ALAN
Ela veio saindo o beco, passo apertado, cara fechada, fone no ouvido… mas eu conheço cada detalhe dela. Cada movimento, cada respiro. A Yá pode até tentar disfarçar, fingir que não me vê, que não me sente, mas... ela é minha.
Sempre foi. Sempre vai ser.
Apoio o fuzil no ombro, dou aquela tragada no cigarro, encostado na parede, só na contenção, observando. Sem camisa, peito cheio de tatuagem, suor brilhando no corpo por causa do calor do inferno que tá fazendo nesse morro.
Quando ela me vê, dá aquele mini susto, disfarça, tenta seguir reta. Mas eu já tô descendo, já tô no caminho, e ela sabe que não tem pra onde correr.
— Qual foi, Yá... vai fingir que nem me viu? — Solto, dando aquele sorrisinho de canto, aquele que eu sei que bagunça o mundo dela.
Ela revira os olhos, cruza os braços, joga aquele cabelo pro lado e solta:
— Na moral, Alan... já falei mil vezes, para de ficar atrás de mim. Vê se me esquece, na boa.
Dou risada. Sério, ela acha mesmo que eu acredito nessa fita?
— Tu fala isso da boca pra fora, princesa... tu sabe que nunca deixou de me amar. E eu te conheço... sei que teu coração bate por mim do mesmo jeito que o meu bate por tu.
Ela respira fundo, desvia o olhar, aperta mais os braços no peito, como se isso fosse proteger ela de mim. Mas não protege. Nunca protegeu.
— Cê escolheu tua vida, Alan. Eu escolhi a minha. E não tem espaço pra nois dois junto. Não mais.
Me aproximo, encurto a distância, olho dentro dos olhos dela. Aquele cheiro... aquele cheiro dela que me destrói inteiro.
— Mentira tua. Tu mente pra mim, mente pra tu. Tá fugindo de mim igual foge de sentimento. Só que cê esquece de uma coisa, Yasmin... eu sou cria da guerra, cria do corre... e quem é cria não foge. Vai pra cima, luta, toma o que é seu. E tu... tu é minha. Sempre foi.
Ela treme, eu vejo. A mão dela chega a apertar o braço, a respiração acelera. Tenta manter pose, tenta ser forte. Mas eu também sei ler corpo, sei ler olhar... ela me deseja tanto quanto eu desejo ela.
— Para, Alan... para com isso... — a voz sai falha, quase num sussurro. — Isso não vai levar a gente pra lugar nenhum. Tu sabe.
Aperto o maxilar, seguro a vontade de jogar ela na parede e fazer ela lembrar de cada momento que foi nosso. Mas seguro, porque ela é diferente, ela não é qualquer uma. Nunca foi.
— Tu acha mesmo que cê vai viver tua vida aí... fingindo que eu não existo? Que não me ama? Que não sente minha falta? Que não fica toda arrepiada quando me vê, que teu coração não dispara quando eu chego perto? Jura, Yá?
Ela não responde. Só desvia o olhar, mordendo o lábio, segurando as lágrimas e o desejo.
Me aproximo mais, roçando a boca no ouvido dela.
— Cê pode até fugir, princesa... mas nunca vai conseguir se esconder de mim. Nem do que cê sente.
Ela fecha os olhos, respira fundo, vira o rosto, tenta se afastar.
— Na moral... me esquece, Alan... segue tua vida. E deixa eu seguir a minha.
— Cê sabe que eu não vou fazer isso. Nunca. Eu te amo. E não vai ser tua boca dizendo que não me quer que vai apagar essa parada aqui, ó... — bato a mão no peito, onde o coração bate acelerado.
Ela me olha... aquele olhar misto de amor, ódio, saudade e desejo. Depois vira as costas, apressa o passo, some na viela.
Fico olhando... trago fundo o baseado.
— Cê é minha, Yasmin... cê só tá perdida... mas eu te acho. Sempre achei. E nois ainda vai se encontrar de novo... do jeito certo... ou do meu jeito.
Aperto o fuzil, ajeito no ombro, encosto na parede, e fico ali... olhando pro nada. Pensando nela. Sempre nela.
---
Depois que ela sumiu na viela, dei aquele giro no morro, trocando ideia com os cria da contenção, passando a visão, ajeitando os corres.
Aqui o bagulho não para, tem que tá sempre na disciplina, tá ligado?
Quem vacila, dança.
Terminei de alinhar tudo e parti pra casa. Quando chego, quem vem chegando junto?
Aline, minha irmã. Tá sempre na missão de ajudar a mãe da Yá, já virou rotina.
— p***a, Alan… na moral, não pilha a Yá não, cara. — ela já chega jogando na minha cara. — A mina já tá cheia de trampo, ralando igual doida, fazendo hora extra pra sustentar a coroa dela... E tu lá perturbando a mente da garota. Cê só estraga as coisas, Alan! — falou me zoando, mas eu sei que no fundo é cobrando.
Fiquei na minha, não falei nada. Sei que ela tá certa. Sei que isso mexe com a Yá.
Mas também, fazer o quê?
Não posso deixar ninguém esquecer que ela tem dono. Nem mesmo ela.
Fui pro banheiro, joguei aquele banho gelado que até arrepia, saí, botei só o short, porque nem curto dormir de roupa, papo reto. Quando chego na cozinha, já tem um pratão de quentinha na mesa, Aline sempre deixa pra mim, sabe como é.
Sento, começo a comer, e vejo o André largado no sofá, assistindo filme.
— E aí, viu o jogo? — ele solta, sem nem tirar o olho da TV.
Só balanço a cabeça.
— Nem vi, menor... — respondo de boca cheia.
Aí o pilantra já vem na zoação:
— Perdeu, hein! Teu time tomou-lhe um p*u do meu! Tá fraco demais, Alan! — rindo alto.
Só reviro os olhos, nem dou ideia. Futebol pra mim é o de menos agora, minha mente tá dominada, só consigo pensar nela.
Termino de comer, deixo o prato na pia, e já vou direto pro meu quarto. Fecho a porta, tranco, arranco o short e me jogo na cama. Durmo pelado mesmo, desde muleque. Mania.
Deitado, olho pro teto... e é impossível não lembrar dela. Da minha Yá.
Papo reto... eu fui o primeiro dela em tudo. Primeiro beijo, primeira vez, primeira parada séria da vida dela. E ela... foi minha primeira também. Primeira mina que eu amei, que eu quis construir algo, que eu sonhei junto.
Só que, diferente dela... ela foi minha única no amor, tá ligado?
Mas não vou mentir... depois que ela terminou comigo, sim, eu fiquei com várias.
Mas é isso... nenhuma, nenhuma chega nem perto dela. Nenhuma tem aquele cheiro, aquele sorriso, aquele olhar que me desmonta. Nenhuma me dá paz e me tira ela ao mesmo tempo.
Ela é minha fraqueza, minha cura... e meu caos.
Puxo o travesseiro, abraço forte, fecho os olhos e fico ali... pensando nela. Sempre nela. E prometendo pra mim mesmo:
"Uma hora ela volta. Uma hora ela lembra quem é que sempre foi dela. E se não lembrar... eu faço questão de lembrar ela."