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Itália, 2008.
— Michele, você acha mesmo necessário que eu leve minha família para fora do país?
Ele não respondeu de imediato. Ficou me encarando por um momento, com aquela calma que sempre me intimidou mais do que qualquer grito.
— Sim. E mesmo sendo meu Consigliere, mesmo sendo meu amigo de tantos anos, não vou aceitar contestação.
Engoli em seco.
— Claro. Você é o Capo.
— Sua esposa é brasileira.
Ele se levantou, foi até a janela.
— Já temos uma casa lá. Você vai comandar nossos negócios a partir de São Paulo.
— E meu filho? Eu estava preparando o Rodrigo para me substituir.
Michele virou para mim com uma expressão que não era c***l — era apenas definitiva.
— Rodrigo fica aqui. Vou continuar o treinamento dele pessoalmente. Ele será um elo importante entre nós.
— Uma pausa.
— E também uma garantia de que você nunca vai esquecer do nosso acordo.
Não disse nada. Não havia nada a dizer.
— Rocco.
Ele veio até mim e pousou a mão no meu ombro.
— Cuide bem da sua filha. Quando ela completar dezoito anos, quero que esteja pronta para ser esposa do meu filho.
Senti o peso daquelas palavras pousar em algum lugar fundo no peito. Lara tinha dois anos. Dois anos e já tinha um destino escolhido por mim sem que ela soubesse, sem que pudesse escolher.
— Vou cumprir minha parte, Michele.
Nos abraçamos. E eu fui para casa.
Cristina veio me receber na entrada com Lara no colo, como sempre fazia quando eu demorava.
Havia algo naquela cena — à luz da tarde entrando pela janela, minha filha estendendo os braços para mim com aquele sorriso sem dentes — que me fez parar por um segundo antes de entrar.
Peguei Lara e a segurei com força. Ela cheirava a talco e a vida era simples, e eu estava chegando de uma reunião que acabava de mudar o futuro dela para sempre.
— O que foi?
Cristina me estudava com os olhos. Ela sempre soube ler meu rosto melhor do que eu gostaria.
— Aconteceu alguma coisa.
— Aconteceu.
Beijei a bochecha da Lara e a entreguei à babá.
— Vem comigo.
No escritório, fechei a porta. Cristina ficou de pé, com os braços cruzados, esperando.
Conheço minha esposa — aquela postura não era defesa, era preparo.
— Fala logo, Rocco.
— Michele quer que a gente deixe a Itália. Vamos para o Brasil.
Ela não disse nada por um instante. Depois, para minha surpresa, uma expressão que eu não esperava atravessou o rosto dela — não era alegria, mas era algo parecido com alívio.
— O Brasil.
Ela repetiu baixinho, como se estivesse testando o peso da palavra.
— Vou ver minha mãe.
— Vai.
Ela assentiu devagar. E então olhou para mim com aqueles olhos verdes que ainda me desfaziam depois de dois anos.
— Tem mais. Eu conheço você.
Respirei fundo.
— Rodrigo não vai com a gente.
O silêncio que se seguiu foi diferente. Mais pesado.
— Como assim?
— Ele fica aqui. Michele vai terminar o treinamento dele. É parte do acordo.
— Rocco…
A voz dela falhou.
— Ele é um menino. Você vai deixar seu filho aqui sozinho?
— Não é uma escolha minha, Cristina.
— Sempre é uma escolha!
Ela não gritou, mas a intensidade foi a mesma.
— Você escolheu entrar nessa vida. Você escolheu continuar. E agora está me dizendo que seu filho vai pagar por isso?
Não respondi. Porque ela tinha razão, e nós dois sabíamos disso.
Ela virou para a janela. Ficou assim por um tempo. Quando falou de novo, a voz estava mais controlada, mas eu ouvia o esforço por trás disso.
— Tem mais alguma coisa que você precisa me contar?
— Lara foi prometida para o filho de Michele. Antônio Miori. O futuro Capo.
Cristina se virou devagar. Me encarou.
— Ela tem dois anos.
— Eu sei.
— Você prometeu nossa filha de dois anos para um homem que ela nunca viu na vida.
