9. Olhos tristes

2853 Palavras
Uma mulher com raiva pode fazer o impossível sem saber. És a verdade. Dizem que pessoas que explodem por coisas mínimas, escondem a raiva atrás de algum trauma profundo. Por mais que eu tente ignorar a parte do trauma, pode ser que tenha um "quê" de verdade nessa reflexão. A raiva faz você lutar, agir, gritar, enquanto a dor paralisa. Nem sempre esse mecanismo é consciente. A dor fará você analisar uma situação, já a raiva faz você se concentrar em prejudicar quem te causa dor. A fúria deixa as pessoas energizadas, com uma sensação de controle. Além de substituir a dor, a raiva também pode fazer com que uma pessoa se sinta poderosa. Ou seja, quando alguém te deixa impotente a raiva é uma forma de restabelecer o controle sobre tudo. E quando eu penso na raiva que corre no meu sangue, eu penso em um nome, na verdade dois.. Heron Slowan. — Faz tempo que não vem aqui, Hanna. — a senhora Ruby me faz voltar dos pensamentos enfurecidos, me chamando a atenção com seu sorriso sutil e a sua velha farda na cor pastel, caminhando comigo até o jardim. Ela continua da mesma forma, do mesmo jeitinho do dia em que foi me buscar na minha casa, quando eu ainda era uma criança birrenta que já tinha seus colapsos raivosos. Seus olhos âmbar me encaravam com aquele velho brilho de julgamento. O mesmo julgamento que todos tem sobre mim. — Estive ocupada. Fito o crepúsculo presente nas diferentes e inúmeras cores do céu que se finalizava na linha do horizonte de grama verde esmeralda no gigantesco jardim do orfanato. Aqui costumava ser meu lugar favorito. — Ocupada? — ela pega seus óculos que antes estavam pendurados no colarinho, e os coloca rente aos seus olhos grandes, como se precisasse enxergar melhor meu descaso. Limpo a garganta, enxugando o suor das mãos no meu jeans. — Como ela está? — vou direto ao assunto, pensando na ideia de que ainda dava tempo de fugir. — Igualzinha a você. — Ruby sorrir cheia de saudade. Não sei se fico feliz em ouvir isso, na verdade, isso me faz ter medo. — Quer dizer bonita, né? — pisco para ela, que revira seus olhos na mesma hora ainda com um sorriso amoroso no seu rosto enrugado. — Linda. Na mesma intensidade que rebelde. É, então sinto medo. — Não sei o que dizer a ela. — desabafo com um longo suspiro ansioso. — Já fazem tantos meses... Ruby abre o grande portal que nos dava acesso livre ao jardim. Tinha crianças por todos os lados. Sábado era o dia da recreação livre, por isso tinham pestinhas pulando, rolando, virando bichos, ou apenas brincando por todos os cantos desse lugar. Mas essas mesmas crianças sempre param qualquer traquinagem para olhar o adulto que atravessa essa porta. Nada é mais importante do que uma chance de adoção. — Fale qualquer coisa... — Ruby afaga meus ombros, me dando impulso para ir frente. — Só não diga que esteve ocupada demais para vê-la. — Está certa. — sorrio fraco, tentando disfarçar o quão péssima sou, o que me faz decidir que hoje, só por hoje, vou abrir meu coração e tentar ser a melhor irmã que posso ser. Caminho na grama, sentindo o cheiro dela molhada pela neblina da manhã. Olho em volta, procurando os cachinhos escuros, que devem estar embaixo de alguma árvore. Não acho seus olhos, mas vários olhares brilhantes me acham. Esse é um dos motivos de não gostar de vir aqui. Se eu pudesse, levaria todas essas crianças comigo. — Tia Hanna! — a garotinha com um laço enorme vermelho me acha, apesar de não ser ela quem eu procuro, sorrio com a sua chegada. — Beca. — sorrio e me agacho para um abraço. — Você cresceu! Está linda. — Você também, tia. — ela passa seus bracinhos gordos ao meu redor. — Trouxe presente hoje? Aquela sua pergunta me cai como um bloco de tijolos na cabeça. Quando eu tinha dinheiro, isso é, quando eu trabalhava com a Donna, eu sempre trazia brinquedos, chocolate, escolhia uma criança por vez para