YASMIN
A vida nunca foi fácil pra mim, isso cês já tão ligado, né? Acordo cedo, durmo tarde, ralo igual gente grande. Tudo pela minha coroa... minha rainha, minha vida.
Hoje não foi diferente. Cheguei no restaurante, bati meu cartão e bora pra guerra. Aqui é aquele restaurante fino, de gente metida, cheio de playboy, patricinha, esses povo que nunca pegou um ônibus lotado na vida.
Tô ajeitando as mesas quando ele chega. Augusto.
O neto do dono. Aquele típico boy mauricinho: cabelo arrumadinho, roupa toda alinhada, perfume caro que dá pra sentir a três metros de distância. E não é que o bonitão é simpático? Sempre chega sorrindo, perguntando se tá tudo bem, se eu tô precisando de alguma coisa... mas eu sei qual é a dele.
— Bom dia, Yasmin. Tá linda hoje... como sempre. — ele fala todo educadinho, ajeitando a gravata.
— Bom dia, Augusto. Obrigada. — respondo daquele jeito, na moral, sem dar a******a pra nada além da educação.
Ele me olha de um jeito que até me deixa sem graça às vezes, mas eu disfarço, foco no trampo. Não posso e nem quero misturar as coisas.
Vejo que ele fica arrumando desculpa pra ficar na minha aba. Pergunta se eu quero água, se preciso de ajuda, se tô bem, se não tô cansada... mas sei bem que a intenção não é só ser gentil.
Enquanto ele fala, minha cabeça já tá longe... lá no morro. No Alan. No jeito que ele me olha, no jeito que ele fala comigo, mesmo quando me tira do sério.
É loucura, né?
O Augusto é o tipo de cara que toda mina sonharia. Educado, trabalhador, zero encrenca... mas meu coração é teimoso, cismou de ser do bandido.
De repente ele se aproxima mais um pouco.
— Sabe... eu tava pensando... Se quiser, posso te ajudar com aquele curso que você comentou. Conheço umas pessoas que...
Corto na hora, na maior educação:
— Poxa, Augusto, de verdade... te agradeço muito, mas não precisa, tá? Eu dou meu jeito, sempre dei.
Ele força aquele sorriso meio sem graça, dá pra ver nos olhos dele que não gosta de ouvir isso, mas respeita.
Sempre respeita.
Isso eu não posso negar.
Sigo meu dia, servindo mesa, ouvindo pedido de cliente chato, segurando o cansaço, segurando o peso da vida... E segurando também o peso de um amor que eu finjo que não sinto mais, mas que me rasga por dentro toda vez que lembro dos olhos dele me encarando lá do alto do beco.
E é assim... Entre o boy certinho do asfalto e o homem que virou rei no morro... eu sigo perdida.
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A noite já tava pesando no corpo, cansaço batendo forte. Depois de fechar o restaurante ainda teve lavagem de salão. Quando demos conta, já passava de uma da manhã.
Tava pegando minhas coisas pra ir embora quando o Augusto saiu do escritório, todo alinhadinho, e já veio logo preocupado.
— Quer uma carona? — perguntou, ajeitando os óculos no rosto.
Respirei fundo. Sabia que ele mora pra outro lado, não queria dar esse trabalho.
— Não precisa não, Augusto. Ainda tem ônibus. — falei, meio sem jeito.
Mas ele insistiu.
— Olha, Yasmin, me deixa te ajudar pelo menos com isso. Não é problema, sério. — E olhando ao redor, tudo vazio, comecei a pensar se de fato ainda tinha ônibus praquele lado... talvez nem tivesse mais.
Baixei a cabeça, meio sem graça.
— Tá bom, eu aceito. — falei, quase sussurrando.
No caminho, ele falava sem parar... Sobre o restaurante, as ideias dele, os projetos... O avô dele tá m*l, com demência, e ele que tá segurando tudo agora. O pai faleceu tem uns anos, então ele é o herdeiro direto. E apesar de ser boy, mimado, certinho... ele corre atrás.
Quando chegamos no pé do morro, já fui logo pedindo:
— Me deixa aqui, Augusto. Tá tranquilo.
Mas ele balançou a cabeça.
— Tá vazio demais, Yasmin. Não vou ficar em paz te deixando subir sozinha, não. Bora, eu te levo até a porta. — e já acelerou sem esperar resposta.
Confesso que bate aquele medinho, sim...
Mesmo sendo “a mulher do Alan” — como geral fala — e os caras sabendo que não podem nem olhar torto pra mim, morro é morro, doideira pode acontecer a qualquer hora.
Paramos na frente de casa, a luz da sala acesa. Augusto desceu, abriu a porta do carro pra mim e pegou minha mochila no banco de trás.
— Boa noite, Yasmin. — falou olhando dentro dos meus olhos, daquele jeito que... mexe, não vou mentir.
— Muito obrigada, Augusto. De verdade. Nem sei como te agradecer. — respondi já pronta pra entrar, meio sem saber onde enfiar a cara.
Só que ele segurou meu pulso, me virou de repente... Quase fui pro chão, mas ele me segurou contra o peito dele. Senti o coração dele disparado, quente, acelerado. Nossos olhares se cruzaram, e quando levantei a cabeça, vi ele olhando direto pra minha boca.
Me afastei na hora, nervosa.
— Augusto... não faz isso... — tentei falar, mas ele segurou meus ombros, uma das mãos foi no meu queixo, me forçando a olhar de novo pra ele.
— Deixa eu te beijar, Yasmin. Não foge de mim, não... — ele pediu, chegando mais perto, e roubou um beijo.
Só que não deu nem tempo de processar.
Fui puxada com força pra trás.
Quase voei.
— Tá maluco, playboy?! Beijando MINHA MULHER?! — a voz que eu conheço até de olhos fechados. Alan.
O soco que ele deu no Augusto foi seco. O boy caiu na hora, meio grogue, tonto, sem entender nada.
— Tu vai morrer hoje, filho da p**a! Tá maluco?! — Alan cuspiu as palavras, fora de si, já levantando o pé pra esmagar o rosto do Augusto no chão.
— ALAN, PARA! Tá doido, cara! — gritei, agarrei ele pelos braços tentando segurar, mas ele tava transtornado.
Aí a Aline saiu correndo de dentro de casa, desesperada.
— Pelo amor de Deus, Alan! Segura esse demônio, Yasmin! — ela já foi direto ajudar a segurar ele também.
— Vai embora, Augusto! Agora! Antes que ele te mate, pelo amor de Deus, vai! — berrei, quase sem ar, segurando com todas as forças.
O boy se levantou, tropeçando, mão na cara, entrou no carro e saiu cantando pneu.
Alan pegou a Glock da cintura e sem pensar meteu bala. O vidro traseiro do carro explodiu.
— FILHO DA p**a! — gritou, já saindo correndo pelo atalho do beco, aquele que sai na rua de baixo.
Me joguei na frente.
Coloquei o pé.
Ele tropeçou, caiu de cara no chão.
Se virou, me olhou com uma cara de ódio que só quem conhece sabe... os olhos dele estavam vermelhos, insano, fora de si.
O radinho da contenção caiu do lado da Aline.
Corri, catei e joguei longe.
— NÃO, ALAN! NÃO CHAMA NINGUÉM! PELO AMOR DE DEUS! — gritei.
Ele gritou chamando um dos moleques, que já apareceu na contenção.
— Bora, Alan. Dá ordem, fala, o que é?! — o muleque perguntou.
E eu, sabendo exatamente que ele ia pedir pra não deixar o Augusto sair do morro, que ele ia mandar fechar tudo, que ia fazer besteira...
Me joguei nele, derrubei ele no chão e beijei ele, desesperada.
— Por favor, Alan... Por favor, não faz isso... não faz m*l pra ele... Eu faço o que você quiser, Alan... o que você quiser... mas não mata ele, não... — falei com a boca colada na dele, a respiração dele quente, pesada, o corpo tremendo de tanta raiva.