Me pergunto em qual momento da minha vida eu joguei pedra na cruz, porque sinceramente, eu não me lembro.
Primeiro traída pelas minhas amigas, depois sentenciada à morte por aquele projeto de poderoso chefão que se acha no direito de controlar onde vou e o que faço da minha vida, só porque decidiu brilhantemente, que tenho que pagar o que, supostamente, devo a ele.
A vida é uma v***a. Com certeza, é.
Estou sozinha, em um motel na beira de uma estrada, me sentindo um lixo de fracassada. Não tenho com quem contar, nem lembro da minha última refeição, e estou com as mesmas roupas à horas.
Sr. Godoy que me desculpe, por ter mentido tão descaradamente sobre ser uma boa funcionária. De longe eu seria uma, mas não tive muita escolha a não ser pegar todo o dinheiro que ele deixou no caixa juntamente com absorventes. Pois como se não bastasse não ter nem onde dormir direito, as pontadas no pé da minha barriga indicavam que o tormento do mês estava chegando, bem no dia do meu aniversário. Uhu!
Só me restava tomar um banho quente e chorar na posição fetal até ser vencida pelo sono, não só por estar sendo injustiçada por aquele cretino, mas porque em meio a todo esse caos a minha vida rumou em menos de vinte quatro horas, o que mais me maltrata é saber que as únicas pessoas que me sobraram depois de tudo que me aconteceu, agora, me deram as costas.
Maya e Ivy sabiam da minha história. Elas sabiam da nossa história. De como o Good Girls foi criado, lá quando ainda éramos três crianças presas no mundo aterrorizante da rejeição.
Quando eu tinha onze anos, passei uma situação parecida com a que vivo agora. Minha mãe tinha dado entrada no Hospital Neonatal de Londres, e como ela sempre foi mãe solo por ter o dedo mais podre que o meu para escolher homens, não tinha mais ninguém que ficasse comigo e cuidasse de mim, então fiquei exato sete dias sozinha em casa, me alimentando basicamente de chocolate. Acho que foi daí que nasceu meu vício.
Então um belo dia, depois de vários longe da minha mãe sem ter nenhuma notícia sua é tendo que me virar, uma mulher que surgiu do além, parecendo adivinhar exatamente o que acontecia, indo me buscar na minha casa. A Ruby me colocou dentro do seu carro, me olhou no fundo dos meus olhos e fez o meu mundo desabar quando falou da maneira mais natural e fria possível: sua mãe se foi, Hanna.
Como assim ela se foi?
Foi o questionamento que rondou meus pensamentos até a minha chegada no orfanato.
Não era aquele sonho que idealizei.
Portanto, eu decretei que o dia em que a minha mãe partiu, seria o pior dia da minha vida.
E foi.
Os lençóis com cheiro de mofo daquele quarto vermelho, cheios de espelhos no teto me lembrava a minha cama de solteiro no meu quarto compartilhado com mais de cinquenta garotas, eu odiava aquele lugar, assim como odeio estar aqui agora, porém confesso, um colchão, mesmo nessa situação, nunca foi tão sedutor para as minhas pernas cansadas.
Depois de me banhar, e tirar toda a sujeira dessa merda de droga dos meus ombros, me deitei, e me permiti derramar todas as lágrimas presas em meu coração, aquelas lágrimas que ninguém mais poderia ver, porque quando o sol anunciar o amanhecer, será um novo dia para mim, ou próprio fim dele.
•••
Não sei o que se passou na cabeça daquele cara, mas é impossível fazer essa pequena quantidade se tornar treze quilos. A não ser que, eu trabalhasse para ele.
Venderia, pegaria mais mercadoria com o preço menor diretamente da fonte, venderia de novo, pegaria de novo e é assim que eu me afundo, mais uma vez, na cadeia do tráfico, você se enfia nela e não consegue mais sair. É como uma força magnética que te puxa cada vez mais pra baixo, cada vez mais profundo, cada vez mais pro inferno.
Que irônia.
Essa era exatamente a promessa que ele me fez.
"Te levo pro inferno junto comigo."