ir passear, eu sempre encontrava uma forma de alegrar o dia delas e fazê-las esquecer do quanto a vida é miserável. Mas hoje, estou tão miserável quanto a própria vida. — Não, amor. — não tenho coragem de lhe olhar nos olhos, por isso prefiro encarar seus dedinhos entrelaçados aos meus. — Prometo que outro dia eu trago. — Tudo bem, tia — ela dar pulinhos como se o que eu acabará de dizer não lhe afetasse. — Hoje é a minha vez de te presentear. Uni as sobrancelhas, sem entender bem o que ela dizia. É então quando ela puxa do bolso do vestido um enorme bombom de chocolate. — Para mim? — ela confirma, com as suas orbes azuis brilhando em expectativa. — Obrigada... Uma lágrima reluta em cair do meu olho, eu nunca permitiria que a sua inocência soubesse disso, mas aquilo era a minha primeira alimentação do dia, e olha que daqui uma hora já será noite, o que me faz acreditar que será a última refeição também. Converso um pouco mais com ela, enquanto saboreio o chocolate com recheio de cereja, extremamente doce, do jeito que eu gosto. Ela me conta que a Hope não quis sair do quarto hoje, que na verdade já fazia dias que ela não saia, me fala também que está preocupada com a amiga, e eu quase caiu na risada por isso. Que problemas as garotas de doze anos teriam? Harry Styles não atualiza mais o Twitter? Só poderia ser. Nós duas vamos até ela, bato em sua porta, mas ela não abre, então eu mesma faço. — Que merda, Beca! Eu disse que não falar com ninguém hoje. Paro no meio da porta, em choque. A garotinha dos cabelos cacheados já não é mais tão garotinha assim. Hoje estava sentada na cama, ela segurava um espelho pequeno nas mãos, e passava uma espécie de carvão nos olhos. Aquilo não seria um simples lápis de olho, tendo em vista que seus olhos dourados estavam quase inexistentes com o tanto de maquiagem que sobrecarregava eles. — Que boca mais suja é essa, Hope? Seu olhar sai do reflexo e vem até mim, num misto de surpresa e ódio. Ela separa os seus lábios, com um batom roxo escuro, um do outro, na tentativa de dizer alguma coisa. Sinto medo do que vou escutar, sei que ela está chateada, sei que está brava porque sumi, sei que eu, era a última pessoa na qual ela queria olhar nessa vida. Mas eu vim. E se estou aqui, Vou até o fim. — Me responda. — peço quando o silêncio é tudo que temos. — Quem te ensinou a falar essas coisas? — Passa um ano sem vir me ver e quando aparece, acha que pode me dar lição de moral sobre o meu vocabulário? Ok. Engulo a verdade como quem engole pregos. — Não foi um ano. — me aproximo da sua cama, procurando um buraco no chão para enfiar minha cabeça. — Foram dez meses, não seja dramática. — Isso é sério? — ela se levanta e se afasta mais ainda de onde estou. O ar se torna rarefeito. Umedeço a boca seca, dando mais um passo na sua direção. Tentando pensar em como lidar com isso. — Precisei ficar longe. — explico com cautela. — Tive alguns imprevistos. Se quiser, podemos sentar e conversar sobre isso. — Quais imprevistos? — ela cruza os braços e ergue suas sobrancelhas, com descaso. — Donna precisou que você fosse tirar a roupa longe de mim? — Hope! — repreendo ela, olhando em alerta para a Beca. Não era segredo para ela que eu fazia essas coisas. Hope sabia que eu amava dançar, uma vez, eu trouxe Ivy comigo para visitá-la, e a sua boca grande acabou falando coisas demais sobre fantasias exóticas e coreografias do Two Feet. Minha irmã era inteligente, e logo ligou os pontos. Talvez fosse melhor assim, a verdade precisava ser dita, mas não por completa. A parte das drogas, eu preferia manter oculta. Não queria que ela se baseasse nesse péssimo exemplo para seguir sua vida, ou, usasse isso contra mim, como está usando o fato de eu dançar para ganhar dinheiro. — O quê? Ninguém pode saber que a minha irmã é p**a? — Hope, não fala assim da tia Hanna. — Beca pede, se colocando no meio de