Uma vez, a mãe dissera-lhe que Ribeira Grande ficava na ponta do mundo. E na altura referia-se a uma propriedade abandonada. Enquanto sentia os solavancos da estrada, o jovem pensava, de mau humor, que a ponta do mundo ficava mais perto do que a Ribeira Grande.
Olhou de viés para o perfil inflexível do tio e bufou. Odiava o tio por o ter tratado como uma criança, odiara a forma como lhe tinham falado e sobretudo odiava a maneira como fora obrigado a vir com ele para ajudar nos campos.
Isto é trabalho de burros! pensou furiosamente mas não se atreveu a dizer nada em voz alta. O tio já estava suficientemente furioso com ele e era impossível prever o que faria a seguir.
Bufou novamente, enterrou o boné na cabeça e cruzou os braços.
Pelo canto do olho, Gabriel observava as reacções de David com atenção. Era verdade que estava furioso, mas não tanto quanto dera a entender. Na verdade, a sua reacção devia-se mais ao receio do caminho que o sobrinho andava a tomar do que à gravidade do acto em si.
David crescera muito nos últimos anos. Do rapaz de rosto redondo e sorridente de que se recordava, pouco existia actualmente. O rosto afunilara com a adolescência, o queixo tinha um ricto de teimosia que ele reconhecia e os olhos tinham uma dureza que não existira dois anos antes.
David descobrira o que ele e a irmã tanto se tinham esforçado por esconder: que, longe de ser um filho desejado e amado, o pai nunca o quisera e ainda os abandonara pouco antes de ele nascer. Pior, que a mãe era obrigada a manter dois trabalhos para os conseguir sustentar e que o jovem estava muito entregue a si próprio desde muito cedo, o que o levara a procurar companhias que o fizessem sentir-se aceite.
Começara a fumar, furara as orelhas e tinha um brilhante no nariz para se sentir aceite. Depois, tinham começado os furtos. Coisas pequenas, ao início. Uma pastilha no café local, um pacote de bolachas na mercearia... e depois ficara de vigia enquanto via os “amigos” assaltarem uma pessoa em plena rua e fugirem, deixando-o para trás. Apenas a mãe, que por acaso ali passava, o vira e, se isso o safara de consequências mais sérias com a polícia, não o livrara de uma valente tareia que o fizera fugir de casa. O tio Gabriel encontrara-o e trouxera-o para casa por uma orelha.
O que fora a maior humilhação? Saber que a mãe lhe batera ou vir arrastado para casa pelo tio, pelas orelhas?
O resultado era que o tio o acolhera em sua casa e que agora o arrastava diariamente para a Ribeira Grande, “onde podia ser útil”.
– Odeio isto. Só há cabras, porcos e velhos!
Gabriel não respondeu. Para quê? Deixou-o bufar e continuou a conduzir em silêncio.
*
Estar de volta à cozinha era para Ana um sonho. Gostava dos cheiros, dos aromas, de misturar, de criar... levavam-na de volta a uma vida em que não estivera em fuga, que pudera efectivamente desfrutar do acto de criar uma obra de arte alimentícia. Devia muito à Mã Rita ter-lhe ensinado a cozinhar.
A presença de Branca na cozinha não a atrapalhava. A cozinheira era uma mulher competente mas gostava demasiado das suas novelas e acabava por deixar a Ana a tarefa de preparar o lanche para os trabalhadores.
Conquanto poucas pessoas dormissem efectivamente na propriedade, os Doutores tinham acordado com os trabalhadores fornecer-lhes as refeições em vez de lhes pagar o subsídio de almoço e aos que ali dormiam ainda davam jantar caso assim o entendessem. Tinha sido estipulado um valor mensal que deveria cobrir todas essas despesas, mas como muito do que comiam vinha da propriedade, era muito raro atingirem esse valor.
À noite eram sempre poucas pessoas à mesa e comiam na cozinha, num ambiente fraternal. Havia Jeremias, que desde que enviuvara passava ali os serões, o Ti Manel, que fazia olhos de carneiro m*l morto a Branca desde que ela para ali fora trabalhar, a própria Branca, que escorraçava os avanços tão energicamente como quando batia a massa do pão, o Chico e a mulher Adelina, que desempenhavam as funções de caseiros na propriedade, e a própria Ana.
Desde o início houvera hostilidade declarada entre Adelina e Branca, agravada pelo facto de o próprio Chico preferir os cozinhados dela aos da esposa. A decisão da Doutora em contratar uma cozinheira e uma ajudante ainda ofendia o amor-próprio de Adelina, que não tinha senão olhares ríspidos para a jovem e para Branca.
Passara uma noite de insónias. Dera livre curso às lágrimas até se sentir oca, vazia por dentro e por fora. Conseguira beber um iogurte líquido mas faltara-lhe a coragem para mordiscar uma das maçãs verdes. Recostara-se no sofá, embrulhara-se numa manta e tentara entreter-se com o livro que tinha comprado na cidade da última vez que lá fora. À terceira página desistira, fechara-o e tentara adormecer.
O sono fora caótico, confuso, povoado de sombras e recordações. Acordara à uma da manhã com o coração a bater descompassadamente no peito, sentindo o medo e o pânico enrolarem-se à sua volta como um torno.
Percorreu as divisões, num frenesim, certificando-se que as janelas estavam trancadas, os estores corridos e as portas interiores escancaradas. Olhou para a porta da rua e verificou que estava trancada, mas colocou uma cadeira encostada à maçaneta por via das dúvidas. Só então se permitiu sentar no sofá e tentar acalmar.
– Acabou – murmurou para si própria. – Conseguiste escapar, estás aqui e vais reconstruir a tua vida.
Tinha uma lanterna consigo e levou-a para a cama quando se deitou, mas por mais que tentasse, não foi capaz de conciliar o sono.
No dia seguinte, ao arrastar-se para fora da cama, perdeu a força nas pernas e precisou de uns instantes para se recuperar. Doía-lhe o corpo do tempo que estivera deitada, às voltas, o que a levou a abrir a porta do guarda-fatos e a analisar-se com olhos críticos, tentando ver-se como as outras pessoas a viam.
Estava muito magra. Os ossos pareciam querer furar a pele e os s***s, em tempos generosos, pareciam dois pequenos pêssegos pálidos. Quem diria que fora uma criança tão rechonchuda? Se a Mã Rita a visse…
Começou a tremer e vestiu rapidamente o robe. Fechou a porta do guarda-fatos com um barulho imperceptível e foi para a casa-de-banho arranjar-se.
Só na cozinha é que se sentia como peixe na água. Do que tinha realmente saudades era de fazer festas de aniversários para crianças. A Mã Rita ajudara-a muito quando começara. Mais uma coisa para lhe estar grata. Fazer bolos, doces de colher, quiches, tartes… era um sonho. Mas isso era uma coisa que ali lhe estava vedada e, de resto, não queria chamar a si as atenções para não lhe fazerem muitas perguntas. Abençoadamente, Branca não era curiosa. Aceitava o que lhe era dito e não fazia perguntas em demasia. Por vezes, dava com a cozinheira a fitá-la com seriedade, mas nunca lhe fizera uma pergunta para a qual não se sentisse preparada para responder. Já os trabalhadores roíam-se de curiosidade e um ou outro tinha gracejado com ela, dizendo que se fossem uns anitos mais novos ela não lhes escaparia.
O passado de Ana continuava a ser um enigma para todos e ela tencionava que assim continuasse.
Quando entrou na cozinha, surpreendeu-se ao encontra-la já ocupada. Um homem estava à mesa, de braços cruzados, fazendo má cara a um adolescente que se encontrava sentado à sua frente e que parecia medir forças com ele. Eram suficientemente parecidos para serem aparentados.
Soltou um “bom dia” para o ar e vestiu o avental. O jovem olhou para ela com hostilidade.
– E tu quem és?
– David! – Repreendeu o homem. Estava a beber café por uma caneca branca, mas o olhar de advertência não deixava margem para dúvidas. David olhou para ele com rebelião no olhar, mas não disse nada. Rangeu os dentes e ocupou-se da sua própria refeição.
Branca estava de muito bom humor, o que era invulgar nela. Sorriu a Ana e apresentou-a aos convivas:
– Este é o meu afilhado, Gabriel. Aquele língua de trapos é o sobrinho David e penso que recebeu educação numa vida passada qualquer.
Gabriel sorriu-lhe, mas ela não retribuiu o sorriso. Começava a sufocar na cozinha, parecia-lhe subitamente pequena com a presença daquele projecto rebelde de homem e do seu respectivo tio, com aquelas grandes mãos e aqueles ombros largos que pareciam capazes de aguentar o peso do mundo.
As mãos tremiam-lhe e ela escondeu-as no avental.
– Por onde quer que comece, Branca?
– Vou fazer cozido hoje, podes começar por descascar as batatas. Almoças connosco, Gabriel?
– Claro, vim para trabalhar.
– Haja alguém!
Branca pretendera gracejar, mas o resultado foi David erguer bruscamente a cabeça e perguntar em tom de desafio:
– Essa foi para mim?
– Anda calminho fedelho, ou ponho-te a estrumar o campo – respondeu Gabriel, desabrido. Tio e sobrinho entreolharam-se, ambos furiosos, e nada dispostos a ceder. O resultado foi Gabriel agarrar na gola da camisa do rapaz e empurrá-lo porta fora.
Branca ficou sozinha, abanando a cabeça com descrença.
– No melhor pano cai a nódoa – murmurou. E depois virou-se e viu Ana com a faca na mão, aparentemente esquecida que a tinha. – Ou a pousas ou descascas. Assim parece que estás à espera de ser assaltada.
Ana tinha curiosidade em relação ao rapaz, mas a expressão de Branca não era de molde a permitir confidências e, de resto, receava que, uma vez aberta essa porta, ela funcionasse nos dois sentidos e lhe fizessem muitas perguntas.
Virou costas e abriu a saca de batatas que o Ti Manel tinha trazido, começando de imediato a descascá-las.
Estavam habituadas a trabalhar em silêncio, sentindo-se ambas mais confortáveis assim. Portanto, quando a porta se abriu e Adelina entrou, Ana sobressaltou-se.
Adelina era uma mulher seca, com uma forma sempre desabrida de falar. Ríspida por natureza, tinha tendência a fungar com frequência, hábito que bulia com os nervos de Ana. Trazia um telefone na mão e foi com certa aspereza que disse a Branca:
– Os Drs vêm cá passar uns dias, chegam no sábado. Querem ver como vai o trabalho. A srª doutora disse que o filho ia trazer a namorada, mas essa não deve ser grande comilona, a julgar pelas duas últimas emproadas que cá trouxe...
Fungou novamente, olhando para Ana com desdém:
– Estas meninas da cidade sabem lá o que é o trabalho duro, só querem é paródia!
Como não obteve resposta da visada, virou-se para Branca, ignorando-a ostensivamente, e lançado-se numa diatribe contra as “meninas da cidade”.
– Não têm nada na cabeça, só querem é saber do corpinho. E conteúdo dentro daquela cabecinha? É o tens!
Ana continuou a ignorá-la enquanto a mulher cuspia mais veneno, mas por fim acabou por se calar e sair com os mesmos modos desabridos com que entrara.
Se Branca reparou que a mão lhe tremia e que ela estava com muitas dificuldades em cortar a batata, não comentou. Em vez disso, pôs as carnes a cozer enquanto arranjava a hortaliça.
– O que sugeres para o almoço de sábado? – perguntou repentinamente. Sobressaltada, Ana deixou cair a batata. Apanhou as cascas, que despejou no lixo, e voltou a atenção para as cenouras.
– Eles devem vir cansados da viagem, com calor e sede – ponderou ela, cortando as extremidades às cenouras. – Talvez uma salada mista, a acompanhar um bife grelhado.
– Nesse caso, tratas tu do almoço dos patrões no sábado e deixas os lafargas comigo.
A decisão fora pronunciada num tom que não admitia réplica e Branca virou resolutamente costas à ajudante. Não viu, por isso, o ar misto de confusão e alegria que percorreu as feições da jovem.
Durante a tarde, Ana tinha sempre uma a duas horas para si. Naquele dia, sentia-se tão eléctrica com a confiança que Branca depositara em si que correu para casa, correu as trancas e abriu um caderno de capa n***a que havia algum tempo usava como diário.
Quando começara a fugir, tivera demasiado medo de escrever. Achava que se o livro caísse em mãos erradas, todos ficariam a saber e ela não suportaria a vergonha. Naquele dia, porém, estava demasiado extasiada. Pegou numa caneta e começou a escrever:
Nem sei o que sinto por voltar à cozinha. E é mesmo voltar à cozinha, não é só descascar batatas e cebolas. Se a Mã Rita me visse...!
Interrompeu-se bruscamente ao pensar na Mã Rita.Se a visse, como reagiria? Estaria zangada pela forma como desaparecera? Preocupada? Aliviada? Tudo junto?
Fechou o caderno. Escrever fora afinal uma má ideia. Começou a tremer enquanto a bílis lhe subia à boca. E pensar que em tempos já conseguira comer normalmente como uma pessoa qualquer...!
Deitou-se no sofá, fechou os olhos e esforçou-se por não pensar. Mergulhou num sono leve ao fim de pouco tempo.