Na verdade, tinha outra alternativa, onde as probabilidades de dar errado eram maiores do que a de dar certo, mas eu tentaria, tentaria porque me recuso abaixar minha cabeça para aquele grupo de meliantes, não que eu não fosse uma, mas... é exatamente por ser uma que não posso e não vou deixar meu ego ser ferido dessa maneira.
Não paro de pensar nisso tudo, quando jogo meus cabelos úmidos para trás dos ombros, ajeitando mais a jaqueta no meu corpo, enquanto observo por longos minutos a fachada do The Hell.
Donna me pagaria, eu faria ela pagar.
Novas perguntas instigam a minha ansiedade, tendo em vista que não tenho tantos recursos além da minha péssima reputação. Uma arma viria acalmar, mais mercadoria seria bom, um contato onde eu pudesse me apoiar seria maravilhoso, mas não tenho nada, nada além de medo.
Devo mesmo fazer isso?
O que o futuro me espera?
Donatella ainda estaria lá?
Perguntas que só saberia a resposta se entrasse naquele maldito lugar e enfrentasse a droga do meu passado tão sombrio ao ponto de me fazer querer fugir agora mesmo. Contudo, incrivelmente, eu sinto em algum lugar da minha alma que sei cada uma dessas respostas, só não quero abrir o meu peito para a minha intuição que parece mais uma perseguição, com tanta adivinhação r**m.
Olho pro céu azul celeste respingado com poucas nuvens, indicando que mais uma bela manhã e ensolarada de sábado estava indo embora. Os raios de sol nos meus olhos diz que o dia hoje tem tudo para ser quente, do jeito que eu costumava gostar, apesar de que temperatura estar consideravelmente fria, assim como meu coração.
Hoje eu deveria estar de ressaca, depois de ter comemorado uma grande festa de dezenove anos, mas não foi isso que aconteceu, ao contrário, eu tive uma noite péssima de sono, estou com dores de cólica na barriga e um peso de mágoa do peito.
É com esse sentimento que decido por fim, entrar pela porta discreta que revelava um grande corredor repleto de luzes vermelhas, dando uma prévia do que era e para que servia esse lugar. Esse mesmo corredor está coberto por quadros moldurando imagens sem sentido, que consigo ter quase a certeza que antes não existiam aqui. Reparo na confusão dos meus pensamentos quando sinto o cheiro de nicotina, álcool e a música sensual tocando baixinho, não consigo discernir nada, além da ansiedade de olhar na cara daquela velha e ver sua reação ao notar que estou viva e aparentemente bem. Fora isso, nada de saudade, nada de alegria, muito menos tristeza ou angústia, nem mesmo a nostalgia dos momentos bons que passei aqui, porque sim, apesar do trabalho árduo e sujo de todos os dias, eu tive momentos de alegria, de risadas, de explodir o peito com amor.
E que merda.
Quanto mais você vive, mais você entende que a realidade é feita de dor, sofrimento e vazio.
Quero o sangue nos meus olhos, quero esquecer desses bons momentos, porque preciso do ódio, da mais genuína irá, para que assim eu possa lidar com aquela mulher e lhe mostrar, que eu, semelhante a fábula da águia, que se destrói com dor mas depois volta mais forte do que nunca. Mas antes disso, eu iria quebrar meu orgulho como se estivesse quebrando meu próprio coração, e iria pedir mais uma chance, porque infelizmente o mundo é movido pelo dinheiro e agora... eu preciso de uma boa quantia para pagar a minha vida ao meu inimigo que me prometeu um lugar no inferno.
O corredor finaliza, finalmente chego na área principal, avisto as mesas, cadeiras, estofados roxos e escarlate, com o mesmo e tão familiar bar no centro, e ao redor daquele mesmo bar, ainda existia os pequenos palcos com uma grande barra de ferro que vai do chão até o teto no meio de cada um.
