Madison Narrando
O táxi que me trouxe para em frente a empresa. Retiro uma nota de cinquenta dólares da bolsa, a fim de pagá-lo. Em seguida desço do carro.
Encaro o imenso letreiro do lugar, respirando fundo. Sentindo a brisa leve do vento levar toda a minha negatividade, porque isso tenho de sobra. Fecho os olhos e finalmente adentro o local. Passo por algumas pessoas, cumprimentando-as.
Pego o elevador, apertando o botão que me levará ao andar da presidência, onde estive da última vez que vim aqui. Sem demora chego ao andar de destino. Caminho a passos curtos, tentando passar confiança a todos que me olham ao redor. Porque obviamente todos os funcionários estão me encarando. Apesar do nervosismo, finjo não me importar, mas a verdade é que eu queria sair correndo daqui.
— Bom dia. — aproximo-me do balcão e cumprimento a recepcionista, que levanta a cabeça me encarando.
— Bom dia, senhorita. Em que posso ajudar? — ela pergunta gentilmente.
— Sou a Madison Stuart, fiz entrevista aqui há dois dias... — a mulher não me deixa concluir minha fala, interrompendo-me.
— Oh, sim! Desculpa não tê-la reconhecido de primeira, mas observando agora, lembro de você — noto sua agitação, possivelmente devido à correria que deve ser trabalhar nessa empresa — Vou avisar a Zoe que você chegou.
— Obrigada. — lhe respondo sorrindo sem mostrar os dentes e vejo-a mexer no telefone, discando um número de ramal.
— A senhorita Stuart chegou, Zoe — ouço-a falar — Ok.
A recepcionista encerra a ligação.
— Você já pode entrar. Siga para a mesma sala onde fez a entrevista. — ela aponta para o corredor. Estreito os olhos, pensando se não seria melhor pedir que me levasse até lá. Do jeito que sou atrapalhada, posso acabar me perdendo no caminho.
Mas decido não fazê-lo.
— Tudo bem? — ela franze o cenho.
Pigarreio e ajeito a bolsa no ombro.
— Sim. À direita não é? — confirmo para onde devo seguir, ela meneia a cabeça em afirmação e eu giro o calcanhar, indo para lá.
De fato estou nervosa, mas não deixarei que esse sentimento tome conta de mim.
Após alguns minutos andando, paro em frente à porta da sala, dou dois toques com os nós dos dedos e aguardo ser atendida, o que não demora a acontecer, pois, logo ouço o som de saltos batendo no chão e vejo a maçaneta girando.
— Olá, senhorita Stuart. Seja bem-vinda a Campbell Technology! — a mulher de cabelos castanhos, olhos esverdeados, alta e com um corpo mediano, vestida de forma bastante elegante, me recebe calorosamente.
— Obrigada, senhorita Lewis. — sorrio.
— Apenas Zoe, querida. Vamos à sala do senhor Campbell, ele insistiu em vê-la pessoalmente. — acho isso estranho, porém, não retruco.
Ela fecha a porta atrás de si e seguimos para a tal sala. O nervosismo só aumenta cada vez mais, por saber que verei o chefe logo em meu primeiro dia de trabalho.
Emfim chegamos ao escritório, ela bate na porta e ouvimos um entre.
— Senhor, aqui está nossa nova secretária. — inicialmente, Zoe não abre totalmente a porta completamente, provavelmente esperando a permissão do chefe.
Após isso, ela abre a porta e olha em minha direção para que eu entre.
Ao passar pela por ela e olhar a imagem do homem sentado na poltrona atrás da mesa de vidro, paro no meio do caminho com os lábios entreabertos, sem acreditar que o homem do bar, o mesmo com quem esbarrei aqui outro dia, está ali me olhando. É meu chefe.
Aparentemente ele não se abala, o que me deixa intrigada.
Será que ele se lembra de mim?
— Senhorita Stuart. — Zoe balança a mão na frente do meu rosto, chamando minha atenção.
Pisco repetidamente, saindo do transe.
— Sim. — respondo meio desconcertada, fazendo o possível para não encarar o homem.
— Está tudo bem? — seu semblante é de preocupação.
Pigarreio.
— Sim, está. — solto o ar que nem percebi estar segurando.
— Bom, esse é o senhor Campbell, nosso chefe. Dono de tudo isso aqui. — ela diz em tom de brincadeira, fazendo-o dar um meio sorriso.
— Muito prazer, senhor Campbell. — o cumprimento séria.
— O prazer é meu, senhorita Stuart. — a voz grave e rouca dele causa um arrepio insano em minha pele, seu olhar é penetrante.
— Sente-se. — Zoe pede, apontando para a cadeira em frente a mesa do chefe.
Sem dizer uma palavra sequer, afasto a cadeira da mesa e sento-me, repousando a bolsa em minhas pernas.
— Bom, senhorita Stuart... É um prazer tê-la em nossa equipe. Temos algumas informações a te passar, já que não tivemos uma boa experiência com as últimas secretárias — meneio a cabeça em concordância e deixo que ele prossiga — Sabemos da sua inexperiência no ramo, apesar da belíssima formação que tem — tento não me deixar atingir por isso — Mas não se preocupe, Zoe te ajudará em tudo o que for necessário e caso tenha alguma dúvida, não hesite em perguntar. Estamos aqui para te ajudar no que for preciso.
Sinto-me mais confortável e aliviada em ouvir aquelas palavras saídas dos lábios dele. Não é todo dia que vemos um chefe tão gentil.
