António Gomes trabalhava na Judiciária, ao que parecia, há toda uma vida. Se existia vida fora da polícia, esta passava-lhe muitas vezes ao lado – como a filha adolescente tivera a delicadeza de o recordar ainda há momentos ao telefone. O resultado fora ter concluído que o expresso hormonal da adolescência viera à tabela e que a sua bebé crescera e o fazia mover-se em areias movediças.
Contudo, naquele dia cinzento, em que a chuva caía impiedosamente formando um pequeno ribeiro, não era na sua filha em que pensava. Enquanto via a ambulância do INEM estacionar, pensava nos pais que tinham perdido uma filha de forma violenta e que teria de ser ele a comunicar-lhes a triste notícia.
Entrou no prédio, cujo corredor estreito e m*l iluminado lhe parecia uma garganta sem fim. Por duas vezes escorregou e apoiou-se ao corrimão, irritado consigo próprio.
Cada patamar tinha apenas um andar e à porta da casa do segundo andar, estavam dois polícias fardados. Estavam ambos secos, o que o levou a concluir que já lá estavam há um bom bocado, antes de começar o dilúvio.
Identificou-se e eles deixaram-no entrar.
O apartamento fora remodelado; conquanto o prédio fosse velho, e estivesse localizado em Santos, houvera gosto e aprumo no restauro daquela casa. A expressão que lhe acudia ao cérebro era “luxo discreto”. Havia serenidade na decoração em tons claros, ou assim lhe pareceu.
A porta da entrada dava para a sala. Um relancear de olhos deu-lhe a conhecer a mobília escassa, lacada a branco, sofás negros de cabedal, quadros abstractos nas paredes. Tudo impecavelmente limpo. Sobre a mesa, estava uma garrafa de champanhe e um copo de pé alto. Faltava uma quantidade generosa de líquido na garrafa.
Era no quarto que o cenário se tornava aterrador. Uma mulher jovem estava deitada na cama, de braços e pernas abertos. As mãos estavam presas às grades da cama. Um lenço pendia, inerte, do pescoço delgado.
O médico legista analisava o corpo com cuidado. Gomes deixou-o a fazer o seu trabalho e foi ter com o jovem que tinha encontrado o corpo. Era o namorado da vítima, ou assim se apresentou. Tinha uma tonalidade esverdeada e abraçava-se a si próprio, tremendo que nem varas verdes.
– Isto não pode estar a acontecer – repetia vezes sem conta, enquanto o agente que o interrogava escrevinhava furiosamente.
– Eu tomo conta disto – interveio Gomes. O outro assentiu e afastou-se. Para um homem habituado a analisar expressões faciais, não era difícil ler a do jovem. Estupefacção, negação, tristeza, raiva. Uma mescla perigosa, pensou.
– Qual era a sua relação com a vítima?
– Namorávamos.
Mesmo na morte, via-se que a vítima fora uma bela mulher. O jovem que tremia que nem varas verdes era magro e de estatura média, sem nada que o distinguisse.
– Há muito tempo?
– Dois meses – ele começou a esfregar os braços com mais energia quando os olhos se encheram de lágrimas. – Íamos casar.
Lágrimas gordas deslizaram dos olhos castanhos, mansamente. Gomes deu-lhe algum tempo para se recompor enquanto o seu cérebro tentava formar a imagem do casal. Não conseguiu. E agora que pensava nisso, não vira fotografias deles em parte alguma. Dela sim, mas dos dois?
Fez sinal ao agente que substituíra quando o seu telemóvel começou a tocar. Olhou para o ecrã e atendeu, afastando-se uns passos.
A voz serena da sua colega Ivone Oliveira fez-se ouvir do lado de lá.
– Temos outro – declarou ela sem preâmbulos.
*
Ivone Oliveira era uma mulher marcada. Alta, muito magra, tinha cabelos negros brilhantes como a asa de um corvo. Contudo, uma paralisia infantil alterara-lhe as feições e distorcera-as subtilmente. Quando o seu rosto estava em repouso, parecia praticamente normal, não fora ter um olho verde e outra avelã. Contudo, quando uma emoção rasgava a sua expressão, metade da sua cara contorcia-se enquanto a outra permanecia serena. A paralisia roubara-lhe a capacidade de se exprimir e, de pequena, habituara-se a reprimir as emoções para não ter de lidar com a piedade dos outros.
Se o aspecto físico deixava a desejar, a nível intelectual fora abençoada. Detentora de um QI superior ao normal, trabalhava na Judiciária como psiquiatra. Conseguia também elaborar perfis com facilidade, motivo pelo qual era bastante requisitada. Gomes já trabalhara com ela anteriormente e tinham desenvolvido uma relação profissional satisfatória, a ponto de Ivone abrandar ligeiramente o férreo controlo que exercia sobre a sua expressão facial e de Gomes já não estremecer quando via a manifestação emocional de metade da sua cara. Já nem dava pela assimetria do seu rosto.
Conquanto trabalhassem habitualmente em openspace, Ivone tinha direito a um gabinete próprio na sede da Judiciária em Lisboa e foi para lá que Gomes se dirigiu quando saiu do apartamento em Santos.
A mesa de Ivone estava pejada de fotografias e documentos, e Gomes levou alguns instantes a analisá-las. Deixou-se cair pesadamente na cadeira em frente à mesa dela e pegou nas fotos.
– Vieram do Porto – declarou ela sucintamente. – Inês Esteves.
A primeira foto era uma das últimas que a vítima tirara. Mostrava uma jovem morena, sorridente, de costas para a Torre do Tombo, com um sorriso de orelha a orelha. Noutra foto, estava a mesma jovem, ao pé da Torre dos Clérigos, mas com uma expressão aborrecida. Na terceira, estava morta, os olhos entreabertos já cobertos pelo véu da morte, marcas roxas em redor do pescoço onde antes estivera o lenço de seda.
Gomes ainda não tinha as fotos do novo local do crime, no entanto, pelo que observara e pelo que lhe era dado a ver, quer a vítima do Porto quer a de Lisboa tinham morrido da mesma forma e os seus corpos tinham sido manobrados cuidadosamente.
Leu o relatório da autópsia e devolveu-o à colega. A jovem tivera s**o pouco antes de morrer e as análises vaginais indicavam que tinha sido consentido. Não houvera v******o e o caso tinha sido considerado morte acidental. Continuava porém em aberto porque não só não se conhecia o nome da pessoa que estivera com ela, como não se lhe conhecia namorado nenhum recente e o mais antigo tinha um álibi sólido para a hora do crime – estava a ser multado por desacatos num bar em Albufeira e fora acabar de curar a bebedeira para a esquadra. Não havia vestígios de sémen no interior da v****a, nem nada que permitisse identificar o homem com quem estivera.
– Asfixia auto-e*****a? – indagou Gomes, ainda a observar as fotos.
– Possivelmente deixaram-se levar pelo entusiasmo – concordou Ivone, apoiando o queixo nas mãos cruzadas. – Foi essa a teoria pelo menos.
– Quem a encontrou?
– O vizinho de baixo estava farto do barulho, parece que a Esteves era dada a festas pela noite fora, com música muito alta. O velhote fartou-se de tentar adormecer, subiu as escadas para reclamar e encontrou a porta aberta. Foi entrando e deu com ela morta na cama. Chamou a polícia e m*l teve tempo de pôr um comprimido debaixo da língua antes de cair. Seja como for, a polícia recolheu o seu testemunho no hospital. Não se lembra de ter ouvido ninguém entrar ou sair, mas também reconheceu que só se apercebia que a vizinha estava em casa quando ela ligava a aparelhagem.
– O que é que ela fazia?
– Estudava. Ou pelo menos passeava os livros, segundo os pais. A mãe comentou que este ano era a última oportunidade dela, ou passava o ano e concluía o curso, ou cortavam-lhe a mesada e deixavam de pagar os estudos.
– Achas que o fariam?
– Isso interessa?
Dado que a jovem nunca iria concluir o curso e que os pais estavam naquele momento de luto, Gomes reconheceu que a pergunta fora descabida.
– O corpo não foi mudado nem houve nenhuma tentativa de reanimação.
– O médico-legista estima que ela tenha morrido entre a uma e as duas da manhã. O velhote encontrou-a às três. O rigor mortis não teve tempo de se instalar.
Esfregou a cara, sentindo que o peso do mundo acabara de lhe cair nos ombros. Olhou para a colega e declarou pesadamente:
– Gostava de ter o relatório da autópsia o mais rapidamente possível, mas o Ratinho vai andar a empatar até à última. Vou ver se leio isto tudo antes de ir para casa.
Desenhou-se um fantasma de sorriso na expressão habitualmente serena de Ivone.
– É impressão minha ou estás a fugir de ir para casa?
– A miúda quer ir jantar fora com os amigos.
– Isso é mau?
– Quando eu desconfio que os amigos não existem e que estamos na verdade a falar daquele inútil de piercing na língua, sim.
– Certo. Antes tu que eu.
– Cobardolas.
– Sem qualquer discussão.
Ivone abriu uma pasta e começou a ler. Gomes saiu, com o cérebro a fervilhar. Ponderou telefonar para o Instituto de Medicina Legal, mas decidiu que causaria mais impacto se lá fosse pessoalmente. Não que o Ratinho, ou melhor dizendo, Fernando Pires, director-chefe do IML, se intimidasse mais com ele presencialmente do que por telefone, mas pelo menos impunha presença.
Não é que não gostasse do homem ou não lhe reconhecesse talento; implicarem um com o outro parecia ser parte das funções extra que os cargos traziam.
E fugia dos cinco recados que a filha lhe deixara em cima da secretária