nós. A pequena estava com seus pulsos cerrados, em minha defesa. Meu coração se aquece ao mesmo tempo que se aperta por essa cena. — Tia Hanna? — Hope repete sua fala com nojo na voz. — Quantos anos você tem, Beca? Cinco? A Hanna é uma irmã escrota e nenhuma caixa de chocolates que ela trouxer vai desfazer isso. — A escrota quem está sendo é você. — Beca responde a altura, porém me sinto na obrigação de intervir. — Beca, meu amor. — toco seu ombro, quando ela se vira para mim. — Deixa eu conversar um pouco com a sua amiga. Vou resolver isso, certo? Ela assente, duvidosa. Dar uma última olhada, um tanto quanto ameaçadora para a amiga, e sai do quarto, afirmando que estaria na porta caso eu precisasse. Eu riria outra vez com a superproteção dela, se não tivesse minimamente sentida pelas p************s da minha irmã. — Hope, agora se sente nessa cama e fale direito comigo, se não... — Se não o que? Você vai sumir por mais um ano? — ela me corta. Os seus olhos rodeados de lápis preto se cerram. Me lembra muito bem um certo alguém que vive em função da raiva.. Oh Céus. — Se não, você nunca poderá saber o que me manteve longe. É isso. — digo, encarando meus dedos trêmulos, os mesmo dedos fazem um sinal para que ela se sente e me dê essa chance de tentar lhe explicar. Hope faz o que eu peço, lutando com a sua fúria e curiosidade. Ela não me dar espaço para tentar um contato mais íntimo, então apenas suspiro, pensando em como começar a explicação na qual eu digo "Hope, eu sou uma criminosa, e fui presa. Não faça o mesmo que eu." — Onde esteve, Hanna? — ela questiona como se fosse a minha mãe falando. — Me disse duas coisas quando te vi pela última vez, a primeira foi que tinha se inscrito no campeonato nacional de dança e segundo que quando ganhasse me tiraria daqui? — Eu sei... — respondo com a voz trêmula, ter a coragem de olhar nos olhos. — mas... Mas é que... — Mas o quê? Você não conseguiu a documentação para me tirar daqui? E ai decidiu sumir? É isso? — sua voz aumenta o tom, me deixando ainda mais nervosa. No fundo do meu coração, a culpa me atinge como uma cajadada em um pedaço de madeira. Eu sei que as crianças são o espelho dos pais, mas quando não se tem pais? Em quem elas se espelham? Eu seria a primeira opção da sua lista. Isso se eu tivesse passado a infância ao seu lado, mas não passei. Fomos separadas pela idade aqui nesse orfanato de merda. Depois fui adotada, nós distanciamos ainda mais, ai tive que lidar com a realidade c***l da vida que me esperava, mas sempre com a promessa de que quando eu atingisse a maior idade, eu a tiraria desse inferno, mas bem... As coisas fugiram do meu controle. Fui presa, e aqui estou eu, sem nenhum centavo na p***a do meu bolso, com uma dívida para pagar, sem ter aonde dormir, implorando por um pingo da sua atenção. — Em, Hanna? — ela cobra uma resposta, me fazendo travar na explicação. Não sei como agir igual uma mãe, porque praticamente não tive uma. Quando Elizabete se foi, eu era uma menina e a sua imagem fica cada vez mais perdida no meio das minhas lembranças vagas. — Você veio aqui conversar, eu não queria nem te ver. Então comece a dizer algo! Você se inscreveu no campeonato e o que aconteceu? Perdeu? Eu sou um fracasso, como bailarina, traficante e como irmã, principalmente. — FOI! — grito, em desespero, me levantando da cama, puxando ar para os meus pulmões. Mais dessa pressão e eu entraria em uma nova crise de pânico. Me lembro bem que mais cedo passei por uma e ter duas em um mesmo dia, não eram meus planos para hoje. — Foi o quê? Fecho os olhos e conto de um até dez. Tento controlar a rapidez em que meu coração bate, me desfazendo da sensação de como a minha garganta quer se fechar, em como meus poros se dilatam com suor, fixando minhas pernas moles no chão. Depois de alguns segundos em silêncio, o silêncio horrível e aterrorizante, abro os