Capítulo 20 - Íntimos

1198 Palavras
Clara Eu não queria mais pensar. Não queria mais refletir sobre a dor que estava martelando minha mente. Depois que Jason foi embora, meu coração ainda batia acelerado, mas meu corpo estava exausto. Eu sentia que estava à beira de um colapso, sem mais forças para lutar contra a tempestade emocional que me consumia. Então, tomei uma decisão impulsiva. Após encerrar o atendimento na floricultura, peguei meu casaco e fui embora da floricultura, sem rumo certo. As ruas da cidade estavam vazias, e as luzes dos postes iluminavam o caminho solitário à minha frente. Não havia uma razão específica para ir, exceto a necessidade de afastar a angústia que me sufocava. Entrei em um bar, quase sem perceber o lugar onde estava. A música alta e as conversas distantes me cercaram, mas eu só consegui focar no bar. Sentei no banco e pedi uma dose forte, algo que queimasse minha garganta e apagasse os pensamentos que se repetiam em minha mente. O primeiro gole foi amargo, mas eficaz. Uma sensação de alívio, mesmo que temporária. Fiz o mesmo com o segundo, e o terceiro. As conversas ao meu redor se tornaram um murmúrio distante, e a névoa da bebida parecia me envolver, criando uma cortina entre mim e o mundo. Mas, de repente, senti uma presença ao meu lado. O cheiro inconfundível de Jason invadiu minhas narinas antes que eu pudesse sequer olhar para ele. Não é possível, eu faço o possível para me distanciar e pasmem, acabo sempre no mesmo lugar onde ele esteja. — Não acredito que você esteja aqui. — Minha voz estava embargada, o álcool começando a fazer efeito. — Você anda me seguindo, não é? Jason se sentou ao meu lado, sem dizer uma palavra. Ele estava sério, seu olhar fixo na minha expressão desconcertada. Depois de alguns segundos, ele fez o pedido ao bartender, e o copo em sua mão logo se uniu ao meu. — Desde quando você sai e vai beber sozinha em um bar? — Ele falou com suavidade, mas havia algo na sua voz que eu não conseguia identificar. — Pensei que ainda tivesse medo dos perigos noturnos. — Eu só queria esquecer, mesmo que fosse por um segundo. — Respondi, sentindo uma dor crescente no peito. — E o perigo noturno acho que tem pena de mim. Eu tento me afastar, mas onde eu vou você estar. Você não faz companhia a sua noiva não? — Você não pode se esconder disso, Clara. Não pode se esconder de mim. E não, eu não faço companhia a Amélia, tem pessoas que precisam mais de mim do que ela. Suas palavras atravessaram meu peito como uma lâmina afiada. Eu queria dizer algo, talvez um insulto ou uma defesa, mas a bebida estava falando mais alto, e minha mente estava turva. Olhei para ele, tentando encontrar alguma resposta, mas encontrei apenas seu olhar carregado de emoções não ditas. — Você também não pode se esconder de mim, Jason. — Minha voz saiu mais baixa, mais cansada. A tensão entre nós cresceu, mas algo em seu olhar me fez hesitar. Não havia mais como negar a conexão entre nós. Ele não podia simplesmente ir embora. Eu sabia disso, e ele também sabia. O silêncio se arrastou enquanto os segundos passavam, até que finalmente ele se inclinou para perto, seu rosto tão próximo ao meu que senti sua respiração quente em meu rosto. — Clara... — Ele sussurrou, como se estivesse se preparando para dizer algo importante, mas eu o interrompi, beijando-o. Ignorei tudo e todos ao redor e querem saber? Eu não me arrependi. O beijo veio como uma necessidade, uma forma de liberar a pressão acumulada entre nós dois. Seus lábios eram famintos, exigindo mais, e eu não resisti. O calor que se espalhou em meu corpo me fez esquecer tudo, até mesmo de onde estávamos. Quando nos separávamos, ambos ofegantes, ele me olhou nos olhos e, sem uma palavra, me puxou para fora do bar. Não disse nada durante o caminho até o seu carro, mas o clima entre nós estava carregado de uma tensão incontrolável. Quando chegamos à minha casa, ele me olhou uma última vez, seu olhar, agora, vulnerável. — Você quer entrar? — Eu perguntei, a voz embargada e baixa, segurando meu casaco e o encarando. Ele hesitou por um instante, mas, sem responder, entrou. Dentro da minha casa, tudo parecia diferente. Eu parecia diferente. Ele parecia diferente. As palavras se esgotaram, e as ações tomaram seu lugar. Cada movimento entre nós dois estava carregado de significado, mas também de uma urgência desesperada. Aquele beijo, o modo como ele me tocou, a maneira como ele olhou para mim... tudo parecia um grito silencioso para que fizéssemos o que sempre evitamos. No entanto, não havia mais como negar o desejo. Não havia mais como ignorar o quanto estávamos perdidos um no outro. Em um gesto impulsivo, Jason me puxou para mais perto e me beijou novamente, com mais força desta vez, como se estivesse dizendo tudo o que suas palavras não conseguiam expressar. Suas mãos avisaram meu corpo, causando-me arrepios frenéticos que me faziam ficar entre o delírio e a realidade do momento. Sua barba roçando em meu pescoço me deixava ainda mais excitada e sem saída. Tirei minha blusa e ele fez o mesmo em seguida. Nossos corpos estavam implorando para sentir o toque um do outro, e como uma resposta positiva, fomos atraídos por um imã interno que nos puxava sem dó para o corpo quente do outro. Aquela noite, nós não falamos sobre Amélia, nem sobre as mentiras que estavam entre nós. Não falamos sobre o que deveria ou não ser. Apenas nos entregamos àquilo que, por tanto tempo, tentamos esconder de nós mesmos. Quando finalmente nos deitamos juntos, foi como se o tempo tivesse se distorcido. O mundo lá fora não existia mais. Só havia nós dois, envolvidos em um abraço silencioso, uma entrega mútua que não precisava de palavras. O calor de seu corpo contra o meu me fez esquecer todas as perguntas e incertezas que me assombravam. Era a fuga que ambos precisávamos. Não era a solução para nossos problemas, mas naquele momento, naquele quarto escuro, parecia ser o único refúgio disponível. No silêncio que se seguiu, enquanto o sono nos envolvia, havia algo claro para mim, embora eu não pudesse expressar em palavras: nossa conexão não era mais algo que podíamos ignorar. E, de alguma forma, eu sabia que as consequências dessa noite seriam muito maiores do que qualquer um de nós poderia imaginar. Mas, por enquanto, nada mais importava além de estarmos juntos, mesmo eu tendo a plena consciência do quão errado isso é. — Eu não deveria ter feito isso. Você está noivo e isso é mais que errado. — Não é errado, Clara. Eu sempre gostei de você, sempre. E sabe de uma coisa? Eu faço qualquer coisa pra viver sempre esses momentos com você. Eu deveria fazer mil pedidos, mas não os fiz. Ao invés disso, estava aproveitando o momento que acabaria rápido demais e, ao invés de me magoar com o que ele iria responder, preferi me calar e aproveitar o momento feliz da vida.
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