Clara
Acordei sobressaltada com o toque insistente do celular ao meu lado. Meus olhos estavam pesados, e minha mente demorou alguns segundos para entender onde estava. O quarto ainda tinha o cheiro aconchegante dos lençóis limpos de Helena, e eu adoro esse cheiro. Me faz lembrar meus melhores momentos.
Peguei o celular com os olhos semicerrados e vi o nome de Amélia brilhando na tela. Meu coração acelerou. Por que ela me ligaria tão cedo? Enfim... eu não posso perder essa oportunidade incrível de ouví-la.
— Alô? — Atendi com a voz sonolenta, sentindo um arrepio percorrer meu corpo. Eu precisei respirar fundo para não perder o controle da coisa.
— Clara? — A voz dela soou surpresa, quase como se não esperasse que eu atendesse. — Eu... bom dia. Espero que não esteja incomodando.
— O que você quer, Amélia? — suspirei, tentando controlar a irritação que começava a subir. — E você sempre está me incomodando.
— Eu queria falar sobre Jason. Sobre o que aconteceu ontem. Eu não sou nenhuma i****a, Clara. E eu já te avisei.
Minha respiração falhou por um segundo. Eu me sentei na cama, sentindo o estômago se revirar. Eu não tenho medo dela, mas não quero arranjar confusão, não agora. Porém, ela afora chamar atenção e a minha parece ser especial para ela.
— Eu não sei do que você está falando. Mas, acredito que possa perguntar isso diretamente ao seu noivo, já que vocês convivem juntos.
Ela soltou uma risada curta e cheia de ódio.
— Ah, Clara... Você acha que eu não percebi? Que eu não vi os olhares, o clima? Eu sei que tem algo entre vocês. Mas eu também sei que Jason não está pronto para largar tudo. Não enquanto você estiver no meu caminho.
Engoli em seco, sentindo meu peito apertar.
— E o que exatamente você quer de mim? Ou melhor, o que quer que eu faça? Se toca, Amélia. Eh não tenho culpa se a sua consciência está sempre pesada desse jeito, mas lamento dizer que não tenho nada haver com seu relacionamento.
— Quero que você me diga se vale a pena. Se você acha que Jason vai escolher você no final.
Fechei os olhos, sentindo um nó se formar na minha garganta. Eu não sabia. Não sabia porque Jason nunca me dera nenhuma certeza.
— Isso é algo que só ele pode responder. Mas quer saber? Isso já não me importa mais, ele já não mais me interessa.
Amélia fez uma pausa e então soltou um suspiro cansado, como se estivesse apelando por uma resposta, mesmo já sabendo de tudo.
— Só quero que saiba que estou disposta a lutar por ele. Eu o amo. E sei que ele ainda me ama também.
A ligação foi encerrada antes que eu pudesse responder. Fiquei ali, segurando o celular contra o peito, sentindo meu coração calmo, até porque não vale a pena o estresse por tão pouco.
Respirei fundo, me levantando da cama. Precisava me recompor. Precisava seguir minha vida. Mas antes que pudesse pensar em qualquer coisa, meu celular vibrou novamente.
Dessa vez, não era Amélia. Era um advogado.
“Bom dia, senhorita Clara. Preciso discutir com você a questão da herança de seus pais e a casa onde você morava. Podemos marcar um encontro ainda hoje?”
Meu coração disparou. A herança. A casa. Algo que eu tinha enterrado junto com a dor de perder minha família. Agora tudo voltava à tona como um furacão.
Talvez esse fosse o universo me dizendo para parar de me prender ao passado.
Talvez estivesse na hora de finalmente enfrentar a realidade.
Jason
O som insistente do celular me arrancou do sono. Me virei na cama, tateando o aparelho até encontrar a tela brilhante. O nome de Amélia piscava.
Fechei os olhos por um segundo, sentindo um peso sobre meu peito. Não queria falar com ela. Não agora.
Mas eu atendi, não tinha outra opção.
— Jason? — A voz dela era doce, mas carregava uma ponta de tensão. — Tem um minuto?
— O que foi, Amélia? — Eu já não a suporto mais, é terrível conviver com alguém tão i****a como ela.
