QUANDO A OFENSA MORRE NA GARGANTA DE QUEM FALA

1029 Palavras

A primeira vez que percebi foi pelo silêncio. Não o silêncio confortável, nem o constrangido. Era outro — curto, seco, interrompido no meio da frase. A ofensa tinha sido preparada, afiada, pronta para atravessar. Mas não encontrou onde pousar. Morreu antes de sair inteira. Eu estava parada perto da escadaria, esperando alguém terminar de falar comigo, quando ouvi o começo: — Essa aí… A frase não seguiu. Olhei de lado, sem pressa. Não como quem desafia, mas como quem existe. O homem que tinha iniciado o comentário engoliu o resto. Tossiu. Olhou para o chão. O amigo dele mudou de assunto rápido demais. Não houve vitória. Houve deslocamento. A ofensa tinha ficado sem destino. Passei a notar esse fenômeno com mais frequência. Não porque as pessoas tivessem se tornado melhores, mas porq

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