CAPÍTULO 05 - VERDADE EXPOSTA

3141 Palavras
BRUCE CARTER Segurando minha caneca de café, me encostei ao batente da porta, enquanto observava Kayla dormindo abraçada ao travesseiro que eu dormi. O relógio dizia que eu tinha uma hora pra chegar na delegacia, mas eu esperaria o tempo que for para vê-la acordar e manter minha palavra. Ela me veria quando acordasse. Imagino que esteja cansada por trabalhar e por passar a noite ao meu lado. Ela parece sentir minha falta, já que se mexe e franze o cenho ao não sentir nada parar seu corpo, na cama. Seus olhos se abrem e ela fica um tempo encarando o espaço vazio ao seu lado. — Bom dia? — ergo uma sobrancelha Ela me procura pelo quarto e sorri quando me vê parado na porta.  — É, bom dia. — põe a cabeça no travesseiro, me observando — Estava pronta pra te xingar. — Foi m*l, é que depois de um certo horário, eu não consigo ficar na cama. Caminho até ela, me sentando na beira da cama. — Espero que não se importe, mas fiz café. — Tudo bem. — se senta, usando o lençol para cobrir sua nudez — Preciso estar na delegacia em uma hora. — Eu posso te deixar lá, já que deixou seu carro na Olympus. — pega a caneca da minha mão, bebendo um gole — Uau, que café forte. — Mania de policial, eu acho. — dou de ombros — Então você será minha motorista hoje? Vou fazer sucesso na delegacia. — Imagino. — é a vez dela balançar os ombros — Pouquíssimos têm a sorte de ter uma motorista tão gostosa como eu. — Eu não posso discordar. — me permito rir, me inclinando na direção dela — Eu mereço um beijo de bom dia? — Vou pensar no seu caso. — põe a caneca na mesinha de cabeceira — Pensar? — franzo o cenho — Eu fui um rapaz tão bonzinho. — Foi? — ela ri e ajoelha na cama, segurando meu rosto com ambas as mãos — Não me recordo. — Então talvez eu deva lembrá-la. — puxo o lençol, vendo-a totalmente nua — Pensei que tivesse que estar no trabalho em uma hora. — franze o cenho — Eles podem esperar. — sorri e a beijei *** Depois de quase cair na lábia de Kayla e ficar com ela no carro, desci do veículo e entrei no distrito policial, recebendo alguns olhares dos oficiais de plantão. Cumprimento alguns e subo para o segundo andar, onde Andrew está sorrindo ao receber fofoca do oficial que estava na porta quando cheguei. — Dispensado. — Stone dispensa o oficial ao me olhar — Ouvi falar que chegou de carona com uma gata. Não sabia que motoristas de aplicativos eram tão bonitos. — Ela não é motorista de aplicativo. — digo chegando em minha mesa, checando o bloco de recados — É particular. — Não é aquela dançarina da Olympus Club que você está obcecado, é? — O que? — franzo o cenho, tirando os olhos do bloco de recados — Eu não sou obcecado. — o olho — É sim. — ele ri — Becca disse que você faltou pouco devorá-la, na época do homicídio de Louise Hernandez. Que seu olhar te entregou. — Sua esposa não tem mais o que fazer do que ficar me observando? Isso não te causa ciúmes? — Não, eu sei que ela me ama. — dá de ombros — E eu também sei que sou melhor que você. — Ha, ha, ha! — ri sem humor, sentindo meu celular vibrar em meu bolso — É a mais pura verdade, horas. — ele ri e o telefone em sua mesa toca — Distrito Policial de Heaven’s Gate, detetive Stone falando. — atende Na tela do meu celular, vejo que a ligação se trata de um número restrito. — Carter. — atendo Não ouço nada do outro lado. É um completo silêncio. — Carter! — digo mais alto, franzindo o cenho Ninguém responde. Desligo a ligação e guardo o celular no bolso, jogando meu bloco de recados em cima da mesa. Stone desliga a ligação se levantando, bem na hora em que estou me preparando para me sentar. — Nem sente. — diz vestindo o blazer — Tentativa de feminicídio no leste. A vítima está no hospital, passando por uma cirurgia. O cara explodiu a cozinha, o que quase decepou o braço da mulher. — Eu preciso de um café. — faço careta — O que se passa na cabeça desses caras? A vítima tem vinte e quatro anos e acredita que o ex-marido tenha sabotado o gás de sua casa, causando a explosão. Ela conheceu um rapaz, eles se separaram, mas parece que não foi tão amigável assim. Procuramos o cara, mas ele virou fumaça. Agora precisamos investigar