Alguns dias depois...
Jason
Amélia estava deitada na minha cama, mexendo no celular e rindo sozinha de alguma mensagem que havia recebido. Eu, encostado na porta do quarto, não conseguia tirar Clara da cabeça. A cena dela saindo com Alex no bingo havia acendido uma raiva que eu m*l conseguia controlar. Não sei até quando irei com seguir controlar tudo isso, alguma hora vou acabar explodindo.
— Jason? — Amélia chamou, sem tirar os olhos da tela. — Preciso voltar para Nova York amanhã. Tenho um projeto importante na faculdade e não posso faltar. Já tirei mais dias do que eu deveria para vir te ver.
— Não precisava fazer isso por mim. — Ela me olhou de relance, mas voltou a olhar para gela do celular novamente.
— Jason... não precisa ser assim, quando eu estiver formada em direito, vamos ter mais tempo para nós dois. Mas estarei fazendo o que puder para que nosso casamento seja perfeito.
Eu assenti, como se isso importasse.
— Tudo bem. Vou resolver as coisas do casamento daqui mesmo — respondi mecanicamente, enquanto meus pensamentos vagavam para Clara.
Amélia sorriu.
— Sabia que você entenderia. — Ela se sentou e passou os braços ao redor do meu pescoço, depositando um beijo leve na minha bochecha. — A gente se fala por mensagens, tá? Só não esquece de me responder, como você sempre faz. Agora que não é mais fuzileiro, suponho que terá mais tempo para mim.
Eu a segurei pela cintura, sem muita vontade. Amélia parecia perfeita no papel, mas cada vez mais eu sentia que estava vivendo uma mentira. O beijo que troquei com Clara na outra noite tinha deixado isso claro: Clara era a única pessoa que realmente mexia comigo. Intensifiquei o beijo com minha noiva, na esperança de que alguma faísca surgisse entre nós, mas não consigo senti nada além de trocas de salivas.
Clara
Os dias se passaram arrastado. Me sinto vazio e sozinha - estou assim na maioria parte do tempo. Me divido entre a floricultura e o rinque, mas com a minha madrinhas afastada esses dias, as coisas tem necessitado mais da minha atenção.
Helena abriu uma loja de antiguidades, está realizando um dos seus sonhos e eu estou muito feliz por ela, mas não sei se consigo me acostumar com a ideia de que ela não vai mais ficar aqui comigo e eu que tenho que cuidar de tudo sozinha.
Alex tem ido me visitar com mais frequência, me convida para jantares e como um bom fotógrafo, ele não se cansa de fotografar tudo que vê e acha bonito - isso inclui a floricultura e agora, a loja da minha madrinha - mas eu admiro isso nele, por mais que não esteja acostumada com tantas demonstrações...
— Clara? — Me vestia para ir ao rinque, mas esqueci que havia marcado com Alex.
Droga! Eu não deveria continuar agindo no impulso, não deveria mesmo. Coloquei um roupão por cima da roupa e corri abrir a porta.
— Oi, você está... — Ele é legal, mas me deixa cansada com seus tantos elogios, chega a ser sufocante. — Linda!
— Então, Alex... eu não deveria ter aceito jantar hoje, porque hoje tenho um compromisso inadiável e de muita importância para mim. Será que você se importa de voltar para casa e a gente remarcar isso depois?
Coitado, estava segurando um buquê lindo de rosas amarelas, quando seu olhar entristeceu.
— Me desculpa, Alex. Eu deveria ter lembrado, mas com o corre corre, acabei me esquecendo. Eu posso te ligar quando estiver em casa? — Por que eu queria insistir nisso? Porque, eu sei que ninguém jamais será capaz de fazer com eu esqueça aquele maldito noivo.
— Será um prazer. Por favor, não esqueça. Ah, se precisar de mim, sabe o que fazer.
Peguei as rosas que ele me trouxe e agradeci com palavras e um abraço, por tudo que ele é comigo. Nos afastamos e ele foi em direção ao carro.
Esperei dois minutos depois que o carro foi embora, assim não corre o risco dele voltar e eu tenho certeza que ele foi realmente embora. Tendo certeza que estava sozinha, peguei meu patinete, minhas pastilhas e a caixinha de som de sempre. Como uma boa pessoa, coloquei também a garrafa de vinho, que estava guardada há tempos em minhas coisas. Era para algum momento especial, e esse alguém era o Jason. Mas agora ele está noivo, e eu já não tenho mais o que comemorar. Hoje é uma noite boa de se divertir.
O tempo passou rápido, então eu voltei, mas não para casa. Fui até a floricultura e liguei para Alex, precisava de alguma coisa quente. Que me faça ter certeza que ainda estou viva e vivendo.
Jason
O clima no apartamento estava silencioso desde a partida de Amélia. Mesmo longe, ela me enviava mensagens constantes, discutindo os detalhes do casamento como se tudo estivesse perfeitamente resolvido. Mas nada estava resolvido.
