Madison Narrando
Mesmo não tendo trabalhado na lanchonete hoje, meu dia não deu uma trégua. Foi cansativo da mesma forma. Como Chloe mora sozinha, ela decidiu passar a noite em minha casa. Alegando que eu não lhe contei tudo que rolou na empresa e que sua intuição lhe dizia para arrancar todos os mínimos detalhes de mim.
Ela não mentiu, realmente não contei tudo. Na verdade, nem eu mesma estou entendendo essa minha reação desde que vi aquele homem no bar e agora descubro ser meu chefe. Sempre contei cada detalhe da minha vida à Chloe, somos melhores amigas desde que me entendo por gente. Porém, fico o tempo inteiro pensando que talvez eu não deva contar, e sim, tirá-lo da minha mente.
Como se isso fosse uma tarefa fácil... Já que não consigo parar de pensar nele e cada vez que sua imagem vem à minha mente, meu corpo parece entrar em brasas. Sinto como se fosse pegar fogo a qualquer momento e não houvesse um extintor que possa apagá-lo.
— Madin...? — Chloe chama minha atenção tirando-me do transe.
Vejo-a sair do banheiro com um pijama verde, cheio de coelhinhos. Composto por um short curto e uma blusa de alças finas. Ela está secando os cabelos numa toalha.
— Sim. — arqueio as sobrancelhas.
— O que está acontecendo com você? Tem estado estranha há dias. E não me venha com suas desculpas esfarrapadas, pois, não irá me convencer. — Chloe senta na cama ao meu lado, fazendo com que o colchão se movimente.
— Você está vendo chifre em cabeça de cavalo. — tento continuar escondendo, apesar de ter convicção de que não vai colar.
Ela revira os olhos e bufa.
— Já chega, Madison Stuart! Você vai me contar o que está acontecendo e vai ser agora. Fui clara? — sua voz é firme, ela me encara sem piscar os olhos.
Solto um longo suspiro e murcho os ombros, sabendo que não posso mais fugir.
— Ok. — ela sorri, sentindo-se vitoriosa e une as mãos, tamborilando os dedos uns nos outros, como quem espera por uma fofoca das boas.
Dou uma gargalhada com seu jeito.
— Sabe aquele dia em que fomos ao bar comemorar? — Chloe meneia a cabeça em afirmação — Você reparou quando um homem de terno azul-escuro, entrou acompanhado de uma loira muito bonita, mas vestida bem vulgar?
Seus olhos ficam vagos e ela os desvia de mim, entortando os lábios, como se estivesse pensando.
— Ah! Eu lembro! — me assusto com seu grito — O que tem ele? Tá pegando? — gargalho, inclinando a cabeça para trás.
— Perdeu a noção? Acha mesmo que um homem como aquele iria ficar com uma pobretona feito eu? Se liga, Chloe! — ouço ela estalar a língua na boca em um muxoxo.
— Você precisa parar de se menosprezar tanto, Madison. Quando será que vai enxergar a mulher maravilhosa que é? — reviro os olhos porque ela sempre me diz isso — Sou mil vezes mais você do que aquela loira aguada que estava com o tal homem.
Seria ótimo ter a autoestima elevada, mas infelizmente não tenho.
— Isso não vem ao caso agora, a parada aqui é outra. Foco! — ela dá de ombros — Acredito que você não percebeu, mas trocamos alguns olhares naquele dia.
— Ah, sua safa.da! Por isso você ficou daquele jeito e quis ir embora, né?! Eu sabia que tinha algo por trás disso.
— Chloe! — a repreendo.
— O quê? Não disse nenhuma mentira. — ela dá de ombros novamente.
— Ok. Recapitulando... Esbarrei com ele outra vez no dia da minha entrevista na empresa, pensei que ele fosse um funcionário como qualquer outro, mas... — ela não me deixa concluir.
— Espera aí! — Chloe coloca a mão na frente do meu rosto, me fazendo parar de falar — Não me diga que o gostosão é o dono da po.rra toda. — acabo rindo de sua colocação.
Meneio a cabeça em afirmação, ainda rindo.
— Oh meu Deus! Não acredito! Ele é seu chefe? — ela abre os lábios em um perfeito “O” e põe a mão na frente da boca.
— Exatamente. — lhe respondo com os lábios comprimidos.
— Pu.ta mer.da! — tento não rir, mas falho miseravelmente. Chloe é sempre exagerada.
— Agora você está entendendo meu problema? Como vou trabalhar ao lado desse homem, sabendo da atração que sinto por ele?
— Amiga, só tenho uma coisa pra te dizer, você tá ferrada!
— Acha que não sei? — bufo.
De repente, vejo-a sorrir cinicamente.
— Nem vem, Chloe. Sei exatamente o que está pensando. E não, não vai rolar! — informo antes que ela possa dizer alguma coisa.
— Ah, qual é, Madison? Deixa de ser chata. — ela tenta conter o riso.
— Mas nem pensar. Pirou? — esbugalho os olhos e coloco um travesseiro sobre minhas pernas dobradas.
— Se parar pra pensar, verá que tenho razão. Essa é a única forma para vocês lidarem com esse fogo no c.u. — se refere a sexo.
Já nem me importo mais com a forma que ela fala.
— Esqueceu que sou virgem? — arqueio as sobrancelhas.
— Para tudo tem uma primeira vez, meu anjo. E em algum momento você precisa dar esse negócio no meio das pernas, não acha? Ou vai morrer virgem e cheia de gatos?
— Vai se fo.der, Chloe! — exclamo, impaciente.
— Ora, vejam só... Nossa menina certinha, falando palavrão sem piscar, isso é uma grande evolução — ela fala com sarcasmo — Pelo visto, o bonitão tem te feito bem.
