Kyera
— Não!
Meu grito ecoa antes que eu bata com as costas no chão. Abro meus olhos para constatar que estou em meu apartamento e que cai da cama, após o terrível pesadelo que me persegue desde a infância. Passo as mãos pelo rosto, respirando profundamente para recuperar o folego.
— Você está em casa! Está segura! – Repito as palavras que me foram ensinadas com a intenção de conter o medo. Olho para o relógio na mesa de cabeceira, de modo a saber as horas. – Essa não!
Respiro fundo passando as mãos pelo meu cabelo volumoso. Passava das seis da noite e eu dormi demais outra vez. Se eu não levantasse e me aprontasse logo, chegaria atrasada para o trabalho.
Trabalho em uma boate chamada Mambo Five, uma homenagem a uma famosa música de Lou Bega. É uma das boates mais badaladas de Manhattan, onde trabalho como barwoman três noites por semana, das oito às quatro da manhã. Sempre tive o costume de chegar cedo para organizar o bar e me preparar para o caso de ter que cantar no lugar de Danny, o vocalista da banda que vive faltando.
Fazendo uma careta, levanto do chão e vou até o guarda-roupa para pegar algumas peças. Enquanto escolho o que vestir, penso no pesadelo que acabo de ter. Nunca soube de onde ele vem e a razão de ser tão realista. Quando era pequena, minha tia Siena, decidiu que eu precisava da ajuda de psicólogos. Ela dizia que os pesadelos começaram logo assim que cheguei a Nova Iorque aos dez anos, vinda de Benbrook. Nunca entendi bem o sonho e nenhum tratamento foi capaz de solucionar o problema, então os pesadelos continuaram. São sempre os mesmos sonhos em que me vejo em uma floresta em minha cidade natal, sendo perseguida por um homem que, aparentemente, matou uma garota. Era como estar em um filme de terror medonho, onde não se consegue escapar por mais que se tente.
Eu nasci em uma cidade chamada Benbrook, no condado de Terrant, Texas. Morava com minha mãe Sara e meu pai Vince. Minha mãe era professora da escola onde eu estudava e meu pai era assessor de marketing de uma companhia em Dallas. Morávamos em um casarão um pouco afastado da cidade, próximo à fazenda de flores do meu tio Paul e minha tia Suzzan, irmã do meio da minha mãe. Eles tinham uma pequena floricultura no centro da cidade, onde vendiam os belos buquês fabricados por minha tia. Soube que a loja existe até hoje e quem administra é minha prima Mykaella.
Até onde me lembro, tive uma infância alegre e divertida ao lado de minha prima, até ser mandada para Nova Iorque para viver com minha tia Siena e nunca mais ver minha mãe ou meu pai. A princípio, pensei que minha tia não quisesse que eu os visse. Com o tempo, quando tive idade para entender melhor, ela contou que meu pai não queria mais me ver e proibiu que eu voltasse a pisar em Benbrook. Foi quando descobri que minha mãe faleceu e jurei nunca mais voltar a falar com ele. Ainda assim, as perguntas sobre meu abandono continuam a girar em torno da minha cabeça.
Balanço a cabeça respirando profundamente. Com as peças escolhidas, caminho em direção ao banheiro para um banho rápido. Visto calças de couro, blusa de manga comprida com transparência e calço minhas botas. Ainda faço uma maquiagem leve destacando apenas os meus olhos e prendo meus cabelos em um r**o de cavalo. Pegando as chaves, o celular e a mochila, saio do apartamento seguindo para o elevador que chega em alguns segundos. Assim que chego ao saguão do prédio em que moro, Stephan, o porteiro da noite vem em minha direção para me saudar.
— Boa noite, Srta. Winter.
— Boa noite, Stephan. – Retribuo com um sorriso. – Como vai à esposa?
— Vai muito bem, obrigado.
— Diga a ela que mandei lembranças.
— Digo sim, senhorita. – Ele acena para mim. – Tenha uma boa noite de trabalho.
Seguindo para a saída que dá na garagem do prédio, vou em direção a vaga onde guardo minha moto, uma Suzuki Hayabusa, presente dado pela minha tia em meu vigésimo primeiro aniversário. Eu já gostava de pilotar antes mesmo de ter a moto.
Minha tia, Siena Mitchell foi uma conhecida artista. Ela pintava quadros excêntricos que renderam a fortuna que ela possui hoje e que herdei após sua morte, dois anos antes. O apartamento na Madson era um dos bens deixados para mim. Uma cobertura no último andar com área privada e piscina coberta. Eu pouco uso a área de lazer, pois tenho muito medo de altura, além de não saber nadar. Não fossem somente esses problemas, tenho poucos amigos que raramente convido para vir a minha casa. Em geral, acho o apartamento muito grande e já pensei em vendê-lo para morar em algo menor. Não que dinheiro fosse um problema, porém, esse lugar não faz o meu estilo.