e dar um jeito de achá-lo. — Se o casamento está indo m*l, por que é tão difícil assim simplesmente deixar ir? — murmuro tentando traçar uma rota de fuga para o suspeito — Me diz você. — Stone me olha — Por que você e sua mulher não se separaram antes dela sumir? — Eu estou na berlinda agora? — o olho — Pensei que nosso suspeito fosse Roman Janks. — E é. — ele dá de ombros — Eu só queria trocar uma ideia. Tentar entender. — Eu não me separei antes porque era i****a e achava que as coisas mudariam. — respondo — Depois, foi por falta de coragem. — Tá aí a resposta pra sua própria pergunta. — me olha — Nem tudo é tão simples assim. — É, mas eu não explodi a cozinha de ninguém. — Só sumiu com a esposa. Ok, brincadeira tem hora. — Vamos esquecer esse assunto? — sinto meus ombros tensos — Ei, eu fui verdadeiro quando disse que te acho inocente. — Então vamos combinar uma coisa? — acerto a postura, o olhando — Esquece isso. Não quero comentários, brincadeiras ou insinuações. Vamos focar no caso. — Foi m*l, cara. — ele parece sem jeito — Não queria te deixar m*l. Franzo o cenho lendo a ficha do cara. Uma medida protetiva contra ele, expedida pela ex-namorada, um furto quando adolescente. Das duas vezes em que ele foi procurado, ele foi para um apartamento perto da estrada que sai da cidade, no nome de um amigo de infância. Os crimes nesta cidade nem tem graça. — Já sei onde o cara tá. — digo fazendo Stone me olhar — Você é esperto mesmo, Carter. — debocha — Essa cidade é que tem uns crimes ridículos. KAYLA WILLIAMS Senti o ligamento do meu joelho protestar, quando abri um espacate no chão. Eu bem que tentei levantar e seguir com a coreografia, mas não consegui, o que fez com que Sally pausasse a música e Khloé olhasse desconfiada para o palco. Ela estava sentada em uma das mesas em frente ao palco, verificando as notas fiscais das bebidas que chegaram hoje. — Precisa ir devagar, Kayla. — Lucy diz me ajudando a levantar — Desse jeito, não vai conseguir dançar pra sempre. — Eu m*l consigo dançar hoje. — resmungo — Valeu. — agradeço quando ela me alcança minha garrafa d’água — Problemas com o joelho, Kayla? — ouço Khloé perguntar — Faz tempo que ele não dá sinais. — Eu tenho trinta e dois, Khlo. — respondo — Ele pode não dar sinais, mas eu sei que ele não é mais o mesmo. — Eu posso ser a principal, sem problema nenhum. — Camila diz com sua voz aguda e estridente — Vou adorar cantar pro público. Já tenho até uma playlist com algumas… — Camila, fica quieta, pelo amor de Deus. — Khloé franze o cenho — Você dispara feito uma metralhadora. Kayla, você conhece a coreografia, foi você mesmo quem a fez. Por que não descansa esse joelho? E pensa em um passo mais tranquilo pra você fazer, no lugar desse espacate. — Vou pensar. — digo ao descer do palco e me sentar ao seu lado — Camila, volta pro bar que tá cheio de bebida pra você arrumar nos freezers. — Khloé manda — E vê se arruma direito, porque estava uma bagunça. — Quem ficou no bar ontem foi a Kayla. — ela retruca — Kayla ficou servindo destilados, nem chegou perto do freezer. Camila resmunga e marcha para o bar. Eu estico minha perna direita por cima de uma cadeira vazia e observo as meninas voltarem a dançar, quando Sally põe a música de volta. — Aquela empresária é super a fim de você. — Khloé comenta checando as notas fiscais — Disse que viria hoje pra te ver. — Ela sempre vem. — ri — Gosto de ouvi-la desabafar sobre seus problemas com a administração das empresas dela. Me faz pensar nos planos que eu fazia quando estava na faculdade. Agora eu tenho um diploma empoeirado na gaveta do meu armário. — Ontem ela disse que estava saindo mais cedo porque um cara chegou e você estava dando ideia pra ele. — me olha — Quem é o sortudo que roubou a atenção da nossa querida Kayla-Só-Performo? — Eu só performo mesmo, tá? — ri fraco — Não saio com clientes. — Mas eu te vi colocando um brutamontes no seu carro ontem. — Estava me espiando? — Bom, um carro passou a noite inteira no estacionamento do meu clube. — me encara — E eu estava na janela, quando vi a cena. — Ele não é um cliente. — Tá namorando? — franze o cenho — Olha lá, hein, Kayla?! Veja o exemplo