olhos e me deparo com as suas íris douradas quase que na cor mel me encarando, de forma genuína e agora pacientes, aguardando uma resposta. Não vejo a garota rebelde que fala "merda" e que usa lápis preto em demasia. No lugar dela, encontro a garotinha de cabelos cacheados e bochechas cheias, que me esperava ansiosa todos os finais de sábado para me contar todas as proezas que fez aqui, e me escutar detalhar todos os passos de dança que criei enquanto ensaiava sozinha na sala da minha antiga casa. Eu vi, a menina que a minha mãe deixou, a menina que nunca foi um peso para mim, e sim um presente, um presente feito pelo próprio divino. A coisa mais preciosa que já tive a dádiva de ter. O amor em forma de gente. Então, não... Eu não consegui quebrar a admiração, ou pelo menos o resto dela, que existia na minha irmã por mim. Por isso menti, menti porque sou uma egoista, menti porque sou uma péssima irmã, menti para aliviar a minha culpa de ser tudo que eu não quero que ela seja. Menti. Menti para protegê-la, Ou somente para me proteger de lidar com a rejeição da única pessoa que, no fundo, ainda me ama. — Eu perdi o campeonato de dança, não consegui dinheiro suficiente e nem as documentações para te tirar daqui. Foi por isso que eu sumi. Hope esquadrinha meu rosto, parece procurar a veracidade em cada uma das minhas palavras. Tenho medo disso, tenho medo que ela ache a mentira estampada nos meus olhos, por isso abaixo a cabeça, procurando meus dedos para observar, assim como eu procuro um bom motivo para se apegar, em que explique o porque de eu estar fazendo essa crueldade com ela. — Você podia ter me dito a verdade desde o inicio. — sua voz suaviza, voltando a ser a voz delicada de sempre. Ouvir isso me toca, ne verdade, ouvir isso é como pegar o meu coração e apertar miseravelmente até sobrar apenas os restos. A verdade. Essa não é ela. A verdade é que fui presa e sinto vergonha por isso, sinto vergonha da má reputação que carrego nas costas, sinto vergonha na mesma intensidade em que me odeio por ser uma péssima irmã. — Estava fugindo disso, porque sou uma covarde, Hope. — digo meias verdades, pois ainda estou fugindo de lhe falar tudo. — Muitas coisas aconteceram nesses últimos meses. A Donna foi embora, estou sem emprego, não tenho onde ficar. Eu não queria chegar aqui e te dar uma notícia r**m, por isso sumi. E infelizmente, ainda não tenho algo bom para dizer, mas eu preciso que confie em mim. Eu vou te tirar daqui! — pego um pouco de coragem e olho dentro dos seus olhinhos mel, repletos de tristeza, depois seguros suas mãos quase do tamanho das minhas. — Vou conseguir grana, vou encontrar um bom advogado, vou fazer de tudo, entendeu? Tudo! Hope balança sua cabeça, confirmando que tinha absorvido cada coisa prometida ali. — Faça o que você quiser fazer, Hanna. Só não finja que não tem responsabilidade sobre mim. — Não, não vou fazer isso... — puxo ela para um abraço, mesmo a contragosto. A verdade dói, ela maltrata. Beijo o topo da sua cabeça, enquanto aperto seus ombros, na tentativa de esconder meus olhos cheios de lágrimas. Não queria que ela me visse chorando, não queria desmoronar ali na sua frente, pois eu sou a única fortaleza dela. Sou a pessoa responsável pela sua vida. O seu porto-seguro. Por isso, não tenho dúvidas sobre o que fazer. Cheguei aqui com muito ódio, com a raiva pulsando por aquele cara. E hoje, saiu daqui com a dor falando mais alto. É verdade, a raiva te impulsiona a fazer coisas, já a dor, te deixa imponente. Entre esses dois sentimentos, prefiro a raiva, pois assim, me sinto mais decidida em como juntar os escombros da minha vida e construir uma nova etapa. Mesmos erros do passado no presente, mas dessa vez, não vou deixar que ninguém me traia. Eu vou chegar ao topo, mais uma vez, e não, ninguém vai me tirar de lá.
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