CAPÍTULO 1

1374 Palavras
ELISA NARRANDO Meu nome é Elisa, tenho 24 anos e, até poucos dias atrás, tinha uma vida completamente diferente daquela que estava começando no Rio de Janeiro. Eu tinha minha rotina em outra cidade, meus amigos, minha família e, principalmente, minha clínica médica. Levei anos para construir aquele lugar. Era um dos meus maiores orgulhos. Mas então meu marido, Eduardo, recebeu uma proposta de trabalho no Rio de Janeiro. Deixei tudo para trás. Minha família, minha clínica, minha cidade... tudo. Agora estávamos aqui. No Rio de Janeiro. Termino de ajeitar as últimas coisas sobre a bancada da cozinha e dou uma olhada ao redor. Ainda parece estranho chamar aquele lugar de casa. As caixas já não estão espalhadas pela sala, os móveis estão nos lugares e, aos poucos, o apartamento começa a ganhar a nossa cara. Depois de tanto tempo falando sobre começar uma vida nova no Rio de Janeiro, finalmente estávamos ali. Eu sorrio sozinha ao pensar nisso. — Amor, você viu minha farda? A voz do Eduardo vem do quarto. — Está em cima da cama! — respondo, pegando um pano para limpar uma pequena mancha na bancada. Poucos segundos depois, ele aparece já vestido para o trabalho. Fico olhando para ele por alguns instantes. É o nosso primeiro dia de verdade no Rio. E ele já vai trabalhar. — Você não podia tirar pelo menos hoje para ficar comigo? — pergunto, fazendo uma carinha emburrada. Ele sorri e vem até mim. — Se eu pudesse, você sabe que eu ficava. — Eu sei... Ele passa os braços pela minha cintura e me puxa para perto. — Mas não fica assim. Eu prometo que vou tentar sair mais cedo. — Você sempre promete isso. — E quase sempre tento cumprir. Dou uma risada baixa. Ele beija minha testa e depois encosta os lábios nos meus. — Está gostando daqui? Olho ao redor. — Ainda estou me acostumando. Tudo é tão diferente... — Vai dar tudo certo. Ele acaricia meu rosto. — E quando a gente estiver mais adaptado, sabe o que eu quero? — O quê? O sorriso dele muda. Fica mais bobo, mais carinhoso. — Um filho. Meu coração aperta. Eu sabia que aquele era o maior sonho dele. Desde que éramos namorados, ele falava sobre ser pai. Sempre que via uma criança na rua, ficava imaginando como seria quando chegasse a nossa vez. — Você pensa nisso demais. — Penso mesmo. — Ele ri. — Quero um mini nós dois correndo por essa casa. Reviro os olhos, mas não consigo esconder o sorriso. — Você já está planejando até a criança. — Claro. E você ainda vai reclamar quando eu mimar demais. — Eu já estou vendo. Ele me dá outro beijo. — Eu te amo. — Eu também te amo. O celular dele vibra. Ele olha para a tela e suspira. — Preciso ir. Faço uma careta. — Primeiro dia no Rio e você já está indo embora. Ele segura minha mão. — É só trabalho, amor. Hoje à noite eu sou todinho seu. — Vou cobrar. — Pode cobrar. Ele pega as chaves, dá mais um beijo em minha testa e caminha até a porta. Antes de sair, ainda olha para mim. — Se precisar de qualquer coisa, me liga. — Vai tranquilo. A porta se fecha. E o silêncio toma conta do apartamento. Solto o ar devagar. Eu sabia que ser casada com um policial significava lidar com horários imprevisíveis, mas uma parte de mim tinha imaginado aquele primeiro dia de outra maneira. Queria conhecer a cidade ao lado dele. Queria sair para almoçar, andar pelas ruas, descobrir nossos lugares favoritos. Mas tudo bem. Talvez eu pudesse fazer alguma coisa sozinha. Como se tivesse escutado meus pensamentos, meu celular toca. Olho para a tela e sorrio. Letícia. É a única amiga que tenho no Rio. — Oi, amiga! — Elisa! Você está ocupada? — Não. Por quê? — Vamos sair? Quero te mostrar um pouco do Rio. Meu sorriso aumenta. — Sério? — Claro! Você não pode ficar presa dentro de casa. Eu vou te levar pra conhecer alguns lugares. — Eu adoraria. — Então