Subo na moto dando a partida em seguida. O som do motor faz meu corpo arrepiar e meu coração bater forte cada vez que eu ligo a moto. Era a adrenalina tomando conta.
Sigo pela principal em direção ao Central Park. Não muito longe dali fica a Mambo Five, uma boate eclética com várias atrações, incluindo um show burlesco protagonizado por algumas dançarinas. Uma delas é minha amiga Sophie Smith, a dançarina principal dos números no pole dance. Phillip Novac é o dono da boate e um bom amigo. Ao lado de sua namorada latina chamada Lila Gonzales, ele comanda as noites mais animadas de Nova Iorque.
Eu não preciso trabalhar, mas odeio a vida de socialite e não consigo ficar parada. Meu sonho mesmo é trabalhar com a profissão em que me formei na faculdade, que é a veterinária. O problema é que abrir uma clínica veterinária em Nova Iorque significa trabalhar com diversas madames e seus poodles cheios de frescura. Como disse, dinheiro não é um problema, mas eu preciso pensar em algo a longo prazo se quiser abrir uma clínica veterinária para a classe mais baixa e lidar com peruas cheias de exigência não está em meus planos.
Chego à boate faltando pouco para as oito. Phillip já me aguardava, olhando pelo vidro da sala da administração, acima do bar como sempre faz. Ele sorri e acena para mim quando atravesso o enorme salão em direção ao meu posto de trabalho.
— Oi, baby!
Sophie me cumprimenta sentando em um das banquetas do bar. Ela usava uma peruca cor-de-rosa e um corpete tomara que caia preto, cheio de lantejoulas, provavelmente, já pronta para um de seus números.
— Onde esteve? Fiquei preocupada, já que tem o costume de chegar antes de muitos de nós. – Diz ela fazendo beicinho, enquanto rouba uma das azeitonas do pote que disperso em uma travessa.
— Oi, Soph! – Sorrio dando um t**a na mão dela, que faz uma careta abanando a mão no ar. – Sinto muito! Tive um pesadelo e quase perco a hora.
Sophie rosna quando eu a impeço de roubar mais azeitonas, arrancando uma gargalhada minha. Ela é uma exuberante loira, alta e cheia de curvas. Tem um senso de humor infinito e é dona de uma autoestima invejável. Se formou em uma conceituada academia de dança, mas não era exatamente o que ela queria, então saiu de Nova Jersey e veio para Nova Iorque dançar nas mais variadas boates, até chegar em Mambo Five, uma das poucas com números burlescos. Seu único defeito é o namorado i****a e cafajeste. Ela me encara com seus olhos azuis semicerrados e faz uma careta.
— De novo? Você deveria consultar um especialista para ver de onde vem esses pesadelos.
Suspiro, balançando a cabeça de um lado para o outro.
— Nem pensar! Já passei por isso quando era criança e de nada adiantou. – Faço uma careta. – Além disso, eles não são tão frequentes quanto eram na minha infância.
— Pontual como sempre!
A voz de Phill interrompe meus pensamentos e eu ergo os olhos a tempo de vê-lo caminhar em nossa direção. Sorrio com simpatia quando ele salta por cima do balcão para beijar minha face.
Phillip deve ter, pelo menos, uns trinta anos e é simplesmente deslumbrante com seu cabelo castanho e olhos brilhantes da mesma cor. Anda sempre muito bem-arrumado e perfumado. Seu sorriso é contagiante e seu lado sedutor acaba provocando a fúria de Lila. Ele é um bom patrão e eu o tenho como um amigo, nada mais. Não que ele não tenha tentado seduzir a mim com o seu jeito todo galante, mas eu não o via desta forma. Além disso, tive uma experiência traumática com um ex-namorado que não me deixa em paz, mesmo que ele é quem tenha terminado comigo.
— Boa noite, Phill. – Sorrio para ele, que se senta na banqueta ao lado de Soph. – Não me diga que Danny não virá novamente.
— Como sabe? Ele disse algo a você?
— Não exatamente, mas, sempre que você precisa da minha ajuda, aparece todo galante e com esse olhar meloso.
Ele faz uma careta, suspirando e passa suas mãos pelos cabelos, desalinhando os fios.
— Danny ligou avisando que terá que faltar, pois, pegou uma gripe. Será que você pode substituí-lo, intercalando as apresentações até o primo dele chegar para o show de burlesque?
— Danny tem um primo? – Faço uma careta.
— Sim e ele se chama Callie. – Ele responde, ficando de pé. – Sabe que pagarei o dobro se topar substituí-lo, mesmo que por pouco tempo.
— Phill, você sabe que dinheiro não é um problema para mim e que trabalho apenas para passar o tempo e ter o que fazer durante o dia. – Sorrio piscando para Sophie. – Dê o cachê a Soph.
Sophie me encara com olhos arregalados e surpresos.
— Tem certeza?
— Claro! – Sorrio para ela, então seguro suas mãos. – Eu não preciso do dinheiro e você tem um aluguel para pagar.
Sophie salta sobre o balcão, então me abraça.
— Obrigada! Você é uma ótima amiga, sabia?
Eu sempre quis convidar Sophie para morar comigo, mas devido à má reputação de seu namorado cafajeste que só se aproveita dela, prefiro deixar tudo como está e a ajudo dá maneira mais sutil possível.
— Então estamos combinados. – Diz Phillip beijando minha face. – Você entra as nove.
Ele desce do balcão, então se vira indo em direção a sua sala, de onde Lila nos observava. Faço uma careta para o olhar desdenhoso dela que se vira para falar com Phill assim que ele entra na sala.
As oito, a boate foi aberta e não demorou para que ficasse cheia. Enquanto preparo as bebidas, penso no repertório musical que cantarei. Foi apenas uma hora e meia de apresentação, em que fui muito aplaudida pela plateia como em várias noites que substitui Danny. Deixo o palco para a apresentação do número de Sophie que dança ao som de Angel (Massive Attack) em um pole dance. Do bar, localizado bem em frente ao palco, aplaudo Sophie enquanto sirvo os drinques.
— Lindinha, prepare um cosmo e uma cerveja, por favor?
Olho para o loiro alto na minha frente, que deve ter uns sessenta anos ou mais. Seus cabelos foram pintados de preto e começavam a deixar a raiz branca a mostra. Ele é Moe Harrisson, um magnata da indústria de montagem de carros. Namorador, toda noite ele vinha até a boate acompanhado de alguma garota com idade para ser sua neta.
Entrego as bebidas a ele, que me agradece com uma gorjeta. Eu a separo, colocando na caixinha de Sophie.
— Gata de fogo!
A voz nojenta de Lews atravessa meus ouvidos fazendo com que eu desvie o olhar e encare seus olhos azuis glaciais, enquanto ele exibe um sorriso arrogante e sarcástico.
Conheci Lews há dois anos durante uma das corridas de rua que costumo participar e começamos a sair. Depois de um tempo o relacionamento evoluiu e começamos a namorar. Após nossa primeira e única noite, onde perdi minha virgindade, Lews simplesmente terminou tudo sem explicação. Quando tentei cobrar uma explicação dias depois, ele me humilhou na frente de seus amigos. Logo percebi o cafajeste que ele é ao descobrir sobre a aposta que ele fez com alguns amigos corredores de que ele não conseguiria t*****r comigo. Foi o momento mais doloroso para mim, mas que eu saí por cima, de queixo erguido e sorrindo para ele com desdém, enquanto deixava seu apartamento, onde ele dava uma festa. Chorei apenas quando cheguei em casa, no silêncio do meu quarto. Aquela noite tive o mesmo pesadelo, porém, meu algoz tinha o rosto de Lews.
Há alguns dias, ele decidiu pedir perdão pelo que fizera e disse que queria reatar. Mandei que ele fosse a m***a comer capim e o ignorei. Ele passou a me perseguir na tentativa de reatar o namoro, vindo a boate sempre que pode, para me atormentar.
— O que vai beber? – Pergunto em tom profissional, tratando Lews como um cliente qualquer.
Ele sorri de forma sarcástica.
— Que tal um pouco da água dessas belas lagoas que você carrega nos olhos?
— Suas cantadas são tão ridículas quanto você, Lews. – Devolvo, fazendo uma careta de nojo. – Não posso falar com você, pois estou trabalhando.
Virando, ignoro Lews para atender um cliente que se aproximou do bar. Esticando a mão por cima do balcão, Lews agarra meu braço com força e me puxa de volta.
— Não me ignore, Kye! – Diz ele entre dentes. – Você sabe que eu odeio quando faz isso!
Solto um rosnado, puxando meu braço.
— Tire suas mãos de mim ou você vai se arrepender!
Advirto, sussurrando em tom frio. Com uma carranca, viro para encarar as prateleiras atrás de mim. Com um rosnado Lews sobe no balcão, se sentando com os pés virados para dentro do bar e agarra meu cabelo puxando com violência.
— Não admito que me dê as costas, garota! – Ele brada, puxando com força. – Mulher alguma diz não para mim e você não será diferente.
Tento me desvencilhar da mão dele quando vejo o brilho de um canivete através do reflexo do espelho. Arregalo os olhos por alguns instantes, petrificada com a cena. Lews ergue o canivete no ar, mas sou empurrada para o lado. A lâmina corta o ar, enquanto sou atirada ao chão. Um dos barmans acerta um soco em Lews, que cai sobre a multidão do outro lado do balcão. Logo o pandemônio se instaura na boate e a polícia é chamada para conter a multidão. Vários clientes saem algemados, entre eles, Lews. Já passava das três da manhã quando a calmaria se restabeleceu e Phill teve que fechar a boate para contabilizar o prejuízo.
— Eu a quero fora daqui!
Lilla grita da sala da administração. Ela estava furiosa e fez questão de não esconder. Ela é uma morena exuberante que adora usar roupas apertadíssimas em seu corpo esguio e magro. Tem enormes s***s de silicone, botox nos lábios e as lentes de contato azuis, abrilhantam a face coberta por uma maquiagem exagerada. Infelizmente, Phill ama o projeto de robótica mais que a si mesmo.
— Lilla, baby… – Phill começa a falar, indo de encontro a ela no meio do salão, agora vazio.
Eu fechava o bar, tentando ignorar a morena escandalosa contando as bebidas utilizadas e as remanescentes.
— Sem baby! – Ela diz, erguendo uma das mãos e impedindo Phillip de continuar. – Ela e o namoradinho dela já causaram prejuízos demais para a boate.
Respiro fundo porque ela tinha razão. Aquela não foi a primeira vez que Lews arranjou confusão ao vir atrás de mim. Eu não entendia a razão dele passar a me perseguir, mas desta vez ele tentou me m***r.
— Mas baby… Entenda… – Ele argumenta. – A Kye é a melhor barwoman que temos. Não podemos simplesmente demiti-la.
— Contrate outra! – Lilla esbraveja colocando as mãos na cintura. – Não é possível que só haja ela para essa função, nesta maldita cidade
Olho de um para o outro como em um jogo de tênis. Os demais funcionários começam a protestar, até que Lilla, irredutível, solta uma ameaça decisiva.
— Phillip, você escolhe! – Ela aponta para mim. – Ou ela sai, ou sairei eu!
Ela lança um último olhar em minha direção e sorri friamente antes de sair rebolando seus quadris de volta até a sala da administração. Respiro profundamente já sabendo a decisão que Phillip tomaria. Começo a lamentar comigo mesma. Embora não precisasse do emprego, trabalhar na boate sempre foi uma distração para mim, além de parecer estar em uma família de verdade. Uma que nunca tive desde meus dez anos, apesar de todo o carinho que minha tia Siena deu para mim até seu último suspiro. Agora sei que me sentirei sozinha novamente, o que é uma grande pena.
— Kye, eu…
Phillip começa a argumentar, mas eu o interrompo erguendo uma das mãos e sorrio para ele.
— Tudo bem, Phill! Nos últimos dias, Lews causou muitos problemas a boate e essa noite tentou me m***r. Isso o torna um grande perigo para mim e a todos os que estão a minha volta. – Pego minha mochila atrás de balcão e saio do bar. – Dê a Soph tudo o que você me deve e não tente enganá-la, pois sei bem quanto é.
Phill solta uma gargalhada, então eu o abraço.
— Sentirei falta de você, menina! – Ele sussurra.
Assinto com lágrimas nos olhos, então beijo seus lábios rapidamente. Ouço Lila soltar um grunhido e aponto o dedo do meio para ela que me encara com um olhar chocado. Atravesso o salão, indo em direção a saída e abraço todos os meus amigos.
— O que farei sem você? – Soph me abraça aos prantos em um gesto teatral e exagerado.
Solto uma risada.
— Exagerada como sempre! – Digo ao me afastar para encará-la. – Você ficará bem! Além disso, não é o fim do mundo. Ainda seremos amigas e se precisar, sabe onde me encontrar.
Ela assente, então me abraça novamente. Despeço-me dela, então saio da boate. Assim que piso no beco do lado de fora, uma chuva fina começa a cair. O clima de Nova Iorque é única parte r**m de se morar na cidade. Respiro profundamente olhando para o céu e deixo a chuva lavar as lágrimas que correm por minha face. Ainda é cedo e a cidade m*l acordara. Tudo o que quero é descansar, mas antes, um bom desjejum com a melhor panqueca da cidade cairá muito bem.