Jason
Os dias seguintes foram confusos. Clara nunca tinha sido fácil de decifrar, mas agora, parecia impossível. Desde o momento em que saiu da casa de Helena, rindo como se nada importasse, algo começou a me incomodar mais do que eu queria admitir. Amélia percebia minha distração, mas não dizia nada. Talvez ela soubesse que não adiantaria tentar arrancar de mim o que estava preso na minha mente.
Hoje, eu estava voltando à casa de Helena para resolver algumas pendências com a mudança. Amélia já havia começado a organizar as coisas, e eu sabia que não teria como evitar Clara para sempre.
Quando estacionei em frente à casa, Clara estava lá. Sentada na varanda com Helena, tomando chá como se nada tivesse mudado. Elas riam de algo, uma cena tão familiar que me fez hesitar antes de descer do carro.
Respirei fundo e fui em direção à entrada.
— Jason! — Helena me cumprimentou com o mesmo entusiasmo de sempre. — Já terminou tudo na nova casa? — O entusiasmo da minha mãe deveria me deixar empolgado? Deveria, mas está longe disso.
— Quase — respondi, lançando um olhar rápido para Clara. Ela nem se deu ao trabalho de olhar para mim, apenas continuou mexendo na xícara de chá, como se minha presença fosse irrelevante. — Mãe, não precisa se preocupar tanto com as coisas. Vamos dando um jeito aos poucos.
— Claro que não, Jason. Tudo tem que ficar perfeito, Casamento é algo sério, não é brincadeira. Clara, você vem me ajudar depois? — Helena perguntou, sem notar o clima.
— Claro, madrinha. Vou terminar aqui e já vou para dentro. — O peso em sua voz era terrível, mas ainda sim, ela está presente.
Eu entrei, tentando me ocupar com qualquer coisa que me distraísse da tensão crescente. Mas, claro, Clara não demorou a aparecer. Ela entrou na cozinha como se fosse a dona do lugar, pegando um copo d’água e me ignorando completamente.
— Você vai continuar fingindo que eu não existo? — perguntei, incapaz de conter a irritação. — Acha que vai ser assim até quando?
Ela finalmente me olhou, mas o sorriso era puro sarcasmo.
— Desde quando você faz tanta questão de existir para mim, Jason?
— Que p***a está acontecendo com você? Parece que eu não te reconheço mais.
— Não, sério — ela continuou, colocando o copo na pia. — Se você está tão feliz com Amélia e com essa vida perfeita que estão planejando, por que parece tão incomodado comigo? E sabe de uma coisa? Seria melhor se nunca tivesse nos conhecido.
Eu não tinha uma resposta. Ou, talvez, não queria admitir a resposta que sabia ser verdade, mas suas palavras me deixaram ser ação nem reação.
— Isso não tem nada a ver com ela — murmurei. — Isso é coisa nossa. Temos uma vida juntos, Clara. Você não pode ignorar isso, mesmo querendo.
— Eu posso e eu vou ignorar tudo isso. Não sou obrigada a ter que lidar com você até o último dia da minha vida. É muita coisa para processar, e eu estou cansada.
— Você confia em mim? — O riso que formou nos cantos dos seus lábios, me deixou confuso e sem saber o que dizer.
— Claro que não — ela rebateu, cruzando os braços. — Você sempre teve um talento incrível para separar as coisas, não é?
— Por que você veio aqui hoje? — perguntei, mudando de assunto.
— Pela mesma razão que sempre venho. Minha madrinha. Diferente de você, eu não venho buscar respostas para problemas que criei sozinho. E sabemos que já estamos bem gradinhos para dar conta dos nosso problemas sozinhos.
A resposta me atingiu como um golpe certeiro. Ela estava certa, mas isso não tornava a situação mais fácil.
— Clara... — comecei, mas ela levantou a mão, interrompendo-me.
— Não. Não começa, Jason. Eu não quero ouvir desculpas, explicações ou qualquer tentativa de conversa. Eu já estou muito bem com tudo isso. Você é quem deveria estar também. Afinal de contas, vai casar. Vai construir uma família; ter filhos, uma bela esposa, sogros, cunhados e afins... Eu desejo de verdade que você seja feliz.
Ela saiu antes que eu pudesse reagir, deixando-me sozinho na cozinha com o peso de suas palavras.
Clara
Eu sabia que vê-lo de novo seria inevitável, mas isso não tornava as coisas mais fáceis. Jason sempre teve essa habilidade irritante de me desestabilizar, mesmo quando eu jurava a mim mesma que estava acima de tudo isso.
Depois de sair da cozinha, fui até Helena, que me esperava com um olhar curioso.
— Tudo bem, querida? Você está parecendo preocupada. — ela perguntou, colocando uma das mãos no meu ombro.
— Claro, madrinha. Por que não estaria? — menti, sorrindo para tentar convencê-la. — E como a andam as coisas na sua loja? Tenho que ir lá novamente.
Mas Helena me conhecia bem demais para ser enganada.
— Jason disse algo que te incomodou? Porque ele sempre fez isso com você. Até parecem que não cresceram.
— Jason nunca me incomoda, madrinha. — respondi, com mais firmeza do que sentia. Eu só não estou em um bom dia hoje, acho que estou resfriada.
Antes que ela pudesse insistir, Amélia apareceu na porta da sala, chamando por Jason. A visão dos dois juntos não mexia mais comigo como antes. Pelo menos, era o que eu tentava acreditar.
— Amélia, querida! Já se acomodaram na nova casa? — Helena perguntou, animada, enquanto eu me afastava para evitar qualquer interação desnecessária.
Mas enquanto os três conversavam, peguei minha bolsa e decidi que era hora de ir. Esse lugar, que antes era meu refúgio, agora parecia um campo minado, e eu não estava pronta para lidar com as explosões que ainda estavam por vir.
Não sei se foi sorte ou muito azar, mas encontrei com Alex que estava tirando o carro, que estava estacionado próximo ao meu.
— Clara, não sabia que estava por aqui. — Seu olhar atencioso sobre mim, fã.parrcer que eu sair da escuridão para a luz. — Faz algum tempo que a gente não se vê. Está tudo bem?
— Está tudo ótimo. Aliás, está livre agora? Que tomar alguma coisa comigo e jogar conversa fora? Acho que preciso de um pouco de adrenalina.
— Claro, vamos lá...
Alex é o tipo que topa qualquer coisa, independente do que seja, ele sempre vai estar ali e eu me odeio as vezes, por não saber dar valor a ele, que tanto me preza.
Assim que chegamos na minha casa, eu peguei uma garrafa de vinho e sentamos na varanda. Não tinha nada de bom para apreciar lá fora, mas pelo menos podíamos conversar.
— Então, o que você anda fazendo? — Perguntei, tentando quebrar o clima, enquanto ele sorria.
— Conheci uma garota, mas acho que ela não dá a mínima para mim, e isso dói. — Finalmente estávamos entrando em uma conversa produtiva, onde não era somente eu que agora estava sofrendo.
— Às vezes a dor ensina a gente a ser forte, sabia? Eu sei que é errado e que o amor deveria ser recíproco, mas...
— Você e o Jason vivem dessa forma desde quando? — A pergunta chegou ao ponto em que eu tanto evitava, mas seria impossível ignorar tudo isso para sempre. — O que vocês sentem um pelo outro, afinal de contas, ele está noivo.
— Eu o amo, Alex. — Disse com uma convicção que eu nem sabia que poderia existir. — Eu amo o Jason desde da primeira vez que o vi, mas nunca foi recíproco. Ele nunca deu a mínima para mim e eu... eu fui tola todos esses anos. Achei que quando ele voltasse da Marinha, finalmente iria me notar com outros olhos, mas ele voltou muito bem acompanhado.
— Mas se ele não gosta de você, por que está sempre se metendo em sua vida? Ele quase me agrediu no dia do aniversário, quase me agrediu novamente quando nos viu na floricultura. Eu não entendo esse tipo de sentimento.
— Não é sentimentos, Alex. Ele acha que eu sou um objeto de sua posse, no qual ele pode fazer o que bem entende, porque sabe que quando voltar eu estarei aqui.
Entramos em uma conversa profunda, onde a garrafa de vinho foi pouca coisa para a imensidão de problemas que estávamos tendo no momento.
Alex foi para casa antes que ficasse pior e eu resolvi então, dar continuidade ao que comecei em algum bar que estivesse aberto.
Vesti uma roupa leve, soltei os cabelos e fiz uma maquiagem discreta (não lembro a última vez que me maquiei para ir a algum lugar). Por fim, passei o perfume que era da minha mãe, que minha madrinha fez questão de guardar todas as jóias e os pertences que foram dela, e que hoje são meus.
Não precisei andar muito, cinco quarteirões a frente tinha um clube aberto, Icy um lugar onde sempre estava cheio e as pessoas pareciam felizes com tudo que acontecia lá.