Clara
Acordei sozinha, com a luz suave da manhã filtrando pelas cortinas. A cama ao meu lado estava vazia, e uma sensação de vazio se instalou no meu peito. Fiquei ali por um momento, imóvel, tentando processar a noite anterior. As lembranças estavam confusas, entrelaçadas com os flashes do beijo, os toques, a sensação de estar em algo muito mais profundo do que eu poderia entender. Mas, a sensação que eu fiz errado também estava me consumindo e eu não que não é certo.
Jason. Ele havia me deixado antes que eu acordasse, sem uma palavra de despedida, sem qualquer explicação. Talvez fosse o melhor, pensei. Nada entre nós dois fazia sentido, mas havia algo em meu coração que me dizia que ainda precisávamos lidar com tudo o que acontecera.
Ainda em choque com a reviravolta dos últimos dias, me levantei e tentei me arrumar para o que o dia me traria. Não demorou muito para que meu celular vibrasse na mesa de cabeceira. Era uma mensagem de minha madrinha.
"Clara, querida, após o bingo de quinta-feira, gostaria de te convidar para um jantar em minha casa. Tenho algo importante para conversar com você. Será que podemos nos encontrar? Um abraço da sua madrinha."
Suspirei, hesitante. O convite parecia genuíno, mas o que seria tão importante assim? E, mais uma vez, o que isso significava para mim? Eu precisava de respostas, mas ao mesmo tempo, algo me dizia que deveria ir. Talvez fosse uma distração. Algo para ajudar a tirar minha mente de tudo o que estava acontecendo.
Mais tarde, cheguei ao bingo, tentando não parecer tão dispersa quanto me sentia. Quando o evento finalmente acabou, o convite de Helena para o jantar foi seguido por uma surpresa que me deixou sem palavras.
Jason e Amélia estavam lá. Eles entraram juntos, como se não houvesse nenhum segredo ou tensão entre eles. Eles pareciam tão... normais. Mas eu sabia o que estava acontecendo. Sabia o que estava se passando entre Jason e eu, e o que ele estava tentando esconder. Porém, meu peito doeu ao ver aquilo e mesmo sem demonstrar, Amélia estava se sentindo vitoriosa por ter conseguido o que eu queria em tampouco tempo.
Helena, sem saber de nada, olhou para mim com um sorriso amigável e logo me puxou de lado, sussurrando:
— Você e Jason têm algo, não têm? Percebi a maneira como ele olhou para você ontem. Está tudo bem, Clara. Você pode confiar em mim. Eu sou sua amiga e quero que confie em mim.
Fiquei sem palavras. Como ela poderia perceber? Mas eu sabia que ela sempre fora perspicaz, mais do que eu gostaria. Ela me deu um abraço apertado e, antes que eu pudesse responder, uma mudança repentina ocorreu.
Amélia, percebendo o desconforto no ambiente, puxou Jason para o lado, e eles começaram a se afastar da mesa de jantar. Sem dizer uma palavra, Jason lançou um olhar furtivo para mim. Algo na maneira como ele me olhou me fez sentir um calafrio na espinha. Eu deveria ter ido embora no momento em que vi os dois juntos, mas minha teimosia insistiu em ver de perto aquela cena ridícula.
Era óbvio. Havia algo ali. Algo entre nós dois que nem ele nem eu podíamos negar, porém, só doía em mim e ele parecia se divertir com isso.
Tentei seguir transparente sem deixar transparecer nenhum tipo de sentimento que estava me incomodando. Jantamos entre risos e conversas desconexas, como se fôssemos uma família unida comemorando alguma notícia boa.
Helena, com sua típica energia acolhedora, me puxou pela mão e acariciou meu cabelos, como ela sempre fez.
— Clara, querida, vamos conversar. Vamos sair daqui e seguir para minha casa. Eu sei que há algo te incomodando. Sei que algo está pesando em seu coração, e eu quero ouvir tudo. — Ela me guiou para o carro, enquanto os sons do ambiente diminuíam, e o silêncio do carro nos envolvia.
No caminho para a casa de Helena, as palavras pareciam não ser suficientes para descrever o que eu estava sentindo. Mas antes que eu pudesse abrir a boca, ela falou de novo:
— Não se preocupe, querida. Sei que você está com o coração pesado. Eu não sei o que aconteceu entre você e Jason, mas não quero que você carregue esse peso sozinha. Vamos conversar e, quem sabe, aliviar um pouco dessa dor. E, antes que minta, saiba que eu não sou boba e que eu te conheço desde que você nasceu.