— Que saber? Chega! Não dá pra conversar com você. Vamos dormir, que amanhã levanto cedo. — retiro o travesseiro das pernas, colocando no colchão e me ajeito para dormir.
Ela desliga a luz do quarto e retorna, deitando ao meu lado.
— Boa noite, amiga. Sonhe com o bonitão. — dou uma risada contida e escuto ela rir também, porém, não respondo.
Assim que fecho os olhos, meu karma em forma de chefe, vêm certeiro a minha mente. Desvio desses pensamentos, indo dormir.
(...)
No dia seguinte, a luz do sol adentrando o quarto através da janela me faz acordar. Aperto os olhos, incomodada com a claridade. Olho para os lados e não vejo Chloe.
— Chloe? — sento na cama e chamo por ela.
De repente, presto atenção em um barulho aparentemente vindo do banheiro. Saio da cama, indo até lá e encosto a cabeça na porta, tentando ouvir melhor.
Acho que encontrei a pilantra, deve estar no banho. Ela costuma acordar bem cedo. Não sei como consegue.
Retorno à cama, deitando-me confortavelmente e fecho os olhos para voltar a dormir por mais alguns minutinhos. Até ouvir o ranger da porta e a voz estridente da minha amiga.
— Nem pense em dormir novamente, mocinha. A senhorita tem um longo dia pela frente. Seu primeiro dia de trabalho, esqueceu? — ela está parada na porta do banheiro com a mão na parede e uma toalha enrolada no corpo.
— Ah, Chloe... Me deixa dormir. — resmungo contra o travesseiro.
— Levanta! — ela grita, enquanto puxa minhas pernas, me fazendo cair de b***a no chão.
— Ai! Isso doeu. — a encaro irritadiça, vendo-a rir de mim.
Levanto e vou tomar banho.
(...)
— Uau! Está maravilhosa, amiga. Garanto que o gostosão não irá resistir aos seus encantos. — enquanto termino de me arrumar, me olhando no espelho, Chloe me observa.
— Obrigada, amiga. Mas sinto te informar que o que menos quero é impressionar aquele homem. Quero apenas fazer meu trabalho bem feito. — pisco para ela através do espelho.
Chloe estala a língua.
— Vamos? — lhe pergunto à medida em que pego minha bolsa na cama após estar pronta.
— Sim.
Queria dar um beijo na vovó antes de sair, mas se eu fizer isso, irei me atrasar. Então, apenas saímos e chamamos por um táxi.
Deixo a Chloe na lanchonete primeiro, depois sigo para a empresa.
(...)
Recebo os olhares curiosos de todos ao adentrar o lugar. Vai ser difícil me acostumar com isso, detesto ser o centro das atenções.
O que eu mais queria hoje, era não ter que ver meu chefe, mas infelizmente isso não será possível, já que sou sua secretária.
— Bom dia, Madison — Zoe me cumprimenta assim que me vê, me olhando de cima a baixo — Uau! Está belíssima!
— Obrigada, Zoe. Então, por onde começo?
— Venha comigo, te levarei para conhecer o seu local de trabalho. — ela aponta o caminho, fazendo menção para que eu a acompanhe.
Seguimos pelo corredor e paramos em frente à sala do senhor Campbell. Franzo o cenho, sem entender. Zoe abre a porta e me dá espaço para passar.
Olho ao redor, percebendo detalhes que não havia reparado antes. A sala é imensa, com cores neutras, há alguns quadros decorativos na parede, dois porta-retratos na mesa de vidro, que pertencem ao meu chefe. Olhando para a minha esquerda — já que estou de costas para a porta — vejo que há também uma parede com blocos de vidro e uma porta, separando o que parece ser uma sala.
Zoe vai até lá, coloca a mão na maçaneta e abre a porta.
— Essa é sua sala. — ela diz sorridente.
— Vou trabalhar ao lado do chefe? — meus lábios estão entreabertos.
— Sim, Madison. É necessário, pois, o Collin costuma pedir muitos favores às suas secretárias. Então, dessa forma fica mais fácil. — engulo em seco, dividindo o olhar entre ela e a mesa dele.
Passo a língua nos lábios, me recompondo.
— Algum problema? — ela me pergunta.
— Não, está tudo bem. — forço um sorriso.
— Ok! Vou passar para você as coisas mais importantes, o resto você irá aprender aos poucos. Tenho certeza que logo irá pegar o jeito.
Entramos em minha sala, sento na cadeira para começar a me adaptar com meu novo local de trabalho e Zoe me explica algumas coisas, especialmente a respeito da agenda de compromissos do chefe.
Passamos boa parte da manhã em minha sala, porque eu tinha muitas dúvidas, e ela, obviamente, sanou todas.
Estranhei o fato do senhor Campbell não ter aparecido na empresa pela manhã, mas, ao mesmo tempo, agradeci por isso, tanto que não ousei perguntar por ele. Eu faria de tudo para não esbarrar com ele outra vez. Sei que é idiotice pensar nisso sabendo que agora sou sua secretária, pois, isso se torna quase impossível, já que manteremos contato constantemente.
— Mais alguma dúvida, Madison? — ao final de suas explicações, Zoe pergunta.
— Não, por enquanto está tudo bem. Obrigada.
— Não há de quê! Irei para minha sala resolver algumas pendências, mas pode me chamar se precisar. Collin precisou sair para uma reunião de negócios, mas acredito que chegará antes do horário de almoço. — assinto com um menear de cabeça.
Em seguida ela sai, me deixando ali sozinha, com meus mil e um pensamentos a respeito do meu novo emprego, e principalmente, do meu chefe intrigante.