Houve um tempo em que ser vista era ameaça. Não porque eu tivesse algo a esconder, mas porque toda visibilidade vinha acompanhada de julgamento. Olhares que mediam. Olhares que corrigiam. Olhares que exigiam que eu explicasse o direito de estar ali. Ser vista significava ser avaliada — e quase nunca aprovada. Naquele dia, entendi que isso tinha mudado. Eu estava sentada perto da praça, num horário em que o movimento cresce e os comentários costumam circular mais soltos. Escolhi aquele lugar conscientemente. Não por provocação, mas por teste. Queria observar o que acontecia quando eu não me escondia, quando não buscava cantos seguros, quando não reduzia minha presença. Os olhares vieram. Como sempre vieram. A diferença é que eu não senti vontade de desaparecer. Um homem me encarou por

