CAPÍTULO 2

1263 Palavras
SOMBRA NARRANDO Meu nome é Samuel. Mas ninguém me chama assim. Aqui, eu sou conhecido como Sombra. É o nome que carrego pelas vielas do morro. Tenho trinta anos, sou moreno, alto, forte e cheio de tatuagem pelo corpo. No meu morro, ninguém precisa perguntar quem eu sou. Meu nome já chega antes de mim. Quando meu rádio chama, os moleques param o que tão fazendo e prestam atenção. Eu sou o chefe. Sou eu que dou as ordens, resolvo as broncas e decido o que pode e o que não pode acontecer por aqui. Não cheguei nesse lugar por sorte. Foi muita caminhada, muita merda no caminho e gente ficando pelo caminho também. Hoje, meu nome é respeitado. E quem não respeita aprende. Mas tem uma parada que quase ninguém sabe sobre mim. Eu tenho mãe. E tenho uma irmã. As duas vivem bem longe daqui. E é melhor assim. Minha mãe sabe que eu não sou nenhum santo, mas nunca gostou dessa vida que escolhi. Minha irmã também prefere ficar longe dessa loucura toda. Então eu mantenho as duas protegidas. Ninguém no morro sabe onde elas moram. Ninguém sabe da rotina delas. E quem tentar descobrir vai ter problema comigo. Porque nessa vida eu posso perder dinheiro, território, até homem... Mas minha família, não. Minha família fica fora dessa p***a. Sempre foi assim. Fora isso, eu não sou homem de muita frescura. Nunca fui. Mulher também nunca foi problema. Sempre tive quem eu quisesse e nunca precisei prometer nada pra conseguir. Não gosto de mulher grudada. Não gosto de cobrança. E muito menos de compromisso. Cada um na sua e tá tudo certo. Amor? Isso aí nunca foi pra mim. Eu não tinha tempo pra essas porras. Tinha meu morro pra cuidar, minha tropa, dinheiro entrando e problema aparecendo todo santo dia. E hoje não era diferente. Eu tava no restaurante, terminando meu almoço com os moleques, enquanto eles trocavam ideia sobre o movimento. — Então presta atenção — falo, largando o copo na mesa. — Quero os caras de olho nas entradas hoje. Qualquer parada estranha, vocês me chamam na hora. — Pode deixar, chefe. — E não quero ninguém fazendo merda sem minha autorização. Tá ligado? — Tá sim. Pego meu celular e dou uma olhada rápida na tela. Ia levantar quando escuto uma voz atrás de mim. — Vai embora sem falar comigo, chefinho? Olho por cima do ombro. Rayane. Ela vinha toda produzida, com aquela marra que parecia fazer parte dela. Roupa curta, cabelo feito, maquiagem impecável e aquele jeito de andar que fazia qualquer homem acompanhar com os olhos. Rayane era conhecida no morro. Uma das mulheres mais desejadas dali e, sinceramente, uma das mais bonitas. E ela sabia muito bem disso. — Qual foi, Rayane? Ela dá aquele sorriso de canto e chega mais perto. — Qual foi que eu tava te procurando. Ela se acomoda no meu colo, sem a menor cerimônia. Os moleques começam a rir. — Ih, chefe... — Vai tomar no cu vocês — falo, empurrando o ombro de um deles. Rayane ri. — Tá ocupado hoje? Olho pra ela. — Agora não tô mais. Seguro a cintura dela. — Bora lá pra goma. Tô precisando desestressar a cabeça. — Só a cabeça? Dou uma risada curta. — Tu é folgada pra c*****o. — E você gosta. Levanto. — Vambora. Pouco depois, chegamos na minha casa. Abro a porta e entro primeiro. Rayane vem logo atrás. Jogo a chave sobre o móvel e olho pra ela. — Fecha a porta. Ela fecha. Caminho até o sofá e me sento. Rayane se aproxima com aquele sorriso cheio de confiança. — Vem cá. Sabe muito bem o que eu quero. Ela se ajoelha na minha frente, mas, antes que qualquer coisa aconteça, meu rádio chia. — Chefe? Fecho a cara na mesma hora. — Fala, p***a. — Deu uma parada aqui. — Que parada? — Pegamos uma mulher entrando na comunidade. Meu olhar muda. — Mulher? — É. Tá sozinha. — E tá fazendo o quê aí? — Diz que entrou porque o GPS mandou. Dou uma risada sem humor. — GPS? — É o que ela tá falando, chefe. — E quem é essa mulher? O moleque fica alguns segundos em silêncio. — Aí que tá a parada. Ela é mulher de policial. Minha expressão fecha. — Tu tem certeza disso? — Tenho. Achamos os documentos dela no carro. Levanto do sofá na mesma hora. — Então presta atenção. Não encosta um dedo nela. Leva a mulher pro QG e fica de olho. — Pode deixar, chefe. — Tô indo pra lá agora. Desligo o rádio. Rayane me encara, contrariada. — Vai me deixar aqui? — Vou resolver uma parada. — Vai demorar? — Sei lá, Rayane. Fica aí. Ela cruza os braços. — E eu fico esperando? Olho pra ela. — Fica. Depois a gente vê. Pego minha camisa e saio. Pulo na moto e sigo direto pro QG. Aquela história de GPS não tava descendo. Ninguém entrava no meu território daquele jeito por acaso. E muito menos uma mulher casada com policial. Tinha alguma coisa errada. Quando chego, largo a moto na entrada e entro. — Trouxeram a mulher? — Tão chegando, chefe. — Então manda subir direto. Entro na sala e me jogo na cadeira. Fico esperando. Não demora muito. Batidas fortes ecoam na porta. — Entra. A porta abre. Dois dos meus homens entram primeiro. — Trouxemos ela, chefe. Faço um sinal com a cabeça. — Bota ela aí. Então ela entra. E, porra... Eu paro. Meu olhar vai direto pra mulher. Ela era bonita pra c*****o. Bonita num nível que me pega desprevenido. E isso era raro. Muito raro. Já tinha visto mulher bonita pra c*****o naquele morro. Mas aquela ali tinha alguma coisa diferente. Cabelos bem cuidados. Rosto delicado. Olhos marcantes. Uma beleza que não combinava nem um pouco com aquele lugar. Ela segurava a bolsa contra o corpo, tentando esconder o medo. Mesmo assustada, ainda mantinha a cabeça erguida. Fico alguns segundos olhando. Os moleques percebem meu silêncio. — Chefe? Nem respondo de primeira. Continuo encarando. Aquela mulher tinha conseguido uma coisa que quase ninguém conseguia: Me deixar sem palavras. Finalmente me ajeito na cadeira. — Qual teu nome? Ela engole seco. — Elisa. O nome fica preso na minha cabeça. Elisa. — Elisa... Ela confirma com a cabeça. Cruzo os braços. — Então vamos começar do começo. Que p***a tu tava fazendo no meu morro? — Eu não queria estar aqui. — Não foi isso que eu perguntei. Ela respira fundo. — O GPS me trouxe pra cá. Dou uma risada curta, desacreditado. — GPS? — Sim. Me inclino um pouco pra frente. — Tu tá querendo me fazer de o****o? — Não! Ela responde rápido. — Eu juro que não. Eu errei o caminho. O aplicativo mandou eu entrar nessas ruas e, quando eu percebi, já estava aqui. Fico encarando aqueles olhos. — E tu ainda quer que eu acredite nessa história? — É a verdade. Olho para os dois moleques. Depois volto pra ela. — E teu marido? Ela hesita. — O que tem ele? — É policial? Ela assente. Meu maxilar trava. Agora a parada tinha ficado muito mais interessante. Uma mulher bonita pra c*****o. Sozinha. Dentro do meu território. E ainda por cima mulher de policial. Me encosto novamente na cadeira. Por algum motivo, eu queria descobrir até onde aquela história ia. Porque uma coisa eu já tinha certeza: Elisa não tinha ideia de onde tinha acabado de se meter.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR