Eu aprendi a me encolher antes mesmo de aprender a me defender. Era automático. Ombros levemente curvados, passos menores, risada contida. Um corpo grande tentando parecer discreto para não incomodar. Para não provocar. Para não existir demais. Passei anos achando que isso era educação. Hoje sei que era sobrevivência. Naquele dia, percebi que tinha desaprendido. Entrei no ônibus e ocupei o espaço que meu corpo pedia, não o que esperavam que eu aceitasse. Não forcei ninguém. Não invadi. Apenas não me diminui. Sentei como quem tem direito de estar ali. As pernas firmes, a coluna ereta, a respiração solta. Um homem fez um comentário baixo, direcionado a ninguém e a todos: — Tem gente que não sabe se encaixar. Não respondi. Não ajustei postura. Não pedi desculpa com o olhar. Permaneci.

