe tenta me tranquilizar, apenas lanço um olhar e um sorriso para ela.
— Onde estão os dois? O Rei e o Príncipe de Bulmond? — Questiono. — Gostaria de conhecê-los.
— Ainda não estão presentes no baile, filha. Mas acalme-se, logo acabaremos com sua curiosidade. O Rei e seu neto ficarão conosco até o casamento, para vocês se conhecerem melhor. — Por um momento saio da minha postura, encarando meu pai com uma clara surpresa. — Os dois chegaram no palácio hoje pela tarde, logo devem se juntar a nós.
— Eu não fui informada. — Meu tom não é dos melhores, mas me esforço em não demonstrar desrespeito.
— Não mudaria a sua rotina, Angeline. De qualquer forma, não seria apropriado você ceder a curiosidade e se esgueirar pelo palácio para conhecê-lo. — Explica meu pai, ganhando meu silêncio como resposta.
Todos se divertem, enquanto meus pés doem, apertados pelo bico fino do sapato. Mesmo assim, mantenho minha postura, afinal todos os olhares são direcionados a mim. O meu posto impede que as pessoas se dirijam a mim, mas é possível notar o êxtase delas em relação a mim e o desejo de se aproximar.
A imprensa registra cada momento da família real, focando a mim em especial, que apareço ao lado dos meus pais publicamente pela primeira vez. Imaginei que estaria mais nervosa, mas não, estou tranquila. Talvez graças ao preparo que recebi, porque ainda não precisei ter contato com ninguém, ou porque o Príncipe ainda não se juntou a nós.
— Majestades, Vossa alteza. — Um jovem se aproxima, cumprimentando respeitosamente ao fazer reverência. Meu pai apenas acena com a cabeça sinalizando para o jovem ficar de pé novamente. — Gostaria de pedir a honra de ter uma dança com a Princesa.
É um rapaz bonito, comum, mas bonito. A ideia de sair dessa posição e aproveitar como uma pessoa normal me anima, me causando certa euforia, que não dura muito.
— Infelizmente eu terei que recusar seu pedido, meu jovem. — Meu pai n**a. — A Princesa não está disponível. Mas há belas jovens no salão, tenho certeza que encontrará alguma que o chame a sua atenção.
Cabisbaixo ao me lançar um olhar de decepção e um sorriso falso, o homem acena com a cabeça e caminha para longe levando consigo a chance de fazer a minha noite menos longa.
— Veja, querida. Acredito que o Rei e seu neto estão chegando. — É a tentativa de minha mãe para me animar após a recusa do meu pai.
Respiro fundo, puxando a maior quantidade de ar que posso para meu corpo e encaro as enormes portas se abrindo. A cada minúscula a******a, sinto meu coração saltitar no meu peito.
Mas... O homem que aparece não pode ser o
Príncipe George.
Um idoso em vestes reais aparece sozinho. Com certeza o Rei de Bulmond, desacompanhado de seu neto. Para falar a verdade, sou tomada por um sentimento de decepção. Me preparei por muito tempo, sofri antecipadamente com um encontro que não aconteceu, ansiei conhecer o homem que serei obrigada a me casar mas ele nem mesmo se dignou em aparecer.
Há esperança para mim de um casamento feliz?
Ao pensar na palavra “feliz”, apenas um sorriso vem a minha mente, e é o de um plebeu que vende verduras e frutas ao palácio, Tristan.
Trago de volta meus pensamentos que novamente me traem e observo as pessoas abrirem caminho para a passagem do Rei. Ele se veste socialmente, com um terno caro mas tem um manto real para identifica-lo assim como uma enorme coroa de ouro e jóias. É um homem bem cuidado apesar da idade, alto, belos olhos e esbelto.
— Alexander, Harriet, Princesa. — O Rei acena com a cabeça, nos cumprimentando, fazendo meu pai ficar de pé. Eu e minha mãe acenamos de volta.
— William, está atrasado. — Meu pai tem um tom de riso ao estender educadamente a mão.
— Fizemos uma viajem cansativa e apesar das acomodações serem acolhedoras, passamos um tempo nos organizando e resolvendo algumas pendências do nosso reino. Foi necessário cuidar de muitas coisas para preparar Bulmond para tanto tempo sem seu Rei, Príncipe e Duque. Estou aqui apenas para não ofender vocês, que nos receberam com tantas honras. Infelizmente meu neto não está se sentindo bem e terá que se desculpar por sua ausência. — Se explica.
— Entendo. As responsabilidades sempre vem primeiro. — Concorda meu pai. Eu bem sei o peso dessas responsabilidades.
— Alteza... — Eu o encaro. — Você é realmente muito mais bela do que comentam, George é um homem de sorte.
— Obrigada, Majestade. Tenho certeza que o Príncipe também é muito afeiçoado, assim como o senhor. — Sou gentil, ganhando um sorriso do Rei.
A recepção se estende, danço algumas músicas com meu pai e com o Rei William. Sou apresentada a algumas pessoas, suprindo a curiosidade delas. No fim da noite, estou deitada nos meus aposentos pensativa. Belo aniversário.
Tristan percorre meus pensamentos, seus olhos, seu sorriso, suas mãos firmes segurando minha cintura. Ao mesmo tempo minhas responsabilidades tiram meu sono.
Fico de pé, calçando minhas pantufas e cobrindo minha camisola com um enorme roupão vermelho de linho e bordado. Meus cabelos soltos foram escovados e despencam em belas mechas castanhas.
Decido caminhar, mas dessa vez, meu destino é a sala do trono. As memórias da noite de hoje ainda estão em mim, os olhares, os comentários, os flashes, a ansiedade que fui vítima. Os guardas espalhados não falam comigo, mas aceno para eles enquanto abrem as portas da sala do trono.
Minha intenção era trazer paz ao meu coração para eu conseguir dormir, acertar o que está me causando inquietação. Mas isso é a última coisa que vou conseguir ao pisar os pés no tapete que leva ao trono.
O acento do Rei não está vazio, há um homem sentado nele, um homem belíssimo de chamativos olhos azuis.
— Princesa?