— Tem alguma dúvida? — ele me questiona.
— Por enquanto não. — não olho para ele diretamente.
— Ok! Zoe, resolva toda a papelada com ela e estabeleça o dia para início de suas atividades. — ele desvia o olhar de mim para ela e percebo seu tom o mais profissional possível.
— Quando eu começo? — lhe indago, pois, ainda tenho que avisar a Hannah sobre minha saída da lanchonete.
— Amanhã. Infelizmente não temos tempo a perder, essa empresa está uma zona sem uma secretária para mim. — isso me lembra que terei que trabalhar pertinho dele.
Esse homem será meu inferno...
— Não tem problema. — tento não vacilar a voz para não deixar transparecer meu desconforto em saber que trabalharemos juntos.
— Como preferir, senhor. Se é só isso, acho que podemos ir... — Zoe comenta, como se pedisse permissão para sairmos.
— Claro! E mais uma vez, foi um prazer conhecê-la, senhorita Stuart. — ele meneia a cabeça e estende a mão em minha direção.
Seu olhar é tão penetrante, que parece querer me despir com tanta intensidade. Sem perceber, observo cada detalhe dele. Seu nariz fino, seus lábios meio carnudos, os olhos castanho-escuros, os cabelos negros penteados para trás e a barba rala, porém, muito bem feita, lhe dão um ar másculo.
Engulo em seco, retornando à realidade.
— Faço das suas palavras, minhas. — retribuo o gesto, pegando em sua mão, que ao nos tocarmos, sinto uma onda de eletricidade percorrer minha pele.
Desvio o olhar do seu rosto para nossas mãos e puxo minha mão em seguida. Isso me deixou bastante constrangida, especialmente por não saber o que se passa em sua mente. Seus olhos transmitem algo que não consigo decifrar.
— Podemos ir? — Zoe pergunta da porta, me tirando do transe.
— Sim, é claro. — ajeito minha bolsa no ombro e viro de costas para o meu mais novo chefe e ando até Zoe.
Ao fechar a porta da sala, ela chama minha atenção.
— Tente não se intimidar com o jeito dele — aparentemente, se refere ao senhor Campbell — Garanto que nosso chefe é uma boa pessoa, ele apenas está receoso quanto a você, porque nossa experiência com as últimas secretárias foi um fiasco. — me explica à medida que andamos pelo corredor.
Ah, se ela soubesse o que realmente está se passando em minha mente nesse exato momento...
Será uma tortura trabalhar ao lado desse homem...
Chegamos na sala dela, Zoe me mostrou alguns papéis, pediu que eu lesse e caso estivesse tudo certo, assinasse.
Assim eu fiz.
Li atentamente cada palavra digitada naquelas folhas e me surpreendi com o tanto de zeros contidos na descrição do meu salário. Se for verdade, isso resolveria toda a minha vida. Finalmente conseguirei pagar um tratamento adequado para a vovó.
— Está tudo certo, senhorita Stuart? — provavelmente ela percebeu meu espanto.
— Sim, só não tenho certeza se esse valor está correto... Penso que é demais para uma simples secretária. — comento desconcertada.
Zoe sorri de lado.
— Está mais do que correto! E você não é apenas uma secretária qualquer, a partir de hoje trabalhará diretamente com o chefe. O dono de tudo isso aqui. — ela responde com exagero, gesticulando, como se me mostrasse a proporção que tem a empresa.
— Mas... — tento retrucar, porém, sou impedida.
— Nada de mas — Zoe se aproxima de mim — Sei que não nos conhecemos ainda, Madison... — me surpreendo ao ouvi-la falar meu primeiro nome — Mas eu vejo muito potencial em você. E você precisa começar a ver isso também, Collin detesta ver funcionários se autodepreciando, então a primeira lição que precisa aprender aqui é essa. Você pode tudo! — arqueio as sobrancelhas.
Sorrio, porque mesmo sem conhecê-la, percebo que ela tem um talento nato para alegrar as pessoas ao seu redor. Tanto que já me sinto à vontade com ela.
Meneio a cabeça em concordância ao que acabara de dizer, ainda sorrindo.
— Você tem razão. — ela sorri, mostrando seus dentes perfeitamente alinhados e pisca para mim.
Confiro o restante das informações contidas em meu contrato e assino.
— Prontinho, Zoe. — levanto, organizando os papéis sobre a mesa.
— Ok, Madison. Posso te chamar assim? — ela pergunta com certo receio.
— Claro, Zoe. — sorrio sem mostrar os dentes.
— Bem-vinda a Campbell Technology. — damos um aperto de mãos.
— Obrigada! Até amanhã. — me direciono a saída com o coração repleto de gratidão.
Passo pela frente da porta do escritório do chefe, e como se um ímã me puxasse, olho para lá. No mesmo instante, como se notasse minha presença do lado de fora, vejo a maçaneta girando e eu apresso meus passos, saindo antes de ser vista.
Me encosto numa parede, ofegante e com a mão no peito, esperando-o passar. Assim que ele passa com a cabeça abaixada, mexendo no celular e o perco de vista, caminho até a saída do prédio.
Vou pela escada mesmo para não arriscar me esbarrar com ele novamente.
Assim que chego do lado de fora, respiro fundo o ar que nem sabia estar prendendo e chamo um táxi, para ir à lanchonete me acertar com a Hannah. E já preparando meus ouvidos para os berros da Chloe.