Madison Narrando
Passei o resto da manhã tão absorta em minhas tarefas, que quando dou por mim, olho as horas na tela do notebook e vejo que já está tarde. É quase meio-dia, preciso ir almoçar.
Organizo minha mesa antes de sair, fecho o notebook, pego minha bolsa e saio às pressas, fechando a porta da sala do chefe. Saio esbaforida e procurando pelo meu celular na bolsa, na intenção de chamar a Chloe para almoçar comigo. Mas no caminho até à saída, esbarro com alguém, por causa do meu jeito desastrado. Eu iria direto ao chão, se não fosse pelos seus braços fortes me segurarem.
Ficamos nessa posição, nos olhando intensamente por alguns segundos, meus lábios entreabertos. Meu coração acelerado. Seu maravilhoso cheiro amadeirado penetra minhas narinas como uma droga.
Lembro-me que ainda estou em seus braços, então, sentindo-me envergonhada, pigarreio e me afasto do meu chefe.
— De novo! Droga! — sibilo quase inaudível para que ele não ouça. Estou completamente desconcertada.
— Está bem? Se machucou? — seu olhar sobre mim é de preocupação.
Apesar da circunstância, é engraçado a forma como seu semblante está aflito.
— Estou bem, senhor. Não se preocupe. E obrigada por não me deixar cair... — lhe respondo meio acanhada.
Ele sorri, revelando seus dentes perfeitamente alinhados, o deixando ainda mais bonito. Se é que isso é possível. Esse homem é tudo de bom, mas certamente não é para uma pobretona como eu.
— Não há de quê. — ele me tira do transe.
— Até mais, senhor. — tento passar por ele, para sair daqui o quanto antes, porém, sou interrompida.
— Aonde vai? — giro o calcanhar, o encarando e noto sua testa enrugada, como se estivesse confuso.
— Almoçar?! — arqueio as sobrancelhas como se fosse óbvio.
— Nossa! Já está no horário do almoço? — ele confere as horas em seu relógio de pulso — Realmente não me dei conta disso.
Permaneço parada em sua frente, esperando que me diga algo.
— Sei que não devo pedir isso, pois, não quero parecer o chefe turrão, mas se importa em ficar mais alguns minutos e me ajudar com uma papelada? — ele me pede tão gentilmente, que dá até pena recusar.
— Hum... O senhor é o chefe, o que disser, eu farei. — ele balança a cabeça de um lado para o outro, com um meio sorriso lateral.
— Vamos. — ele meneia apenas a cabeça, me indicando para segui-lo.
Caminhamos até a sua sala.
— Sente-se. — ele pede, enquanto se direciona a sua poltrona atrás da mesa de vidro.
Afasto a cadeira e sento.
— Então, senhorita Stuart... Tive uma reunião de negócios hoje cedo, porque estou prestes a fechar parceria com uma empresa e preciso que reformule todos esses documentos e guarde com sua vida, por favor. Na próxima reunião precisarei tê-los em mãos.
Por favor? Ele disse por favor? Definitivamente não estou acostumada com um chefe gentil.
— Algo errado, senhorita?
— Não, senhor.
— Acredito que Zoe já te ensinou tudo que precisa fazer, certo? — ele passa a língua nos lábios, me fazendo olhá-los.
Pisco algumas vezes me concentrando.
— Sim, ela me ensinou.
— Acha que consegue dar conta disso? — se refere ao que acabara de me pedir para fazer.
— Pode confiar em mim, senhor. Agora se me der licença, irei para minha sala. — faço menção de levantar, mas ele me interrompe.
— Se não for pedir muito, gostaria que trouxesse seu notebook e viesse para cá. Estando perto de mim, posso te auxiliar melhor. — engulo em seco.
Esse homem está me testando, não é possível.
Penso em recusar, mas como uma ótima profissional que preciso ser agora, decido não questioná-lo, apenas aceitar seu pedido.
— Como preferir, senhor. — dito isso, vou até minha sala, pego o notebook e retorno até ele, sentando-me novamente na cadeira.
Apesar de estar de frente para ele, faço de tudo para não olhá-lo.
Começo a fazer o trabalho que me foi designado, porém, vez ou outra tenho a sensação de estar sendo observada. Ainda assim, não paro de fazer o que estou fazendo.
Algumas horas depois, finalmente concluo minha tarefa.
— Prontinho. Acabei de enviar em seu e-mail. — digo, encostando no recosto da cadeira para relaxar um pouco.
— Obrigado, senhorita. — ele coloca seus óculos e olha para a tela do seu computador, provavelmente verificando se fiz tudo corretamente.
— Se não for precisar mais de mim, estou de saída.
— Não estou conseguindo abrir um dos documentos. Poderia vir aqui? — ele pede que eu me aproxime.
Nem estamos tão distantes assim, qual a necessidade disso?
Madison, ele é seu chefe. Ele manda.
Levanto, deixando minha bolsa na cadeira e faço o que ele pediu.
Olho para a tela, um pouco distante para não causar uma impressão errada sobre mim.
— Pode mexer, é todo seu. — se refere ao computador, sem soltar o mouse.
Percebo a insistência dele em querer abrir o documento sozinho, mesmo falhando em sua missão.