combinado. Daqui a uma hora eu te encontro na entrada da comunidade. É fácil de chegar, eu te passo a localização. Franzo a testa. — Na entrada da comunidade? — É. — Mas você não consegue vir até aqui? Ela dá uma risadinha. — Amiga, você sabe que eu não tenho carro, né? E muito menos dinheiro pra ficar pegando carro de aplicativo toda hora. — É verdade. — Fica tranquila. Eu te encontro lá. Ainda fico um pouco insegura. — Não é perigoso? — Perigoso por quê? — ela pergunta, rindo. — Todo mundo aqui me conhece. Fica tranquila, Elisa. Você chega, para na entrada e eu vou estar lá. Mordo o lábio. Não gosto muito da ideia, mas também não quero passar o dia inteiro sozinha. — Tá bom. Daqui a uma hora eu estarei lá. — Perfeito! E vem bonita, hein? — Você é impossível. Nós duas rimos antes de desligar. Olho para o relógio. Tenho uma hora. Subo para o quarto, tomo um banho rápido e começo a me arrumar. Escolho uma roupa confortável, mas bonita. Prendo parte do cabelo, passo uma maquiagem leve e pego minha bolsa. Antes de sair, confiro se tranquei tudo. Pego as chaves do carro e desço. Já dentro do veículo, coloco o endereço no GPS. — Vamos lá... Dou partida. No começo, tudo parece normal. O GPS me orienta pelas avenidas e eu sigo tranquilamente. Até que, depois de alguns minutos, ele começa a indicar caminhos diferentes. Entro em uma rua. Depois em outra. Aos poucos, as avenidas largas desaparecem. As ruas ficam menores. Mais estreitas. Olho pela janela. As casas estão cada vez mais próximas umas das outras. Algumas pessoas param o que estão fazendo para olhar para o meu carro. Uma moto passa ao meu lado. Depois outra. Meu desconforto aumenta. Olho para o GPS. — É sério que é por aqui? O aplicativo continua mandando seguir em frente. Faço uma curva. A rua fica ainda mais estreita. Meu coração começa a bater mais rápido. Olho pelo retrovisor. Uma moto está atrás de mim. Tento manter a calma. — Deve ser algum atalho... Mas alguma coisa dentro de mim diz que aquilo está errado. Paro o carro por alguns segundos e tento colocar outro caminho no GPS. Ele recalcula. Só que o novo caminho parece ainda pior. — Não, não... Tento voltar. Dou ré. Mas, antes que consiga sair dali, escuto o barulho de várias motos. Olho pelo retrovisor. Uma. Duas. Três. Meu coração dispara. As motos se aproximam. De repente, homens aparecem na frente do carro. Armados. Muito armados. Freio bruscamente. — Meu Deus... Um deles bate com a mão no capô. Outro aponta a arma para o para-brisa. — Desce do carro! Meu corpo inteiro congela. — O quê? — Eu falei pra descer! Minha mão começa a tremer. Abro a porta lentamente. — Calma... calma... — Anda! Saio do carro. Um dos homens abre a porta do motorista e começa a revistar o interior. Outro pega minha bolsa. — Ei! Por favor... — Cala a boca. Ele abre minha bolsa, joga algumas coisas sobre o banco e pega meu celular. — Senha. — Eu... — A senha! Digo os números com a voz trêmula. Ele desbloqueia o aparelho. Começa a mexer nas minhas conversas, fotos e contatos. Então para. Seu olhar muda. — Pera aí... Ele olha novamente para a tela. Depois para mim. — Você é mulher de policial? Meu sangue gela. — Sou... Os homens trocam olhares. Um deles pega o rádio preso ao colete. Meu coração parece parar. — Chefe... Ele faz uma pausa, olhando para mim. — Encontramos uma mulher aqui. É mulher de policial. O silêncio que vem depois parece pior do que qualquer ameaça. Eu olho ao redor. Ninguém responde. Até que o rádio chia. Uma voz masculina surge do outro lado. Não consigo entender o que ele diz. Mas, pelo jeito que todos os homens imediatamente ficam atentos, sei que aquela voz pertence a alguém importante. Meu peito aperta. Quem era aquele homem? E, principalmente... o que ele faria comigo?
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR