Capítulo 2 – Minha Fraqueza, Minha Cura, Meu Caos

1159 Palavras
ALAN Sabe aquele bagulho que todo mundo fala? Que bandido não ama, não sente, não sofre… papo furado. Se engana quem acha que meu coração é blindado igual colete. Aqui dentro bate sim… e o nome que pulsa é Yasmin. Tá ligado que tem coisa que nem o tempo cura? Então... ela é minha ferida aberta. Minha cicatriz preferida. Hoje acordei no veneno. Fiquei o dia inteiro no corre, resolvendo treta, despachando pó, fazendo dinheiro girar. Vida de dono não é só ostentação, não. É pressão o tempo todo, cobrança, lealdade sendo testada, sangue rolando se vacilar. Quem tá no topo não pode piscar. Mas no meio desse caos, minha mente só pensa nela. Subi pro alto do morro, sentei na laje da boca, aquele lugar que dá pra ver geral lá embaixo. E lá tava ela... minha Yá, descendo o beco, vindo da parada do ônibus. A cria mais linda que esse morro já viu. Cabelo solto, andando com aquele jeito dela, postura de quem é dona de si. Nem parece que carrega o mundo nas costas. Fico só de longe, observando... sem ela nem sonhar. Ou sonha, né. Porque ela sabe que eu tô sempre por perto. Sempre. Papo reto? Eu nunca aceitei esse fim. Ela acha que terminou, acha que me deixou pra trás. Mas não deixou, não. Não tem essa de ex, não. Yá é minha. Foi, é, e vai ser enquanto meu peito bater. Acha que é fácil? Vê ela seguindo a vida, trampando, estudando, sendo essa mulher f**a que ela é... enquanto eu tô aqui, afundado nessa vida que escolhi, ou melhor, que a vida me empurrou. Eu nunca quis ser bandido, nunca quis ser Rei do Pó... mas quando teu pai mata tua mãe na tua frente, te fura de faca, te faz fugir com teus irmãos no braço, sem rumo, sem nada... tu aprende que o mundo não tem pena de ninguém. E no meio desse mundo podre, ela é meu pedaço de céu. Minha cura e meu caos. Cê acha que n**o aqui não tenta? Direto tem um o****o querendo pagar de desenrolado pra cima dela. E eu? Já quebrei muita cara. Muito abusado que achei que ia fazer gracinha, que ia chamar ela de “morena”, que ia colar papinho de “me dá teu zap”. Quebrei sim. Sem dó. Sem peso na consciência. Porque se tem uma parada que eu não aceito é n**o achar que pode tocar no que é meu. — A Yá é minha, parceiro. É minha mulher, minha cria, minha vida. Não esquece, não. — já falei isso pra mais de um, antes de derrubar no soco ou na coronhada. Mas ela me tira do sério, cê tá ligado? Vive pagando de durona, de mulher certinha. Me olha, me xinga, me empurra… mas na moral? O olho dela não mente. Eu sei que ela ainda sente. Que ela me ama, do jeito torto, errado... mas ama. E cê acha que eu vou desistir? Jamais. Só saio dessa disputa se eu morrer. Enquanto tiver sangue nas minhas veias, Yasmin vai ser minha. Pode bater o pé, pode dizer que não quer. Eu conheço ela mais do que ela mesma. O problema é que, às vezes, eu me pergunto… será que algum dia eu vou conseguir ser o homem que ela merece? Ou vou ser só o monstro que a vida me fez ser? Mas uma coisa é certa... desistir dela não tá nos meus planos. --- Sabe... às vezes eu paro pra pensar onde foi que minha vida desandou de vez. E a resposta sempre me leva pro mesmo dia. O pior dia da minha vida. O dia que eu vi minha mãe morrer na minha frente. Minha coroa era tudo pra mim, tá ligado? Uma mulher braba, guerreira. Segurava a casa sozinha, segurava nóis três, mesmo com aquele traste do meu pai dentro de casa. O cara era um lixo. Bebia dia e noite, chegava em casa quebrando tudo, xingando, batendo. Eu sempre tentava proteger minha mãe, tentava segurar ele, mas era magrelo, fraco, não tinha força. Até que naquele dia… ele surtou de vez. Veio pra cima dela com uma faca na mão. Eu gritei, tentei puxar ele, tentei segurar… mas ele me empurrou, me jogou longe, e… foi faca pra todo lado. O grito da minha mãe ecoa na minha cabeça até hoje, mano. Eu nunca vou esquecer. Nunca. Quando eu tentei me levantar pra segurar ele, ele virou pra cima de mim também. Me furou no braço, me cortou no ombro... Mas ali, no desespero, no instinto, eu puxei meus irmãos, Aline e André, e saí correndo. Peguei os dois pela mão, eles chorando, sem entender nada, e a única coisa que eu pensava era: “Se eu não correr, nois três morre hoje.” Corremos sem olhar pra trás. Sem saber pra onde. Sem saber o que ia ser da vida. Só correndo... fugindo do próprio sangue. E sabe o que é mais doido? O desgraçado do meu pai fugiu também. Sumiu. Desapareceu do mapa. Nunca mais voltou pro morro. Nunca mais ninguém viu. E desde então eu carrego esse bagulho no peito. Essa sede de vingança. Esse vazio que nunca se preenche. Não vou mentir... já rodei muito, já procurei esse lixo em cada canto desse Rio. Já fui até em favela que eu nem devia pisar. Mas é igual fantasma... sumiu no mundo. E no meio dessa caça, no meio dessa dor, o crime me abraçou. Porque, cê tá ligado... moleque novo, sem mãe, sem pai, dois irmãos pequeno pra criar... quem te estende a mão? O sistema? O governo? Nada. Quem te estende é o crime. E foi assim que eu me tornei quem eu sou hoje. O Rei do Pó. O terror dos rivais, o pesadelo da polícia. Mas também… o cara que virou pai, irmão e mãe dos meus irmãos. Aline e André são minha vida. Minha razão. Faço de tudo por eles. Eles estudam, vivem longe dessa vida aqui. Aline é até melhor amiga da Yá. E o André, mesmo sendo cria do morro, não deixo ele se envolver. Ele é ligeiro, esperto, mas tá no caminho certo. Pelo menos tento manter assim, né... Porque a rua puxa, o morro chama, e eu sei que é difícil fugir. Se tem uma coisa que eu prometi pra mim mesmo é que eles não vão ter o mesmo destino que eu. Nem ferrando. Só que... no meio disso tudo, a Yá... ela sempre foi meu ponto fraco. Minha única fraqueza nesse mundão frio. Minha luz no fim desse túnel escuro que é minha vida. E é por isso que eu não aceito. Não aceito ela me deixar. Não aceito ela fingir que não me ama. Porque, na moral... se eu ainda tô de pé, se eu ainda respiro... é por ela. E pelos meus irmãos. E quem tentar atravessar isso... vai cair.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR