4.

3017 Palavras
A mãe de Ana fora uma pessoa sorridente. Pelo menos, a jovem achava que conseguia recordar-se quando o seu riso subia límpido e cristalino, mas a verdade era que não se lembrava já de quando fora a última vez que a ouvira soltar uma gargalhada. Tinha um cabelo louro, da cor das searas de trigo, e uns olhos azuis-escuros expressivos, e de certa forma, Ana habituara-se a pensar nela como sendo um anjo etéreo. Tão moreno como a mãe era loira, o pai era muito mais sério. Tinha o maxilar quadrado sempre cerrado, e os por vezes parecia a Ana que os olhos escuros deitavam chispas. E chispavam com frequência, tantas quantos os erros que uma pessoa podia cometer. E podia cometer tantos, sobretudo quando se era criança...! Ao princípio, Ana via o pai de longe, sempre severo, sisudo, como se viesse m*l ao mundo por soltar uma gargalhada. Mais tarde, começou a perceber que a mãe na verdade lhe servia de espelho para muitas coisas e que a poupara ao pior do feitio do pai. Com o passar do tempo, a mãe de Ana perdeu a capacidade de soltar uma gargalhada, mas a sobrancelha do pai continuou arqueada, como se ela não soubesse fazer nada certo. Continuava a mesma quando estavam as duas sozinhas, mas transformava-se numa sombra quando o pai estava por perto. A dada altura, a jovem começou a questionar-se se o pai não teria conseguido transformar a mãe numa pálida sombra de si mesma. E à medida que ia crescendo, começou a odiar tudo em si: a testa alta e os cabelos negros que herdara do pai, os olhos azuis-escuros e a boca cheia que herdara da mãe. E depois passou a odiar a mãe pela sua fraqueza, pela forma como, de dia para dia, parecia desaparecer dentro de si até já só restar uma concha. E finalmente começou a odiar o pai, possessivo, obsessivo, territorial. Ainda hoje não era capaz de deixar a cama por fazer pois a voz dele, intrusiva e fria, fazia logo ouvir-se na sua mente: – A juventude não é desculpa para o desleixo. Quero estes lençóis tão esticados que uma moeda salte. Aprendera de tenra idade a fazer os lençóis de forma militar. Aprendera desde cedo a desligar-se dos seus brinquedos porque o pai os destruía como castigo por qualquer coisa que ela tivesse feito. Aprendera a ser dissimulada. A necessidade a isso obrigava. Para o exterior, uma família perfeita. Pai, mãe e filha. Ele, muito trabalhador, saía cedo e entrava tarde. Ela, doméstica, afecta às tarefas do dia-a-dia, mas que não invalidava que não tivesse de olhar pela filha pequena. E ela, a pequenita sisuda, que chegava a casa com a roupa tão impecável como quando saíra de manhã. Mas dentro de portas... Ir para a Universidade fora o seu passaporte para a liberdade. Saíra de casa, arranjara trabalho em part-time, candidatara-se a uma bolsa de estudo e afastara-se daquele ambiente opressivo em que crescera. Agora, tão longe estava da casa onde crescera, e ainda não se conseguia libertar da voz do pai. Olhou para a cama desfeita e começou, por força do hábito, a esticar os lençóis. Parou a meio. Ele não estava ali, pois não? – Não faço a cama – declarou em voz alta, desafiante. – Escolho não fazer a cama. Com gestos bruscos, desfez o que já tinha feito, o coração a bater-lhe violentamente no peito. Quase estava à espera de ouvir a sua voz calma por cima do ombro. O pai não gritava. Nunca elevava a voz. Mas só o som da sua voz era suficiente para provocar calafrios. Não via os pais nem falava com eles há cinco anos, desde que, então com dezanove anos, entrara para a universidade. O contacto fora sempre com a mãe e conseguira esquivar-se a ir lá a casa, com excepção do Natal. Sentia-se oprimida na grande casa, cheia de mármores e mobílias ultra-modernas, tudo branco e preto, com a frieza do aço. Não sentia que aquela casa fosse habitada, pois sempre lhe viera à ideia que um museu tinha mais vida. Agora nunca o faria. Não agora. Não depois de... Saiu de casa saboreando o ar fresco da madrugada. Queria apanhar maçãs porque se lembrara que puré de maçã acompanhava maravilhosamente com a carne grelhada. Há muito tempo que não fazia nada de especial e sentia aquele atractivo pela cozinha. Adorava os aromas que se elevavam no ar, os sabores que se misturavam, as cores que chamavam por si. E a verdade era que se sentia em relativa segurança. Mais, pelo menos, do que sentira até aí. Já aqui estás há seis meses, pensou de si para si enquanto calçava as luvas e agarrava na grande tesoura que descansava no barracão das ferramentas. Olhou em volta à procura do escadote e arrastou-o para o pé da macieira.É o mais parecido com um lar que conseguiste desde que saíste de Lisboa. Tratam-te bem, pagam a tempo e horas e não fazem perguntas. Está na altura de criares raízes. Gostava de Ribeira Grande, mas não se imaginava a ficar ali eternamente, descascando as batatas que Branca iria cozer para o jantar. Gostaria de ter o seu próprio cantinho, onde pudesse ser ela própria, sem ter de estar a olhar permanentemente por cima do ombro. Era irónico que uma mulher que gostasse de cozinhar tivesse tantos distúrbios alimentares, reflectiu enquanto cortava os frutos. Não era parva e não se tentava enganar. Sabia que o que começara com um problema nervoso na adolescência escalara para algo mais grave. Mas também sabia que a medicação não era solução – Cristo, a sua própria mãe teria uma coisa ou duas a dizer a esse respeito, se ainda estivesse lúcida. Inspirou a fragância da maçã que tinha na mão. Parecia sumarenta. Ponderou dar-lhe uma dentada, e se o estômago iria suportar a doçura da fruta depois da acidez com que o mimoseara nos últimos tempos. – Mas o que raio pensa que está a fazer? – vociferou uma voz por baixo dela. Com o susto, desequilibrou-se, largou o cesto das maçãs e teria caído se Gabriel não tivesse agarrado no escadote. Com o coração a bater-lhe descompassadamente no peito, olhou para baixo e percebeu que ele não levara com o cesto na cabeça por pouco. – Você é doido ou quê? Ia-me matando de susto! – vociferou m*l recuperou a voz. – Eu é que sou doido?! Você põe-se a subir a um escadote manco sem ninguém para segurar a base, e eu é que sou doido?! Você pendura-se nos ramos da árvore por causa de uma maçã e eu é que sou doido?! E para que é que quer tanta maçã, afinal? – É capaz de ter muito a ver com isso! – retrucou ela bruscamente.– Saia daí para eu descer. Gabriel continuou a segurar o escadote, mas afastou-se ligeiramente para que ela pudesse descer. Ana desceu e pôs-se de cócoras, a apanhar as maçãs. – Ainda não me disse para quer as maçãs. Ainda de joelhos, a jovem olhou para ela, com fúria no olhar e o que viu também não foi de molde a deixá-la sossegada. Gabriel era pouco mais alto do que ela, mas tinha uma largura de ombros que denunciava uma vida inteira ao ar livre. As mãos eram grossas e calejadas e, pelo menos a ela, pareciam ameaçadoras. Os olhos, semicerrados, eram duas azeitonas furiosas e o cabelo, espesso e forte, parecia ter sido cortado pelo vento. As feições eram duras e pareciam cinzeladas. A seu lado, Gabriel sentia a sua tensão, muito embora não soubesse o que fizera para a provocar. Saíra de casa furioso com o sobrinho, determinado a dar uma volta que lhe espairecesse a cabeça, e dera consigo a olhar para a casa grande. A irmã vivia em Évora, mas como Gabriel trabalhava na Ribeira Grande, conseguira que lhe fosse alugada parte das instalações que antigamente tinham sido dos criados. Aliás, os antigos donos da propriedade deviam ter sido riquíssimos nos seus tempos áureos porque as antigas instalações acabavam por formar uma pequena aldeira. Tinham água canalizada e agora já tinham electricidade, muito embora Gabriel conservasse o gerador. O Ti Manel morava lá, tal como o Jeremias, Branca, o Chico e a Adelina. Ainda havia alojamento para mais pessoas, mas os novos donos pareciam achar que não precisavam de mais gente para manter a propriedade. O que era falso e implicava contratar muita gente na altura das colheitas. Trazer David para ali fora um acto desesperado face ao rumo que o sobrinho estava a tomar. Mas quando tinham discussões a título permanente, quando Gabriel tinha de se refrear para não dar curso ao mau génio, a ideia começava a parecer disparatada. Aquela rapariga era um quebra-cabeças. Excessivamente magra, tinha olhos assombrados da cor do céu ao anoitecer. Parecia um esquilo, sempre a saltar de um lado para o lado, enquanto observava por baixo das pestanas com uma tensão tal que Gabriel se perguntou se ela iria partir-se ou fugir. Mas ao vê-la t****r ao escadote manco, sem ninguém para o segurar, só para se empuleirar e apanhar meia dúzia de maçãs, sentira a fúria fazer saltar a tampa. – Não tem nada a ver com isso – ripostou ela, pondo-se de pé e agarrando no cesto com as duas mãos. Exasperado, tirou-lhe o cesto das mãos. m*l conseguia com ela, quanto mais com o cesto. – Quer que leve isto para onde? – Não quero que leve isso para lado nenhum, devolva-me o cesto. Não lhe pedi nada! – Se vier uma rabanada de vento lá vai você pelos ares, e quer levar o cesto? – bufou depreciativamente. Virou-se e encaminhou-se para a cozinha, o que a deixou ainda mais furiosa. – Eu consigo perfeitamente bem levar o cesto. Ele olhou para ela, de sobrolho franzido. – Claro que sim. E a seguir cai para o lado. Não é hábito comerem, lá na cidade? – Vá para o inferno. – Ora aí está uma resposta original. Percorreram a curta distância que os separava da casa grande e entraram pela porta da cozinha, galgando os degraus de pedra. Devido ao matutino da hora, ainda ninguém lá estava, embora não devesse faltar muito para Branca assumir as suas funções. Gabriel pousou o cesto em cima da bancada de pedra e disse: – Está aqui. Agora entretenha-se. A cozinha, grande e cheia de bancadas em pedra, ainda tinha a mesma linha antiga porque a Srª Drª decidira mandar fazer móveis novos iguais aos antigos. O passado encontrava-se com o futuro numa cozinha grande, onde quase se esperava encontrar um fogão a lenha e a pedra tinha as marcas dos anos, mas os fogões eram a gás, havia electricidade e água canalizada. Eram estas diferenças que habitualmente fascinavam Ana, mas às quais estava imune naquele momento porque estava demasiado nervosa. Sentia um punho a comprimir-lhe o estômago e os seus gestos eram nervosos. Gabriel mudou de lugar na cadeira e ela deu um pulo. Ele fingiu que não viu e levantou-se para fazer uma caneca de café. A entrada de Branca tirou alguma da tensão que pairava no ar. m*l entrou e viu o cesto, fungou, mas não fez comentários. Em vez disso, virou-se para o afilhado e disse: – Hoje chegam os patrões. Consegues pôr uma mordaça no garoto? – Vou tentar – encolheu os ombros, num gesto impotente. Viu que Ana começara a descascar as maçãs com gestos calmos e eficientes, partindo em seguida em gomos fininhos e regando-os com umas gotas de limão. – Isso é para quê? – perguntou, curioso. – Assim não oxida – respondeu ela distraidamente. Levantou os olhos do que estava a fazer e rectificou:– Não escurece. – Eu percebi à primeira, menina da cidade – ripostou ele secamente. – Essa maçã é para quê? – Puré e talvez uma tarte, se para tanto chegar a fruta. Ana parecia absorta no que estava a fazer e pela primeira vez não saltou quando Gabriel se mexeu. m*l deu conta quando ele saiu a porta, entretida a fazer o que lhe pareceu ser uma molhanga cor de canela. Branca seguira o afilhado com os olhos, pousando-os de seguida na jovem. A sua expressão era pensativa. Fez uma sandes de queijo e pôs-lhe o prato ao pé, enquanto preparava uma para si também. Ficou de parte, observando como ela preparava a tarte com gestos eficientes. Encheu a caneca de café, bebeu-o lentamente e viu-a passar da tarte para os bifes. Era económica de movimentos. – Os rapazes hoje merecem um miminho para noite, não queres tratar disso? – perguntou casualmente. Ana levantou a vista desfocada para a cozinheira e ela insistiu: – A Srª Drª quando cá vem anda sempre de um lado para o outro e leva-me de arrasto. Não queres pensar nisso? O sorriso de Ana iluminou a cozinha, mas quando se debruçou para pôr a tarte no forno, Branca apercebeu-se que havia muito mais na jovem do que transparecia à primeira vista. * O pomar não era grande. Aliás, chamar-lhe pomar era exagerar o predicado. Duas macieiras, três laranjeiras, um limoeiro e um marmeleiro compunham o pomar, mas os cuidados de Jeremias, de Verão e de Inverno, garantiam uma fruta doce ao paladar e bastante sumarenta. Foi para ali que os pés de Gabriel o conduziram quando saiu da cozinha. A ideia era arrumar o escadote, mas Jeremias chegara lá primeiro. – Ò rapaz, vieste às maçãs? A árvore levou desbasto. – Foi a menina da cidade – disse ele contrafeito. – Temos de nos livrar do escadote manco, Jeremias. – A cachopa caiu? – Não, mas pouco faltou. Jeremias coçou a cabeça. – Vou falar com o Manel a ver se quando for à cidade traz outro. – Posso tratar disso, vou levar o David a casa para passar o domingo com a mãe. – E como está a tua irmã, rapaz? Gabriel sorriu. Só mesmo Jeremias para lhe chamar “rapaz”. Não que fosse velho; mas com trinta e três anos, sentia que tinha o peso do mundo às costas desde sempre. Fora para os campos trabalhar para ajudar os pais, depois vira a irmã embeiçar-se pelo bastardo que a abandonara quando ficara grávida e agora tinha de lidar com os problemas existenciais do sobrinho. – A trabalhar. Jeremias coçou novamente a cabeça, a olhar para a árvore. – Se a cachopa queria maçãs porque é que não pediu? – perguntou intrigado.– Eu tinha-lhas apanhado ontem. – Acordou a querer maçãs frescas, provavelmente – respondeu ele indiferente. – Ouvi-a dizer à Branca que ia fazer tarte e puré de maçã. Manias da cidade! – acrescentou com desprezo. Jeremias olhou para ele com atenção: – Já te deste ao trabalho de falar com a cachopa, rapaz? Falar, em boa verdade não; o mais que tinha feito tinha sido rosnar e desconversar, mas Gabriel não achou necessidade de lho dizer. – E então? – Quando aqui chegou, era triste como um cordeirinho tirado à mãe, e igualmente assustadiça. Entrava muda e saía calada, a ponto de a julgarmos doente ou com alguma deficiência. Depois ajudou a Branca a cultivar lá aquelas ervas para os cozinhados e começou a sorrir mais. – E então? – repetiu Gabriel, enfadado. A última coisa que queria era saber dos humores da menina da cidade. Provavelmente acharia aquilo tudo enfadonho e voltaria para a cidade daí a alguns meses. Apesar que, em sua opinião, aguentara bastante mais do que achara possível. Começara por lhe dar um mês, depois dois, e agora apostava que antes de perfazer um ano na Ribeira Grande voltaria para a cidade. Mas ali não ficaria; não, ele conhecia-a bem. – E então que vai com o Manel à cidade uma vez por mês para descontar o cheque do ordenado, troca-o no talho do Ti Alfredo e volta para trás. Nunca a vi no banco. – Metade das pessoas que conheço não confia nos bancos – retorquiu ele, muito embora aquela informação lhe tivesse despertado a atenção. Ao contrário das pessoas do campo, que viviam longe da cidade e tinham tendência para guardar o dinheiro em casa, as pessoas da cidade pareciam achar que o cartão multibanco resolvia todos os problemas. Tinham o dinheiro no banco, muito ou pouco, e o mais que viam dele era os dígitos no mostrador da máquina. E isso para Gabriel era incompreensível. Não só porque o dinheiro tinha tendência a voar muito mais depressa se não fosse visto ou tocado, como andar a trabalhar o mês inteiro para só ver números digitais era algo que lhe fazia imensa confusão. – Pois, rapaz. Mas olha que não me parece que seja o caso. –Nã me diga vossemecê que acha qu’a cachopa fugiu à justiça –interveio outra voz. Era o Ti Manel que vinha, de chapéu na mão, dar os bons dias à D. Branca e que se detivera a ouvir a conversa. –Ò homem não se meta onde não é chamado! Não foi nada disso que eu disse! A cachopa é simpática e trabalhadora. – Comilona é que ela nã é – disse Manel, ajeitando o chapéu na cabeça. – Disse-me cá a D. Branca qu’a cachopa só come maçãs, leite e iogurtes. O que quer que se lhe dê p’rálem disso fica no prato. – Mania das dietas – volveu Gabriel encolhendo os ombros com desprezo. – Manias da cidade. – Ò rapaz, deixa-te lá de preconceitos, homem! A cachopa tem algum problema é o que é. E agora vou à minha vida, que não tenho nada a ver com a dela. Jeremias afastou-se, a resmungar qualquer coisa, mas o Ti Manel deixou-se ficar. Tirou novamente o chapéu da cabeça e comentou: – Ali o compadre é capaz de ter acertado, rapaz. Disse-me a Adelina que viu a cachopa a vomitar as tripas ainda aqui há dias ali para os lados da ribeira. Pôs novamente o chapéu na cabeça e concluiu: – Vou ao mata-bicho. Já mata-bichaste? – Já, já. – Atão até mais logo.
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