Decidi ir até a floricultura onde Clara trabalhava. Precisava vê-la, precisava entender o que estava acontecendo entre nós. Talvez, se conversássemos, eu pudesse finalmente esclarecer o que sentia. Eu sou um covarde, por sempre fugir e não voltar para dar explicações. Mas, ela também não quer me ouvir, eu tenho certeza. Já são quase duas da manhã, eu nem sei se ela está lá ainda.
Entrei no pequeno estabelecimento, o cheiro de flores frescas inundando meus sentidos. Era como se eu estivesse entrando ali pela primeira vez. Então, meu sangue gelou.
Alex estava ali, beijando Clara. Eles estavam próximos, tão próximos que a visão fez minha mente ficar em branco por um momento. Sem pensar duas vezes, parti para cima dele, empurrando-o com força contra a parede. Eu queria socar sua cara até o sangue pintar toda a parede branca, mas infelizmente eu não posso fazer isso...
— Jason, o que você está fazendo?! — Clara gritou, surpresa e furiosa. Sua voz embargada, os cabelos soltos e olhos bêbados entregaram uma Clara bêbada.
Alex tentou reagir, mas eu o empurrei novamente, sentindo uma raiva quase incontrolável.
— Quem você pensa que é pra tocar nela?! — rosnei, minha voz saindo mais grave e perigosa do que eu planejava. — Não vê que ela está bêbada? Ela está agindo por impulso, p***a. Que p***a você tem, tá querendo se aproveitar dela?
— Você tá louco, cara? — Alex rebateu, se desvencilhando do meu aperto. — Nós dois estamos livres. E você, por acaso, tem alguma coisa com ela? E eu não vou abusar dela, se é isso que quer saber. Foi só um beijo, não tem nada demais nisso. Quem é você, afinal?
Antes que eu pudesse responder, Clara se colocou entre nós, empurrando-me para trás.
— Já chega, Jason! Isso não é problema seu. — Ela me olhou com raiva, os olhos faiscando de indignação. — Eu não estou bêbada, eu nem bebi tanto assim.
Eu respirei fundo, tentando me acalmar, mas meus olhos ainda estavam fixos em Alex, como se ele fosse a personificação de tudo que estava errado.
— Clara, a gente precisa conversar — insisti, a voz mais suave, mas ainda desesperada.
Alex logo saiu, mas antes avisou a Clara que estaria esperando por ela no carro.
— Conversar? — Ela riu sem humor. — Agora você quer conversar? Depois de todos esses anos, depois de tudo o que aconteceu? Que droga, Jason. Por que sempre fode minha vida desse jeito? O que você faz, algum tipo de aposta?
Eu sabia que ela tinha razão, mas mesmo assim, eu precisava dizer algo, qualquer coisa.
— Não é isso. Eu… eu gosto de você, Clara. Sempre gostei, eu só não sabia disso ainda, mas agora, já sei sobre tudo que eu quero.
Ela cruzou os braços e balançou a cabeça, cética.
— Gosta de mim? E acha que isso é suficiente? — Ela avançou um passo, o rosto próximo ao meu. — Se você gostasse mesmo de mim, teria feito alguma coisa. Mas não, Jason. Você prefere viver preso às suas obrigações e se esconder atrás dessa fachada de frieza. E por favor, não me pergunta mais não. Vamos cada um viver a nossa vida e só?
As palavras dela eram como facadas. Ela me enxergava exatamente como eu era: um covarde incapaz de agir.
— Você tem uma noiva, Jason. — A voz dela agora estava baixa, quase um sussurro. — E mesmo assim, está aqui, tentando controlar o que eu faço da minha vida. Você não tem esse direito. Você não tem o direto de invadir minha privacidade dessa forma. Você não tem esse direito, Jason. Você não é o meu dono.
Eu abri a boca para responder, mas não havia nada que eu pudesse dizer que apagasse a verdade nas palavras dela.
— Eu esperei muito tempo para você ter alguma atitude, Jason. — Clara me olhou nos olhos, e vi tristeza misturada à raiva. — Mas já acabou. Agora, eu finalmente estou seguindo em frente. Sem me sentir presa a você. Só sendo eu mesma e isso é... Bom.
Com essas palavras, ela passou por mim, deixando-me sozinho no meio da floricultura. Eu a tinha perdido — e desta vez, talvez para sempre.
— Ah, fecha a porta e joga a chave debaixo da minha porta. Você sabe onde é a p***a da minha casa.
— Não precisa dessa agressividade, você não é assim. Alex vai te levar para casa?
— Não, eu vou sozinha. Preciso pensar um pouco. A sua presença me sufoca.
Ela foi embora, sem olhar para trás e eu permaneci ali, com a chuva caindo, me senti como se estivesse perdido, procurando refúgio em seu colo quente.