— Quero saber onde você estava ontem à noite. Eu sei que não estava na casa da sua mãe. Eu fui até lá.
Meu corpo enrijeceu.
— Fui dar uma volta, por que, algum problema?
— Não minta para mim. Você estava com Clara, não estava?
Fiquei em silêncio por um momento. Eu não podia mentir, mas também não podia dizer a verdade.
— Não, eu não estava com a Clara, Amélia. Será Será dá pra parar com essa obsessão na Clara?
— Porque eu preciso saber se estou noiva de um homem que ainda ama outra mulher.
Fechei os olhos, sentindo o nó apertar ainda mais em minha garganta.
— Amélia... Eu não posso ter essa conversa agora. Mas, eu e Clara nunca tivemos nada e você sabe disso.
— Quando, então? Quando for tarde demais? Aliás, quando você vai voltar a me dar valor e a sairmos juntos?
Ela desligou antes que eu pudesse responder.
Soltei um palavrão, passando as mãos pelo rosto. Meu peito estava apertado, minha mente uma bagunça.
Eu precisava resolver isso. Precisava decidir de uma vez por todas o que fazer com Clara, com Amélia, comigo mesmo.
Mas antes que pudesse tomar qualquer decisão, recebi uma mensagem de minha mãe.
"Clara está prestes a enfrentar um dos dias mais difíceis da vida dela. A questão da casa e da herança... Se você ainda se importa, faça algo."
Droga.
Eu sabia que precisava ficar longe. Que não podia bagunçar ainda mais sua vida.
Mas então por que diabos eu já estava pegando minhas chaves e saindo de casa?
Clara
A manhã seguinte chegou carregada de um peso que eu não conseguia afastar. O abraço de Helena na noite passada tinha sido reconfortante, mas não suficiente para dissipar a confusão dentro de mim. Eu queria acreditar que Jason era apenas um erro momentâneo, fruto de uma carência boba, mas cada vez que fechava os olhos, tudo voltava: os toques, os olhares, o jeito como ele me beijou como se eu fosse algo que ele não queria, mas ao mesmo tempo não conseguia evitar.
Suspirei e me arrumei para o dia, tentando ocupar minha mente com qualquer outra coisa. Mas, claro, o universo não ia facilitar. Quando desci para o café, Helena já estava na cozinha, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, meu celular vibrou.
Jason: “Podemos conversar? Por favor, Clara."
Meu coração disparou.
Ignorei a mensagem e fingi que nada estava acontecendo. Mas Helena, com seu olhar sempre atento, percebeu a mudança em minha expressão.
— Ele falou com você, não foi? — sua voz saiu calma, mas com aquele tom de quem já sabia a resposta.
Coloquei o celular de lado e fingi desinteresse.
— Ele só mandou uma mensagem. Mas não faz diferença, madrinha. Ele está noivo e a senhora vai ter uma nora, espero que a senhora também entenda isso e não fale mais sobre isso comigo.
— E você vai ignorá-lo? — Sim, ela sempre vai ignorar o que eu falar.
— Vou. — Respondi com firmeza, como se tentasse me convencer disso também. — Ele já fez sua escolha e eu não quero falar sobre isso. Eu também preciso viver, não é mesmo?
Helena não disse mais nada, mas aquele olhar compreensivo foi pior do que qualquer sermão.
— Vocês precisam conversar e eu não vou repetir isso. São adultos e cresceram juntos, eu não criei dois desconhecidos.
Passei o dia tentando me distrair. Peguei o carro e fui dar uma volta, mas parecia que cada esquina daquela cidade tinha uma memória ligada a Jason. Tentei pensar racionalmente: ele estava noivo. Ele tinha feito sua escolha. Ele me deixou na cama sozinha. O que mais eu precisava para entender?
Mas então, no meio da tarde, o destino resolveu me pregar outra peça. Quando estacionei em frente a uma cafeteria, pronta para entrar e me afogar em cafeína, vi Jason parado do outro lado da rua.
Sozinho.
Olhando para mim.
Eu poderia ter ignorado. Poderia ter entrado na cafeteria e fingido que não o vi. Mas ao invés disso, fiquei ali, encarando-o. Havia algo no olhar dele...
Ele atravessou a rua.
Cada passo que ele dava em minha direção fazia meu coração bater mais forte. Eu queria fugir, mas minhas pernas pareciam presas ao chão. E eu estava ouvindo os conselhos da minha madrinha.
— Clara...
Minha respiração ficou presa na garganta ao ouvir sua voz rouca. Ele parecia cansado, como se não tivesse dormido direito. Mas então eu virei de frente e resolvi encará-lo.
— O que você quer, Jason? — Minha voz saiu firme, mas meus dedos estavam tremendo. — Espero que seja rápido.
Ele passou a mão pelos cabelos, claramente frustrado.
— Eu preciso conversar com você. Eu juro que não vou demorar
— Sobre o quê? Como foi t*****r comigo e depois me deixar sem nem uma palavra? Ou como você já voltou para a sua noiva como se nada tivesse acontecido? — Cruzei os braços, tentando me proteger da tempestade dentro de mim. — Ou melhor; por que você sabe que eu sou muito i****a?
Jason fechou os olhos por um segundo, como se minhas palavras tivessem sido um soco no estômago.
— Não é assim tão simples...
— Não? Porque pra mim parece bem simples. Você tem uma noiva. Eu sou só um erro. Fim da história.
Ele deu um passo mais perto, e eu me obriguei a não recuar.
— Clara, você não é um erro. — Sua voz saiu mais baixa, carregada de algo que eu não queria interpretar.
— Então por que me deixou? — E o silêncio se instaurou. — Sabe de uma coisa? Eu estou tão cansada, Jason...
Ele me olhou como se tentasse encontrar a resposta certa, mas não havia nenhuma que pudesse consertar o que ele já havia quebrado.
— Eu não podia ficar. É algo complicado, mas eu posso garantir a você que vou dar um jeito.
— Porque você tem outra mulher, só você está se negando isso para si mesmo. E não, você não vai dar um jeito porque você nunca me viu. Eu sempre fui invisível aos seus olhos e bastou ficar noivo para me notar.
— Porque eu não sabia como lidar com o que sinto por você.
O choque me atingiu antes que eu pudesse me preparar. Jason parecia tão frustrado quanto eu, como se as palavras tivessem escapado antes que ele pudesse segurá-las.
— Você está brincando comigo agora? — Minha voz saiu mais baixa, quase um sussurro.
Ele soltou um suspiro, passando as mãos pelo rosto.
— Eu não estou lidando bem com nada disso, Clara. Eu... estou tentando fazer a coisa certa.
— E a coisa certa é casar com alguém que você não ama enquanto finge que nada aconteceu entre nós?
Ele abaixou a cabeça, e a resposta não veio.
— Foi o que eu pensei. — Dei um passo para trás. — Você pode não saber o que quer, Jason. Mas eu sei que não mereço ser o seu passatempo.
Ele me olhou como se quisesse dizer algo, mas eu já tinha virado as costas e entrado na cafeteria.
Eu não ia ser o erro dele.
Eu não ia ser a mulher que ele usava para preencher um vazio e depois descartava quando fosse conveniente.
Se ele quisesse me ter, teria que fazer muito mais do que simplesmente dizer que estava confuso.
Jason
Fiquei ali parado, olhando para a porta da cafeteria como um i****a.
Eu tinha estragado tudo.
De novo.
Mas, droga, como eu poderia consertar isso se nem eu mesmo sabia como me sentir?
Clara estava certa. Eu estava preso em uma situação onde, independentemente da minha escolha, alguém sairia machucado. Mas continuar do jeito que estava só estava destruindo a mim mesmo.
Minha mãe tinha razão. Eu precisava resolver minha vida antes de envolver Clara nisso.
Respirei fundo e olhei para o céu nublado.
Eu só esperava que, quando eu finalmente estivesse pronto para fazer as coisas direito... não fosse tarde demais. Mas como? Como eu posso me livrar da culpa pela morte do meu amigo? Eu tenho que encontrar um jeito de esclarecer toda essa merda e fazê-la minha.