KAYLA WILLIAMS
Minha cabeça estava começando a pesar, pelos calmantes que me fizeram engolir, mas nada aquietava a minha mente. O cheiro de fumaça havia diminuído, graças ao trabalho dos bombeiros, assim como o fogo na casa, que foi controlado antes que passasse para as outras casas da reserva. Eu ouvia as sirenes, ouvia os policiais tentando isolar a área, ouvia as pessoas lamentando por mim. Nada daquilo fazia sentido.
Pulei do fundo da ambulância e, sentindo-me como um astronauta no espaço, dei passos hesitantes e pesados na direção da casa, que ainda soltava fumaça. Ouvi o chefe do corpo de bombeiros me chamar, ouvi os gritos das pessoas.
— Ei, ei! — Bruce correu até mim e me abraçou de lado, me impedindo de continuar caminhando — Não pode ir até lá.
— Jakob está me chamando. — tento afastá-lo — Ele precisa de mim.
— Kayla. — ele tenta
— Meu filho precisa de mim. — o encaro
Os olhos de Bruce estão molhados e vermelhos. As veias de seus braços estão saltadas e as mãos feridas, pela ajuda que deu ao povo da reserva, carregando baldes e tonéis de água, enquanto os bombeiros não chegavam. Ele bem que tentou, apesar da pancada que tomou na cabeça, com o impacto da explosão, mas não restou quase nada da casa. Quase nada da minha mãe e do meu filho.
Quero m***r Elizabeth com minhas próprias mãos.
— Me desculpe. — Bruce murmurou, os olhos se enchendo com mais lágrimas — Me perdoa.
A teia do Bruce me envolveu e o veneno da aranha atingiu a minha família.
— Estamos esperando a liberação dos bombeiros, para que os peritos entrem. — Andrew se aproxima ao lado de sua esposa — É certo que sua mãe e seu filho estão aí dentro? — me olha
Eu o encaro, a língua pesada demais. Não o respondo, mas meu olhar para ele faz com que ele me dirija de volta um olhar de pena.
Odeio que sintam pena de mim.
Apenas entre lá dentro e salve a minha família!
— Kayla, os seus pontos estão sangrando. — Rebecca diz e todos olham para a minha barriga
Eu sinto o tecido da blusa molhado e grudando em mim, mas não me importo com isso.
— Venha, eu vou limpar isso na ambulância. — ela segura as minhas mãos, mas eu a afasto
— Jakob. — me viro para a casa, tentando continuar o meu caminho
Bruce me mantém parada.
— Kayla, por favor.
— Jakob. — chamo de novo
Bruce parecia estar quebrando por dentro.
— Vá com Rebecca, Kayla. — Andrew tenta — Nós vamos cuidar do Jakob.
Os calmantes estão fazendo efeito no meu corpo, o que me faz perder as forças e ser carregada por Bruce e Andrew de volta para a ambulância. Enquanto Rebecca levanta a minha blusa e murmura algo sobre a ardência que a limpeza pode causar, mas não me importo com isso. Embora meu corpo esteja desacelerando cada vez mais, minha mente está um caos.
Será que encontraram alguma pista?
Será que Elizabeth ainda está por aí?
Eu quero que ela morra!
— Somente um corpo foi encontrado lá dentro.
Franzo o cenho.
Alguém está conversando perto da entrada da ambulância e eu preciso me esforçar muito para conseguir prestar atenção.
— Próximo à varanda dos fundos, é um adulto.
— Você tem certeza? — reconheço a voz do chefe dos bombeiros
— Absoluta.
— Jakob. — murmuro e Rebecca me olha
— Vai ficar tudo bem, Kayla.
Olho para suas mãos e só então percebo que ela tem uma seringa com uma agulha enfiada no meu braço. O líquido entra gelando por dentro e é questão de segundos até que eu fique ainda mais mole. Já não consigo mais ouvir a conversa do lado de fora.
— Eu sinto muito. — a ouço murmurar
Minha vista está embaralhada, as pálpebras pesadas.
Meus olhos se fecham, mas minha mente demora a silenciar. Quando acontece, sonho com o nascimento de Jakob e mamãe segurando minha mão.
Onde está o meu filho?
BRUCE CARTER
Não havia um segundo corpo na casa.
Esse fato me deixou num misto de desespero e esperança.
Se o corpo encontrado era o da minha sogra, Esmee, mãe de Kayla, então Elizabeth está com Jakob.
Isso é bom ou r**m?
— Detetive Hastings, polícia de Dawsonville.
Droga!
Me virei a tempo de ver Margot Hastings, detetive responsável pela investigação do desaparecimento da minha esposa, furar o bloqueio e se aproximar, se apresentando para Magdalene Jones.
— Eu sou responsável pela investigação do desaparecimento de Elizabeth Carter, esposa do detetive Bruce Carter.
— Eu sou responsável pela investigação da sabotagem ao carro de Kayla Williams, namorada do detetive Bruce Carter. — Jones aperta a mão dela — E agora pela explosão de sua casa.