Inclino o tronco e levo minha mão ao mouse, esperando que ele retire a sua, porém, ele não faz isso. Então nossas mãos se tocam, fazendo com que uma onda de eletricidade percorra todo meu corpo.
Acredito que ele tenha sentido o mesmo, ou então se assustou com meu toque, pois, virou o rosto e nossos olhares se encontraram. Meu coração acelerou imediatamente.
— É... — pigarreio e o vejo sem reação, mas ele logo puxa sua mão, afastando-se e me dando espaço para fazer o que pediu.
Procuro fazer rapidamente, porque o que mais quero nesse momento é sair de perto dele. Se eu pudesse, enfiaria minha cabeça em um buraco.
— Prontinho — falo após concluir minha missão — Era um dos seus programas que estava interrompendo a a******a, mas já resolvi.
— Obrigado. — seu semblante é indecifrável. Não saberia dizer o que se passa em sua mente nesse momento.
Retorno até à cadeira onde deixei minha bolsa, pegando-a para sair.
— Precisa de mais alguma coisa, senhor? — pergunto-lhe antes de sair.
— Pode ir almoçar. — ele dá um meio sorriso sem mostrar os dentes.
Meneio a cabeça e saio de sua sala.
Penso em enviar mensagem a Chloe, a convidando para almoçarmos juntas.
Faço isso, enquanto me dirijo à saída do prédio.
Assim que guardo o celular na bolsa, esperando por uma resposta dela, ouço uma voz feminina me chamar.
— Ei! — olho para o lado e vejo a recepcionista.
— Sim. — paro a encarando.
— Ainda não nos apresentamos formalmente — ela fica de pé atrás do balcão — Madison, não é? — assinto positivamente com a cabeça — Sou Manuela Spencer.
Estende a mão em minha direção.
Aproximo-me do balcão e retribuo o gesto.
— Muito prazer, Manuela. — sorrio.
— Pode me chamar de Manu. Então, Madison... Temos uma política de sempre ser amistosos com os novos funcionários. Com você não seria diferente — franzi o cenho, tentando entender onde ela quer chegar — Gostaria de convidá-la para almoçar comigo e a Zoe.
— Eu adoraria, mas combinei de encontrar minha melhor amiga agora. — lhe respondo tímida.
— Não tem problema, ela também pode ir.
Todos aqui parecem ser muito gentis.
Penso em recusar, mas fico sem jeito para fazê-lo, então decido aceitar.
— Tudo bem, eu aceito. — ela sorri satisfeita.
Após isso, ouvimos um barulho de saltos e ao olhar para o lado, vemos a Zoe se aproximando.
— Espero não estar atrasada. — ela está com a respiração meio descompassada.
— Vamos? — Manuela pergunta, nos olhando e Zoe parece contente em me ver as acompanhando.
Pegamos um táxi e envio mensagem para a Chloe no caminho, informando onde deveríamos nos encontrar.
(...)
Eu não fazia ideia do lugar onde iríamos. Se era chique, famoso... A única informação que tinha era o nome do lugar. Mas ao chegar ao nosso destino, assim que o motorista para o carro e descemos, meus olhos se esbugalham com o luxo do restaurante. Dá até medo de respirar ali dentro e ser cobrada por isso.
Estagno no lugar onde parei.
— Algum problema, Madison? — Manuela põe uma de suas mãos em minhas costas e me olha confusa.
— Desculpa, meninas. Sei que vocês tiveram boa intenção em me convidar para cá, mas... Como posso dizer isso? — engulo em seco — Não tenho dinheiro para beber nem mesmo uma água num lugar desses.
As duas riem, balançando os ombros. Franzo o cenho sem entender.
— Não pense que estamos rindo da sua situação financeira, Madison. Jamais faríamos isso, já estive em seu lugar — vejo sinceridade nos olhos da Zoe ao falar isso — Estamos rindo, porque nós te convidamos, então o almoço é por nossa conta. — pisca para mim e Manuela sorri.
— Não posso aceitar, meninas... — nunca gostei de me aproveitar das pessoas.
— Não só pode, como vai! Vamos entrar. — Manuela vem para trás de mim, me dando um empurrãozinho de leve para eu andar.
Não retruco, decido apenas aceitar a bondade delas, que realmente parecem ser pessoas ótimas.
Somos recepcionadas e levadas até uma mesa. O lugar é um verdadeiro luxo, elegantíssimo. Com mesas redondas e janelas de vidro, que nos proporciona uma linda vista do arvoredo e prédios executivos.
Sem demora, Chloe chega. Apresento todas, e minha amiga com seu jeito louco de ser, logo se afeiçoa a elas e conversam como se conhecessem há anos.
O garçom chega, nos entregando o menu com o cardápio e anota nossos pedidos. Como não estou acostumada a comer em lugares assim, peço o mesmo que Zoe e Manuela. Minha amiga, por sua vez, decide pedir algo diferente, alegando que mesmo nunca tendo experimentado antes, a vida é muito curta para desperdiçar oportunidades.
(...)
Quando estávamos terminando de comer, a perseguição em forma de homem, adentra o restaurante. Olho na direção da porta e engasgo, devido ao susto. Começo a tossir loucamente, apontando para minha garganta, sentindo falta de ar.