Bem, eu pensei que não sentia nada, mas agora, me sinto fora do meu corpo, me vendo com tanta clareza em cada pedaço daqui, como se estivesse sendo uma telespectadora da minha própria vida. Então percebo que desde de que coloquei os pés aqui, tudo o que eu fiz foi sentir, sentir muito, muito por tudo ter acabado da forma como acabou. Meu peito se aperta de uma intensidade ensurdecedora, meu coração parece que vai sair esmigalhado entre as minhas costelas, e o ar rarefeito anuncia que uma crise de pânico está chegando.
Quando entrei na cadeia, tive várias delas. Antes eu acreditava que era frescura, bobagem, que ninguém podia ter tanto medo assim de algo que supostamente já aconteceu e nem vai mais se repetir, mas que ainda está ali, como uma memória em forma de gatilho, presa no passado e não vai voltar, mas céus, só sabe quem passa por essa merda, e pode ter certeza; é uma amostra grátis do inferno.
Sou puxada do meu mundo sombrio quando escuto uma voz conhecida, dentro de um diálogo longínquo muito habitual se aproximar.
— Olha, Tryce, eu sei que não é fácil tirar a roupa assim, na frente todos, mas com o tempo você acostuma.
— Eu sei, mas é que tenho vergonha de dançar dessa forma...
Meus pés quase não viram para a direção que elas vem. Meu corpo está quase parando de funcionar, meus olhos se apertam em lágrimas. Eu não pensei que fosse sentir isso quando entrasse aqui, juro que não imaginei que fosse ser espancada pelas lembranças, mas quando eu consigo ver a imagem da Maya, distorcida pelas lágrimas dos meus olhos, meu mundo terminou de desabar.
— Hanna? — a loira correu até mim, me segurando pelos braços. — Você está bem? Você tá pálida.
Seu toque apertado me faz perceber que se ela não tivesse me segurado, eu cairia no chão, segundos depois. Estou nauseada e tonta, principalmente depois de ver seu corpo coberto por uma calcinha rendada na cor preta, meias arrastão, saltos vermelhos e nenhuma peça de roupa na parte dos seus s***s fartos. A outra garota que conversava com ela tinha os cabelos parecidos com os meus, mas além disso, tinha uma coisa que contrastava drasticamente com as vestes semelhantes a da minha amiga; uma inocência prestes a ser dilacerada. Sei disso, porque antes de entrar nesse mundo podre, nós tínhamos também e essa mesma inocência foi cruelmente exterminada.
— O que você acha, Maya? — minha voz sai com nojo entre meus lábios. Aproveito os segundos que ela tenta me firmar no chão, para olhar seus olhos castanhos, com muita mágoa.
Eu vim aqui com o intuito de falar com a Donatella, me humilhar a ela e pedir a p***a do meu emprego de volta, mesmo que isso botasse em risco a minha liberdade, como já aconteceu no passado. Apenas para pagar aquele i****a. Agora me deparar com a Maya, fazendo a mesma coisa que sempre fez ainda trabalhando nesse lugar e para aquela c****a? É uma novidade que a minha desconfiança já esperava.
Quando a Dona me traiu, me entregando para a polícia, me lembro bem do olhar da Maya e da Ivy dizendo que sempre iriam estar do meu lado, e foderiam com aquela cretina, para fazer justiça perante a covardia que ela fez comigo, sua braço direito.
Então, se antes eu fui decepcionada, o que sinto agora, não tem sequer uma definição para medir tamanha raiva.
— Acho que temos que conversar. — ela quebra contato visual imediatamente. Ela prefere fitar o chão do que ter que lidar com a vergonha que é, de ter traído a própria amiga.
Só Deus sabe o quanto isso me machuca.
— Conversar? — riu com escárnio, girando o dedo para apontar ao nosso redor para que ela entenda que eu já sei do que se trata. — Não acha que tá meio tarde pra isso? — Ela parece ainda mais constrangida, cruzando os braços em uma tentativa falhada de cobrir as partes nuas do seu corpo. Não dou a mínima para isso, a raiva que me governa só quer me fazer explodir e esvaziar essa mágoa do meu corpo. — Ivy também tá nisso? É por isso que vocês duas estão agindo estranho comigo desde de quando eu saí da cadeia?