de Louise. Namorar, no ramo de vocês, só traz problemas. — Obrigada pelo mau agouro, mas eu estou muito bem. — a encaro — E eu sei me cuidar. — Espero que saiba mesmo. — estreita os olhos na minha direção — Seria h******l perder minha estrela pra um maluco problemático. *** Enquanto Lucy terminava minha maquiagem, eu sentia o gelo derreter, sob meu joelho. Eu tinha uma apresentação para essa noite, mas Bruce não poderia vir. Segundo sua mensagem de texto, ele estava no encalço de um cara que tentou m***r a ex-companheira. Espero que ele pegue esse cara e consiga sair dessa sem se machucar. — Parece que já temos presentes para nossa estrela maior. — Camila diz entrando no camarim, carregando uma caixinha pequena de veludo — Quem enviou isso? — a olho — Eu não sei. — dá de ombros — Khloé mandou te entregar, disse que um cliente mandou. — Hum. — resmungo Pego a caixa nas mãos e a abro, vendo um cartão de memória ali dentro. Lucy resmunga algo sobre fotos íntimas de algum velho t****o e até solto uma risada, fechando a caixinha e a guardando na bolsa. Depois de pronta, me livro da bolsinha de gelo e tomo um anti-inflamatório, sentindo a dor se dissipar alguns minutos depois. Minha performance da música Dirty Diana, de Michael Jackson, foi aplaudida de pé, rendendo muitas gorjetas para Sally, Lucy e eu. No fim da apresentação, volto para o camarim, onde visto um vestido por cima da lingerie e pego minha bolsa após me livrar dos saltos e calçar tênis rasteiros. O remédio já está perdendo seu efeito e meu joelho está voltando a doer. No escritório de Khloé, Camila está reclamando de alguma coisa, quando entro após duas batidas na porta, mas não me interesso em saber. — Ei, Khlo, eu posso ir? — pergunto parada na porta, fazendo careta — Já? — Camila franze o cenho — Não tem nem duas horas que a boate abriu. — Eu te promovi a gerente e não tô sabendo, dona Camila? — Khloé a olha f**o, fazendo-a se calar e depois me olha, suavizando as expressões faciais — O joelho ainda está podre? — Totalmente. — bufo — Tava pensando em ficar de repouso e, segunda, dar uma passada no centro médico. O que você acha? — Acho ótimo. — concorda — Você precisa que esse joelho te mantenha em pé, para a Olympus se manter de pé. Vai pra casa e descansa. — Valeu. — agradeço — Mas é descansar, ouviu bem? — me encara — E não passar a noite tendo o*****o múltiplo com aquele seu amigo que parece mais um armário. — Que horror, Khloé. — ri — Aliás, quem deixou aquele presente pra mim? — Não sei, recebi na caixa postal do clube. — dá de ombros — O que era? — Um cartão de memória. — respondo — Espero que não seja pornô de um velho obeso. — Se for, me mostra. — ela ri — Vou adorar expor isso. Quando chego em casa, me jogo no sofá e estico a perna por cima da mesinha de centro, ligando a televisão em um canal de notícias locais. Puxo meu laptop e ligo o mesmo, vendo uma foto minha com minha mãe e Jakob na reserva. Na bolsa, pego o cartão de memória que eu recebi e o coloco no computador, com a ajuda de um adaptador. Quando abro o arquivo, tomo um susto. A primeira foto é da manchete de um jornal de Dawsonville, que tem a foto de um cartaz de desaparecido, com uma mulher ruiva estampada. PROFESSORA DE LITERATURA DESAPARECE NA PRÓPRIA CASA. POLÍCIA INVESTIGA O CASO Franzo o cenho e leio a matéria, descobrindo que Elizabeth Carter é uma professora da Southern Catholic College, também em Dawsonville, que desapareceu em casa, há um ano. Segundo a reportagem, o marido dela não passou a noite em casa, mas ao voltar pela manhã, encontrou a sala revirada e sangue no local. A mulher sumiu. Passo para a próxima imagem e arregalo os olhos ao reconhecer Bruce na manchete de outro jornal. MARIDO DE ELIZABETH CARTER VIRA PRINCIPAL SUSPEITO EM INVESTIGAÇÃO Mais uma vez, segundo a reportagem, a polícia decidiu seguir outra linha de investigação, após conversar com vizinhos e obterem relatos de constantes brigas, ameaças e gritaria. Após Bruce se enrolar com explicações, ele virou o principal suspeito do desaparecimento da esposa. Na imagem seguinte, uma foto de Bruce algemado e uma mulher reconhecida como sua irmã ao seu lado, junto de um advogado. DETETIVE BRUCE CARTER É APREENDIDO PARA PRESTAR ESCLARECIMENTOS SOBRE O DESAPARECIMENTO DA ESPOSA. POLÍCIA SUGERE TOMAR A INVESTIGAÇÃO COMO HOMICÍDIO A quantidade de sangue encontrada na casa do casal, segundo os peritos, torna pouquíssimo provável que Elizabeth ainda esteja viva. Depois de uma noite inteira de interrogatório, Bruce admitiu que passou a noite na companhia de duas mulheres na noite em que a esposa desapareceu e jurou que não tem nada a ver com o crime. Não há mais nenhuma manchete de jornal, mas eu confesso que não precisava ler mais. Deixando o computador de lado, enquanto meus olhos não acreditavam no que viam, atendi o celular que tocou, sem ao menos ver quem era. — Alô? — minha voz saiu num fiapo — Aposto que não adivinha onde é que eu estou. — reconheci a voz grave de Bruce e meu coração acelerou — Eu li a mensagem que me mandou, há meia hora. Terminei o trabalho e estou na porta do seu prédio. Já chegou? O que eu digo agora? Eu quero respostas, mas uma parte de mim está me condenando por confiar em um homem que m*l conheço. Devo deixá-lo entrar? — Querida? — ele me chama após eu ficar em silêncio, com meus conflitos internos — Ainda está aí? — E-eu… — suspiro, sentindo um nó na minha garganta — Trouxe um creme anti-inflamatório que minha irmã sugeriu, para o seu joelho. — Pode subir, Bruce. Desligo a ligação e deixo o computador aberto em cima da mesinha de centro e me levanto ao ouvir o barulho dos passos pesados de Bruce no corredor do prédio. Abro a porta e caminho até a janela, observando a rua vazia. São quase meia noite e não há ninguém na rua. — Martha disse que esse creme vai ajudar com as dores, mas Susan disse que é melhor ir ao médico. — ouço a voz de Bruce e a porta se fechar, enquanto ele entra no apartamento — Elas querem conhecer você, mas eu não quero apressar as coisas. — Imagino que prefira manter algumas coisas no sigilo. — deixo escapar ao sentir as lágrimas banhando meu rosto — O que? — pergunta distraído — Vou colocar o distintivo e a arma na gaveta que você colocou ontem, ok? Espero que não se importe. — Nem precisa desacoplar, Bruce. — me viro e ele arregala os olhos ao me ver — Por que está chorando? — pergunta preocupado — Aconteceu alguma coisa com Jake? — Você é um homem casado, Bruce. — franzo o cenho, tentando impedir mais lágrimas — Oh, Kayla. — ele parece surpreso — E com uma mulher supostamente morta por você. — E-eu posso explicar. — Explicar o que? — faço careta, passando a mão no rosto — Na pior das hipóteses, você é um assassino dissimulado e, na melhor, é um homem que não se importa com ninguém além de si mesmo. — Isso não é verdade. — contesta — Não? — arregalo os olhos, ainda chorando — A sua mulher some, largando uma sangria para trás e você está aqui, transando comigo, sem nem mencioná-la. Como você descreve isso? — p***a, não é assim que as coisas funcionam. — insiste — Elizabeth é maluca! — Todos os caras com quem eu me envolvi chamavam suas ex de malucas. Não precisei conviver muito pra notar que os malucos eram eles. — Eu não tenho culpa de você ter feito escolhas ruins na vida e nem vou te julgar por isso, porque eu também fiz as minhas. — diz me encarando — Elizabeth foi uma delas. — Você quer mesmo que eu acredite que não teve nada com isso? — E por que não acreditaria? — franze o cenho — Já foi provado que não há provas concretas contra mim. — Desculpa, Bruce. — n**o com a cabeça — Eu não tenho tempo pra jogos, já te disse isso. — Não há jogo nenhum aqui, Kayla. — dá um passo em minha direção — Só eu e você. — Não. — dou um passo para trás, mantendo nossa distância — Vai embora, Bruce. Tô sem tempo pra jogos de esposa desaparecida e crush suspeito de assassinato. — Não pode estar falando sério. — me encara incrédulo — Você nem me deixou falar. — Vai embora! — elevo o tom de voz Bruce me encara, parece desapontado. — Quando você analisar toda a situação e perceber que eu mereço uma chance, me liga. — Adeus, Bruce. Em silêncio, observo Bruce sair do apartamento e me deixar sozinha com um creme anti-inflamatório. Droga! Eu estou completamente apaixonada por esse cara.
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