— Parece que sempre há tragédias rondando as mulheres que se relacionam com você, Carter. — Hastings me encara
Ah, essa mulher me odeia!
— Detetive Hastings, esse é meu parceiro, detetive Stone. — me limito a apresentá-los
— Margot. — ela oferece a mão para um cumprimento
— Andrew. — ele a cumprimenta
— Por que você está aqui? — a olho
— Porque você está envolvido em mais um crime e isso pode ter ligação com a minha investigação. — me olha de volta
— Você acredita que eu sou inocente, agora?
— Eu não sou paga pra achar ou deixar de achar, Bruce. — respira fundo — Ou você é muito azarado ou muito fingido.
— Bruce! — ouço Rebecca me chamar e a vejo sair da ambulância, vindo em nossa direção — Ela apagou.
— Os calmantes demoraram a fazer efeito. — Jones comenta
— Precisei aplicar direto na veia. — explica — Vou me juntar à equipe e avaliar o estrago. Tem certeza que só encontraram um corpo?
— Absoluta. — Andrew confirma — Temos aqui um caso de desaparecimento.
— Mais um. — Hastings corrige
— Bruce, leve sua irmã e Kayla pra casa. — Jones me olha — Não há nada que vocês possam fazer por aqui. Os bombeiros vão terminar de trabalhar, os peritos vão entrar em ação. Eu já conversei com a sua irmã, já tomei o depoimento dela.
— Ela te mostrou o aparelho da Kayla? — pergunto
— Eu já recolhi o aparelho, devolvo amanhã, depois da técnica vasculhar tudo. — me olha — Você conhece o protocolo.
— O menino. — digo — O que eu faço agora?
— Nós vamos emitir um alerta, já tenho uma foto do Jakob. Confie em mim, Bruce. Só, por favor, cuide da Kayla agora.
Meu celular vibrou e eu franzi o cenho ao pegá-lo e ver que era mais uma mensagem de um número desconhecido.
EU SEM VOCÊ, ELA SEM O FILHO
OLHO POR OLHO
***
— Você já se imaginou mãe? — pergunto
Sinto Elizabeth se retesar em meus braços.
— Nunca. — responde e suspira — E você, já se imaginou pai?
— Várias vezes. — me permito sorrir — Poder ser diferente, poder dar todo o amor que minha mãe me ensinou. Nem me importa se for menino ou menina, eu só quero um ser humano pra cuidar.
Ficamos em silêncio por um tempo, Elizabeth parece pensar.
Eu sempre quis ter um filho.
— Cuida de mim. — ela murmura
***
O alerta foi emitido há dois dias, porém Jakob não foi visto em lugar nenhum. Eu estou ficando sem desculpas para usar com Jones. Como dizer a ela que eu acho — tenho certeza — que Elizabeth está por trás disso?
Quem mais teria motivos para nos querer m*l?
— Alguma identificação vinda do departamento de trânsito?
— Nenhuma.
— p***a, Andrew! — resmungo — Jakob sumiu, não é possível que nem ele tenha passado pelo pedágio.
— Isso é bom. Se não passou, quer dizer que ele ainda está na cidade.
— Então por que a gente não o encontra?
— Você não acha que tá na hora de abrir o jogo? — Andrew me encara — A Hastings tá enchendo o saco da Jones.
— Ela me odeia. — bufo — Até hoje sente raiva por não ter conseguido provas o suficiente pra me prender.
— Se você não abrir o jogo, a coisa pode virar contra você de novo.
— E colocar a culpa na minha esposa desaparecida e aparentemente morta é a sua forma de me proteger? — franzo o cenho — Vão me taxar de maluco e dissimulado.
— Bom, você precisa dar um jeito de tirar o seu da reta.
— Eu não estou nem um pouco preocupado comigo. — o olho — Minha preocupação é a Kayla que não come e nem consegue dormir.
— Eu entendo, mas se você for preso injustamente, quem é que vai cuidar dela? — rebate — Ela acabou de perder a mãe, quase morreu e está com o filho desaparecido. A gente precisa encontrar a vaca da sua mulher.
Andrew nunca desconfiou de mim.
No começo, eu achava que era uma estratégia para se aproximar e me encher de perguntas, para depois vender as informações pra algum tablóide, mas não. Andrew e Rebecca se mostraram leais e prestativos.
Isso me lembra o que dona Elena me disse, antes desse caos todo começar. Dessa vez, eu não estou sozinho.
Meu celular vibra e eu suspiro ao notar ser um número desconhecido. Andrew se põe em alerta, ao meu lado.
VOCÊ CONTINUA TÃO BONITO QUANTO EU ME LEMBRAVA
Uma foto minha ao lado de Andrew, os dois de costas, segue a mensagem. Eu franzo o cenho.
— Ela está aqui. — olho em nossa volta
— m***a! — Andrew se levanta — Estamos sendo vigiados.
Elizabeth não tem limites.
Quando isso vai acabar?