Eu olhei para ela e, por um breve momento, me senti aliviada. Como se pudesse realmente desabafar. Mas o que eu não sabia era que Helena não fazia ideia do que estava acontecendo entre mim e seu filho, ou talvez saiba!
— Quero que me conte o que está acontecendo com vocês e há quanto tempo vocês estão...?
— Não temos nada, madrinha. E, pra falar a verdade acho que tudo isso é somente coisa da minha cabeça. A carência deve ter tomado conta de mim e me feito de i****a. Até porque, ele nunca me enxergou e já voltou noivo de outra mulher. Acho que estou bem e só preciso de um tempo pra cair na real do que está acontecendo de verdade.
— Eu não vou insistir, mas estaria aqui quando quiser falar sobre isso. Agora vem aqui, me dá um abraço daqueles que você me dava quando estava com medo de algo. — A abracei firme e suspirei fundo, sentindo o nó na garganta se formar e a vontade de chorar tomar conta de mim. — Seu quarto está espetando por você, sempre esteve.
— Obrigada, madrinha. Eu não sei o que seria de mim sem o seu amor.
Jason
A noite foi um turbilhão. Quando fui embora, algo dentro de mim estava incontrolável. O que eu fiz? O que nós fizemos? Aquela noite não deveria ter acontecido. Mas como negar que o toque de Clara, o beijo, os olhares... eles significavam algo mais. Eu só não sabia o que!
Cheguei em casa e não conseguia parar de pensar nela. No que aconteceu. No que não aconteceu. No que estava em jogo. E quando meus pensamentos estavam a mil, minha mãe me procurou.
— Jason, eu sei que algo está te incomodando. E, por favor, não tente me esconder a verdade de mim. Vi como você olhou para Clara hoje mais cedo. O que esta acontecendo entre vocês dois? Não quero mentiras, por favor.
Eu tentei desviar, mas minha mãe já havia visto demais. Ela sempre teve uma visão aguçada.
— Mãe, não é o que você pensa. Não tem nada entre eu e Clara. Eu estou... complicado. E ela também. Eu... não sei o que fazer. — Suspirei fundo sentando a sua frente e passando as mãos pelos cabelos, procurando uma solução.
Ela me olhou de forma compreensiva, mas com um olhar triste.
— Jason, você sempre foi tão honesto comigo. Não esconda de mim agora. Eu sei que algo está acontecendo entre vocês, e você não pode continuar com isso sem resolver. Vá atrás dela. Seja honesto, seja você. Não deixe que a confusão do momento te cegue. Não seja um covarde. Não queria arruinar a vida de duas mulheres que não tem nada haver com seus problemas, seja honesto e seja homem para assumir o que quer e evitar magoar quem te ama de verdade.
— Eu só... há tantas coisas não ditas que eu preciso encontrar uma forma de falar, mas... tudo é muito complicado e eu não sei por onde começar.
— Comece pelo começo. Você sempre soube o que quis, tenho certeza que isso não mudou de uma hora pra outra.
— A senhora acha que eu devo ir conversar com a Clara sobre...
— Não ouse perturbar a Clara enquanto estiver com Amélia. Ela é a única inocente nesse história e não merecer passar por tal constrangimento. Se resolva primeiro com Amélia e então, quando estiver tudo resolvido, você a procura. — Ela não esperou reposta e me olhou por trás antes de sair — Clara está em casa.
Eu fiquei ali, em silêncio, processando as palavras da minha mãe. Eu sabia que ela estava certa, mas minha mente estava dividida. Se eu fosse atrás de Clara, o que diria a ela? Como explicaria tudo o que estava acontecendo sem parecer que estava tentando manipular a situação? Eu sabia que precisava enfrentar isso, mas ainda não estava pronto. Quanto Amélia, não sei ao certo o que farei. As investigações sobre a morte do meu amigo ainda estão sendo feitas e eu não posso conviver com essa culpa, se há de ter um culpado, teremos e esse culpado será eu.
Enquanto me preparava para a noite, uma sensação crescente me tomou: não havia mais como escapar disso. Seja o que for que Clara e eu fôssemos viver, precisávamos resolver juntos. Porque, no final, o que quer que estivéssemos sentindo não poderia ser ignorado por mais tempo.
A pergunta era: o que fazer com isso? A pedra no meu sapato me aperta e deixa um machucado que não cura com remédio e não dá pra colocar curativo.