ALAN
Na moral, eu tava quieto no meu canto, tranquilão, na contenção da minha quebrada, conferindo uns corres, vendo se tava tudo no esquema…
E papo reto?
Já tava achando estranho. Yasmin demorando pra chegar, hora passando, radinho só no silêncio, nenhuma movimentação de carro subindo, de ninguém vindo. Aquilo já começou a me deixar com aquele bagulho r**m no peito.
Coração tava disparando, aquele tipo de agonia que tu sente e não sabe explicar.
Sabe quando tu SENTE que tá dando merda?
Então.
Fiquei na porta de casa, olhando lá pra rua, na direção da descida, quando de repente... pluft. Farol de carro cortando a madrugada, vindo devagar, parando bem ali na frente da casa da Yasmin.
Aí meu sangue já subiu, irmão.
— Quem é esse filho da p**a?! — falei alto, o moleque que tava na contenção olhou na hora.
Quando eu vi... era ele. Aquele boyzinho de merda, todo arrumadinho, todo certinho, aquele que eu já sabia que tinha um papinho torto com a Yasmin no trampo. Fingi que não via, que deixava passar, mas a visão já tava no radar.
E ele ali, descendo do carro, abrindo a porta pra ela, todo cavalheirozinho do c*****o. Pegando mochila, sorrindo, com aquele olharzinho de apaixonado.
Mano... eu senti o sangue FERVER.
Ferver, tá ligado?
A mão já coçou na cinta, no ferro. Mas me controlei. Só que o que veio depois... irmão... aí eu surtei de vez.
O desgraçado segurou o pulso dela, puxou ela, colou ela no peito dele... e BEIJOU. ELE BEIJOU A MINHA MULHER.
Meu olho virou na hora. Eu nem pensei.
Só senti meu corpo indo, minha mão fechando, e PÁÁÁ! Um socão seco, no meio da cara dele.
O boy voou.
Caiu igual bosta no chão, zonzo, tonto, sem entender nada.
— Tá maluco, playboy?! Tá beijando MINHA MULHER?! CÊ QUER MORRER HOJE, FILHO DA p**a?! — berrei, partindo pra cima dele, já levantando o pé pra esmagar a cara dele no asfalto.
Mas aí veio a Yasmin, desesperada, me segurando.
— ALAN, PELO AMOR DE DEUS, PARA! TÁ DOIDO! — ela gritava, me puxando, mas eu tava cego, irmão.
Cego de ódio. De raiva. De decepção. De ver ela... MINHA mulher... com aquele boyzinho de merda.
Aí do nada aparece a Aline, minha irmã, já gritando também.
— Pelo amor de Deus, Alan! Segura esse psicopata, Yasmin! Pega ele, segura! — ela berrava, agarrada no meu braço.
E o boy lá, no chão, catando cavaco, tonto, segurando o queixo, tentando entender o que tava rolando.
— VAI EMBORA, AUGUSTO! SOME DAQUI, p***a! SOME! — Yasmin gritou, quase chorando.
O miserável levantou todo torto, mancando, entrou no carro e meteu o pé, cantando pneu.
Só que eu não sou desses de deixar passar, não. Puxei o ferro. Glock no punho. E sem pensar, PÁ, PÁ! Dois pipoco seco no carro dele. O vidro traseiro explodiu. O barulho ecoou no morro.
A favela acordou.
E eu nem aí, irmão. Saí correndo no pique pelo beco, aquele atalho que eu conheço de olhos fechados. Sabia onde ele ia sair. Ia pegar ele na rua de baixo. Ali, irmão, era CAIXÃO.
Só que no desespero, Yasmin meteu o pé na minha frente. Não deu nem tempo de frear. Tropecei, voei, caí de cara no chão.
Levantei no veneno, na maldade. Olhei pra ela, aquela cara de raiva misturada com mágoa, com nojo, com tudo junto. Ela me conhece, sabe que eu não ia deixar barato.
O radinho caiu perto da Aline. Já ia chamar a tropa:
— BORA! CHEGA GERAL AQUI, NÃO DEIXA ESSE ARROMBADO SAIR DO MORRO NÃO! — gritei, e o muleque já colou na contenção.
— Fala, Alan, vamo fazer o corre, qual foi?! — ele perguntou, já na disposição.
Mas aí... Yasmin fez o inesperado. Se jogou em mim, me derrubou no chão... e me beijou.
Mas não foi beijinho, não. Foi beijo com lágrima, com desespero, com aquele “pelo amor de Deus” no peito.
— Por favor, Alan... não faz isso... não mata ele, não faz m*l pra ele... eu faço o que tu quiser... O QUE TU QUISER, mas não faz isso... não... — ela falou colada na minha boca, com a voz embargada, trêmula.
Mano... meu coração deu um bug.
Eu tava ali, entre o ódio e o amor. Entre a vontade de descarregar o pente no carro do boy... e essa mulher que eu amo mais que a p***a da minha própria vida, me agarrando, me beijando, implorando.
O corpo dela tremia. A mão segurando meu rosto. O cabelo dela caindo na minha cara. O cheiro dela me desmontando.
Só que a cena não saía da minha cabeça, irmão. A imagem dele segurando ela. Beijando ela. Ela nos braços dele.
Por mais que eu quisesse me acalmar, minha mão tremia de tanto ódio. A Glock pesava na minha mão, pedindo pra cuspir.
— Ele te beijou, Yasmin. ELE TE BEIJOU, c*****o! — falei empurrando ela de leve, levantando meio cambaleando. — Tu acha que isso vai ficar assim, é?! Tu acha que ele vai sair na moralzinha depois de beijar a MINHA MULHER?! Tá de s*******m, p***a!
Ela segurava minha cara, me beijando, chorando.
— Por favor, Alan... olha pra mim... olha no meu olho... EU SOU SUA, p***a! Eu sou tua, só tua, cê sabe disso... mas não faz isso... não mancha teu nome, não suja teu corre... não...
E nisso, o morro já tava acordando. Portão abrindo, vizinho olhando, gente na janela, mulher puxando criança pra dentro, porque quando Alan sai da linha, o bagulho é sério.
Minha cabeça fervendo. Meu peito doendo. Meu ego, irmão... meu ego tava destruído.
Mas olhei pra ela ali, no meu colo, me abraçando, me beijando, me implorando... e, mano... ela é meu ponto fraco, sempre foi. Sempre vai ser.
Soltei o ferro, joguei pro lado. Fechei os olhos com força, respirei fundo, os dentes tudo travado.
— Tu me desmonta, Yasmin... Tu me quebra, mulher... Cê me destrói, na moral... — falei baixinho, segurando ela apertado.
O muleque da contenção ficou só olhando, parado, sem saber se esperava ordem ou se sumia.
Aline respirou aliviada, se jogou no portão, deslizando pra sentar no chão.
— p**a que pariu... quase deu merda... — ela falou, passando a mão no rosto, tremendo.
Yasmin me apertava como se o mundo fosse acabar.
E eu ali, segurando ela... querendo sumir aquele playboy da face da terra, mas ao mesmo tempo, entendendo que ela é minha fraqueza... e minha salvação.