— Quando ela completar dezoito anos, vão buscá-la. Até lá, ela fica com a gente.
Senti como aquelas palavras soavam vazias enquanto as dizia.
— São dezesseis anos, Cristina.
— Dezesseis anos que vão passar.
Ela se aproximou de mim, e havia algo nos olhos dela que era mais triste do que raiva.
— Você ouviu o que acabou de dizer? Dezesseis anos para preparar nossa filha para uma vida que ela não escolheu. Igual a mim.
A palavra pousou entre nós como uma pedra.
Eu a havia sequestrado. Havia feito dela minha esposa à força. E ela me havia perdoado — ou pelo menos tinha dito que sim — mas naquele momento eu entendi que certas coisas a gente carrega mesmo depois do perdão.
— Cristina…
— Não.
Ela levantou a mão.
— Não precisa pedir desculpa agora. Já sei que não tem como mudar.
Ela suspirou, e naquele suspiro havia uma resignação que me partiu mais do que qualquer briga.
— Vamos cria-la com amor. Vamos dar a ela tudo que pudermos nesses dezesseis anos. E vamos torcer para que o tal Antônio seja um homem decente.
Fui até ela e a abracei. Ela demorou um segundo, mas correspondeu.
— Eu te amo
disse baixinho no cabelo dela.
— Eu sei
ela respondeu. E não disse mais nada.
Rodrigo estava no campo de tiro quando o encontrei. Fiquei observando sem que ele me visse — a postura, a concentração, a forma como segurava a arma com uma naturalidade que ele não tinha há dois anos atrás.
Meu filho estava se tornando um homem dentro desse mundo, e eu não sabia se deveria ter orgulho ou culpa por isso.
Quando terminou a sequência, ele me viu e abriu um sorriso.
— Pai. Veio me ver treinar?
— Vim falar com você.
Ele leu meu rosto da mesma forma que a mãe costumava ler — e o sorriso foi diminuindo aos poucos.
— O que foi?
— Michele me transferiu para o Brasil.
Não havia jeito suave de dizer aquilo.
— Você vai ficar aqui.
Rodrigo ficou quieto. Eu o via lutar contra alguma coisa por dentro — a criança que ainda era contra o homem que estava aprendendo a ser.
— É uma ordem?
Ele perguntou, por fim.
— É.
Ele assentiu. Devagar, como alguém que está digerindo algo grande demais.
— Então temos que cumprir.
Me aproximei e o abracei. Ele ficou rígido por um segundo — esse orgulho de adolescente que não quer demonstrar fraqueza — e depois cedeu. E chorou. Chorou como não chorava desde que a mãe tinha morrido, e eu deixei, com a mão nas costas dele, sem dizer nada, porque não havia palavras à altura daquele momento.
Quando se afastou, limpou o rosto com as costas da mão e respirou fundo.
— Vou falar com meu padrinho sobre onde vou ficar.
A voz já estava firme de novo.
— Acho que ele vai me colocar com o Antônio.
— Provavelmente.
— É bom. Já o considero um irmão.
Pus a mão no rosto do meu filho.
— Tenho muito orgulho de você, Rodrigo.
Sempre tive.
Ele assentiu, sem conseguir falar.
Tudo aconteceu rápido depois disso. As malas, as despedidas, as últimas horas numa casa que tinha sido meu lar por tantos anos.
Quando me dei conta, estava dentro do jatinho, olhando pela janela escura enquanto a Itália ficava para trás.
Cristina dormia na cama estreita com Lara aninhada no peito. Minha filha tinha a mão aberta sobre o coração da mãe, como se mesmo dormindo precisasse sentir que ela estava ali.
Pensei em Rodrigo. Na expressão dele, quando tentou não chorar.
Pensei em Lara, que não saberia por anos que o mundo já tinha planos para ela.
E pensei em Cristina, que havia me dito uma vez que me perdoava — e que hoje, pela primeira vez, eu entendi o quanto esse perdão tinha custado a ela.
Fechei os olhos e rezei como não fazia há anos.
Nossa Senhora, me ajude a não estragar o que ainda tenho.