Pré-visualização gratuita Capitulo 1
Eu sempre gostei mais das flores do que das pessoas.
As flores não julgavam.
Não cochichavam quando eu passava.
Não lançavam aqueles olhares carregados de pena ou desaprovação que eu conhecia tão bem.
Elas simplesmente existiam.
Floresciam.
E, de alguma forma, faziam com que eu sentisse que também podia florescer.
Passei os dedos sobre as pétalas aveludadas de uma rosa vermelha enquanto o sol da tarde aquecia minha pele.
O jardim era meu refúgio.
Meu lugar favorito em todo o reino.
Ali não existiam expectativas.
Não existiam bailes.
Não existiam homens avaliando mulheres como se fossem mercadorias.
Existiam apenas flores.
E eu.
— Lady Elara!
Fechei os olhos.
A paz nunca durava muito.
Virei-me e encontrei uma das criadas correndo pelo caminho de pedras.
— Sua mãe está procurando pela senhorita.
Soltei um suspiro.
— Claro que está.
Hoje era o Festival da Primavera.
O evento mais importante do ano.
E também aquele que eu mais odiava.
Porque significava vestidos apertados.
Sorrisos falsos.
Comentários maldosos.
E dezenas de homens ignorando minha existência para cortejar mulheres consideradas mais bonitas.
Mais delicadas.
Mais perfeitas.
Minha mãe quase teve um ataque quando me viu entrar na mansão com as mãos cobertas de terra.
— Elara!
— Eu já estava indo me trocar.
— Você é uma dama!
— E também gosto de flores.
Ela levou uma mão à testa.
— Um dia você acabará me enlouquecendo.
Sorri.
— Ainda não aconteceu.
Apesar da reclamação, percebi o sorriso escondido em seus lábios.
Minha mãe me amava.
Só se preocupava demais.
Principalmente porque sabia que eu não me encaixava nos padrões que a sociedade esperava.
Enquanto as outras jovens passavam horas aprendendo dança, bordado e etiqueta, eu preferia estudar botânica e cultivar jardins.
Talvez fosse por isso que nunca me senti parte daquele mundo.
Horas depois, estava diante do espelho.
O vestido dourado era bonito.
Realmente bonito.
O tecido brilhava como a luz do sol.
Mesmo assim, meu estômago se revirava.
Observei meu reflexo.
As curvas.
As bochechas arredondadas.
Os quadris largos.
Durante anos ouvi comentários suficientes para saber exatamente quais defeitos as pessoas enxergavam em mim.
Talvez por isso fosse tão difícil enxergar minha própria beleza.
— Você está linda.
Levantei os olhos.
Meu pai estava parado atrás de mim.
Meu coração se aqueceu imediatamente.
— Você é suspeito.
— Sou seu pai. É minha obrigação lembrar o quanto você é extraordinária.
Sorri.
— Obrigação?
— Sim.
— Então está trabalhando muito.
Ele riu.
Aquele som sempre conseguia me fazer sentir melhor.
— Escute uma coisa, Elara.
Sua expressão ficou séria.
— Nunca permita que este reino faça você esquecer quem é.
Engoli em seco.
— Vou tentar.
— Não tente.
Ele segurou minhas mãos.
— Acredite.
Meus olhos se encheram de lágrimas.
Porque ninguém acreditava em mim tanto quanto meu pai.
Ninguém.
A viagem até o palácio demorou quase uma hora.
Do lado de fora da carruagem, o reino inteiro celebrava.
As ruas estavam iluminadas.
Músicos tocavam em cada esquina.
Crianças corriam usando coroas de flores.
Casais dançavam.
O cheiro da primavera preenchia o ar.
Era impossível não sorrir.
Meu pai percebeu.
— Está mais tranquila?
— Um pouco.
— Ótimo.
— Ainda não gosto de bailes.
Ele riu.
— Eu sei.
— E nunca vou gostar.
— Isso também.
Sorri.
Porque ele provavelmente estava certo.
Quando chegamos ao palácio, meu fôlego desapareceu.
Era magnífico.
Milhares de flores decoravam os corredores.
Lustres gigantes brilhavam acima de nossas cabeças.
Velas iluminavam cada salão.
Parecia um sonho.
E, por um breve momento, esqueci completamente as pessoas.
Queria admirar apenas as flores.
Sempre as flores.
Talvez fosse por isso que a antiga lenda sempre tivesse me fascinado.
A lenda da Flor das Sombras.
Quando era criança, eu pedia para meu pai contá-la repetidamente.
Segundo a história, existiam dois reinos.
O Reino da Luz.
E o Reino das Sombras.
Durante séculos, ambos viveram em equilíbrio.
Até que uma guerra os separou.
Desde então, uma antiga profecia aguardava o surgimento de uma rainha capaz de unir novamente os dois mundos.
Essa rainha seria escolhida por uma flor n***a.
Uma flor impossível.
Uma flor que ninguém via há centenas de anos.
Uma flor que existia apenas nas histórias.
Ou pelo menos era o que eu acreditava.
Até aquela noite.
A música tocava.
As pessoas conversavam.
Tudo parecia normal.
Então o silêncio caiu sobre o salão.
Um silêncio pesado.
Estranho.
Como se o próprio mundo tivesse parado de respirar.
Os murmúrios começaram.
Olhei ao redor.
Todos observavam o centro do salão.
Meu coração acelerou.
E então eu a vi.
Uma flor n***a.
Flutuando.
Sozinha.
Perfeita.
Impossível.
Meu sangue gelou.
Não.
Aquilo não podia ser real.
A Flor das Sombras.
A flor da profecia.
Ela começou a girar lentamente.
Uma vez.
Duas vezes.
Três vezes.
Como se estivesse procurando alguém.
Como se estivesse escolhendo.
Então veio na minha direção.
Meu estômago afundou.
— Não...
Dei um passo para trás.
Mas era tarde.
A flor pousou em minhas mãos.
O salão inteiro ficou em silêncio.
Absoluto.
Eu não conseguia respirar.
Uma energia percorreu minhas veias.
As pétalas começaram a brilhar.
Raízes delicadas surgiram.
Enrolando-se em meus pulsos.
Marcando minha pele.
Marcando meu destino.
Ouvi alguém rezar.
Outro alguém começou a chorar.
Mas tudo parecia distante.
Porque naquele instante senti uma presença.
Observei as sombras no fundo do salão.
E elas se moveram.
Meu coração disparou.
As pessoas começaram a se afastar.
Abrindo caminho.
Um corredor surgiu entre a multidão.
E então ele apareceu.
Alto.
Imponente.
Vestido inteiramente de n***o.
Uma coroa escura repousava sobre sua cabeça.
Parecia ter sido criado pelas próprias sombras.
Meu coração bateu tão forte que chegou a doer.
Ele caminhou em minha direção.
Um passo.
Depois outro.
E outro.
Até parar diante de mim.
Perto demais.
Perigoso demais.
Seus olhos escuros desceram para a flor em minhas mãos.
Depois voltaram para meu rosto.
E alguma coisa mudou em sua expressão.
Algo intenso.
Antigo.
Quase desesperado.
Como se estivesse procurando por mim há muito tempo.
Muito tempo.
Tempo demais.
Meu corpo inteiro estremeceu.
Então seus lábios se curvaram em um pequeno sorriso.
E suas primeiras palavras destruíram tudo o que eu acreditava saber sobre minha vida.
— Finalmente encontrei você.
Naquele instante, eu soube.
Minha vida jamais voltaria a ser a mesma.