Silêncio. É tudo que recebo dela. Mas sinceramente, isso é a resposta para mim.
Maya e Ivy estavam trabalhando para a mulher que me traiu, a mulher que me enfiou na cadeia, para a mulher que desejou o meu m*l, elas não foram atrás de justiça, elas simplesmente escolheram um lado para ficar, e esse lado não é o meu.
— Onde tá a Donatella? — grito com ela, cobrando uma resposta.
— Hanna, não faz isso... A Donna não está aqui. — seus olhos encontraram os meus de novo, agora repletos de lágrimas que quase escorrem pelo seu rosto. — Precisamos conversar, com calma. Nem tudo o que parece, é!
— Se trabalha para ela, deve saber onde aquela cretina está! — aumento mais ainda o tom da minha voz, percebendo que a força que uso para isso me faz ficar ainda mais tonta. — Eu quero falar com ela, Maya! AGORA!
— Espero que um dia você me entenda e me desculpe por isso...
Levo tempo para processar o que ela acabou de dizer, quase como um enigma, que me faz ascender a intuição quando suas orbes castanhas saem das minhas e se fixam em um ponto atrás de mim, sinto cada parte do meu corpo arrepiar, como se um fantasma tivesse surgido, mas não é a energia da Donatella que sinto, e sim, a dele.
— O destino é meu melhor amigo, não tenho dúvidas. Olha só quem ele me trouxe.
Com dificuldades, olho na direção que aquela voz, fodidamente familiar e irônica vem.
Slowan.
Em carne, osso e petulância.
Sua áurea misteriosa e intimidadora, está quase que escondida na parte escura do clube, onde as luzes não permitem que eu veja seus olhos ferinos na cor azul sobre mim. Ele me analisa, como se fosse um predador, calculando a melhor forma de avançar na minha jugular, matando com um só golpe a garota que, desde de que o destino fez nossos caminhos se cruzarem, atrapalha a sua vida.
E céus, posso fazer bem pior quando movida pelo ódio.
— Tudo bem, princesa? — a sua voz mais próxima anuncia que ele está vindo em minha direção. Impossível não saber. A sua energia é repelente a minha, consigo notar de longe quando a raiva começa a fazer meu sangue borbulhar só pela forma audaciosa que me chama de princesa, sem ao menos me conhecer. — Posso saber o motivo da sua ilustre visita no meu clube?
Meu? O que ele quer dizer com o meu?
A bile do meu estômago vem parar na boca, o suor começa a sair frio demais e as minhas têmporas parecem querer explodir.
Não respondo aquele seu questionamento cheio de autoritarismo e prepotência, ao contrário, reúno todas as minhas forças e me viro de volta para a Maya em busca de uma resposta para todos os problemas da minha vida.
Seu semblante é angustiante, nunca vi tanto arrependimento junto. É como se ela implorasse perdão sem pedir, é como se ela estivesse tentando dizer como as coisas rumaram ao caminho errado, é como se ela tentasse livrar sua culpa.
Não posso simplesmente girar uma chave e desligar meus sentimentos, não tem como não se comover com aquilo, dói saber que agiram pelas minhas costas.
— Você está trabalhando pro nosso inimigo? — pergunto como um sussurro, sentindo minha cabeça embaralhar todos os meus sentimentos.
Tudo fica confuso demais. Medonho demais. Apavorante demais.
Se Maya e Ivy trabalham para aquele cara, com a maldita tatuagem do número treze na barriga e que falou com todas as letras que manda em tudo nessa cidade, significa que isso é mais do que uma traição com a Donatella, elas trabalham para o meu inimigo e agora são minhas inimigas também.
E pior, Donna não está mais aqui, então, onde ela está?
Pânico.
Minha garganta se fecha, não consigo mais respirar, a sensação de claustrofobia me atinge, meus músculos tremem juntamente com a vertigem forte me fazendo querer fugir do meu corpo, o medo exacerbado de algo que eu nem sei explicar.
Como uma máquina pesada sem suportar a carga, eu entro em pane, então desligo, caindo bem no meio daquele lugar, que um dia, já chamei de minha casa.