Pré-visualização gratuita Capítulo 1 - O Homem na Estrada
— Se esse professor pedir mais uma citação da Constituição, eu juro que largo Direito e viro bartender. — Lívia jogou a caneta na mesa e se jogou para trás na cadeira.
— Drama. — Marina nem levantou os olhos do notebook. — São só dez páginas.
— Dez páginas escritas à mão. À mão, Marina. Em pleno século vinte e um.
Valentina riu, mas a risada não durou muito. Estava sentada na cama, o celular largado ao lado, expressão distante demais para quem costumava ser a mais barulhenta do grupo.
— Eu escreveria cinquenta páginas pela paz lá em casa.
Lívia parou de girar a cadeira.
— Está tão r**m assim?
Valentina deu de ombros.
— Eles não se falam sem brigar. É como se qualquer coisa virasse motivo. Eu não sei em que momento tudo desandou.
Marina fechou o notebook dessa vez.
— Você acha que tem outra pessoa?
Valentina negou rápido demais.
— Não. Se tivesse, minha mãe já teria feito um escândalo histórico.
Lívia mordeu o canto do lábio. Conhecia aquela casa desde pequena. Dormidas de sexta, aniversários. Chamava Lilian de tia desde os nove anos.
O pai da Valentina… era uma memória mais vaga.
Nos primeiros anos ele estava sempre ali, jovem demais para parecer pai, rindo alto, participando de tudo. Depois foi ficando cada vez mais ausente. Escritório. Reuniões. Porta batendo cedo demais.
A partir dos doze anos, ele tinha virado apenas isso: um carro saindo antes do café da manhã.
— Às vezes as pessoas só deixam de dar certo — Lívia disse, dando de ombros. — Não precisa ter vilão.
Valentina suspirou.
— Eu queria que fosse só uma fase.
O relógio marcava quase nove quando ela pegou a mochila.
— Eu preciso ir. Minha mãe já deve estar na porta.
— Eu te levo. — Lívia levantou antes que ela protestasse.
— Não precisa…
— Precisa sim. Eu preciso de uma desculpa para fugir desse trabalho.
Marina riu.
— Heroína.
— Só faço isso por você, Vale. — Lívia piscou.
O caminho até a casa foi silencioso. A música tocava baixa demais para preencher o clima.
Quando estacionaram, o portão já estava aberto.
Lilian esperava do lado de fora, braços cruzados, postura elegante mesmo no cansaço.
O sorriso surgiu assim que reconheceu o carro.
— Boa noite, tia Lilian.
— Lívia, minha filha. Obrigada por trazer essa criatura.
Valentina revirou os olhos, mas foi direto para o abraço da mãe.
— Mãe… o papai já chegou?
Houve uma pausa curta. Pequena. Mas perceptível.
O sorriso de Lilian demorou um segundo a mais do que deveria.
— Ainda está no escritório. Você sabe como ele é.
— Ele sempre está no escritório — Valentina murmurou.
Lilian ignorou o comentário.
— Lívia, entra para jantar com a gente.
Por um instante, Lívia quase aceitou. Aquela casa já foi extensão da dela.
Mas parecia silenciosa demais.
— Hoje não, tia. Minha mãe já deve estar me esperando.
Lilian assentiu.
— Dirige com cuidado.
Lívia acenou, deu partida e saiu.
Dez minutos depois, o volante vibrou forte.
O barulho seco do estouro ecoou na rodovia.
— Ah, não… — ela murmurou, encostando no acostamento.
Lívia saiu do carro e caminhou até o pneu traseiro.
Murcho. Completamente.
— Claro. Perfeito. Era só o que faltava.
Lívia abriu o porta-malas devagar demais.
O estepe estava ali. O macaco também. Ferramentas que pareciam exigir um tipo de conhecimento que ela definitivamente não possuía.
A rodovia estava quase vazia. O vento da noite soprava frio contra a pele exposta dos braços. Ela olhou ao redor e sentiu, pela primeira vez, o peso real de estar sozinha.
Sem celular.
Sem ajuda.
Sem ideia do que fazer.
— Perfeito — murmurou para si mesma.
O som de um carro se aproximando fez seu corpo enrijecer automaticamente.
Faróis altos iluminaram tudo. O acostamento, o carro, o rosto dela. Ela levou a mão ao rosto para proteger os olhos.
O carro diminuiu. Parou.
O coração dela disparou tão rápido que chegou a doer. Ótimo. Era assim que as histórias ruins começavam.
A porta abriu. O som de sapatos no asfalto.
Passos firmes, controlados. Não apressados. Não hesitantes.
— Boa noite.
A voz veio antes que ela decidisse se corria ou fingia confiança.
Ela abaixou a mão devagar. E por um segundo, o medo perdeu força.
Ele não tinha a aparência de ameaça. Muito pelo contrário. Terno grafite impecável, gravata levemente afrouxada. O tipo de homem que parecia mais deslocado ali do que ela.
Mas aparência não era garantia de nada.
Ela cruzou os braços, numa tentativa de recuperar o controle.
— Depende — respondeu. — Você costuma parar em rodovias escuras para abordar mulheres sozinhas?
A pergunta saiu mais firme do que ela realmente se sentia.
Ele arqueou uma sobrancelha, surpreso. O canto da boca dele se ergueu devagar.
— Só quando elas parecem estar prestes a declarar guerra contra o próprio carro.
O comentário arrancou dela um quase sorriso. Quase.
Ele manteve distância. Não se aproximou além do necessário.
— Precisa de ajuda?
Ela hesitou.
Se ele fosse embora, talvez ninguém mais parasse. Talvez o próximo carro não tivesse o mesmo tom de voz.
— Meu pneu estourou. — Ela apontou para trás. — E eu esqueci o celular em casa, porque claramente tomo decisões brilhantes sob pressão.
O olhar dele desceu até o pneu, avaliando a situação com calma prática.
— Tem estepe?
— Tem. Eu só… não sei usar.
Ele soltou um riso baixo, sem deboche.
— Posso trocar para você.
A simplicidade com que ele disse aquilo a desarmou um pouco. Não havia insistência. Nem segunda intenção explícita.
Apenas certeza.
Ele tirou o paletó com movimentos fluidos, dobrou com cuidado e colocou sobre o capô do próprio carro. Arregaçou as mangas da camisa com naturalidade, como se aquilo fosse rotina.
Ela percebeu, com um leve incômodo, que ele era mais alto de perto. Ombros largos. Postura reta. Seguro demais para alguém que acabara de parar numa rodovia para ajudar uma desconhecida.
— Você mora por aqui? — ele perguntou enquanto soltava os parafusos.
— Não. Vim deixar uma amiga.
— Tarde demais para isso.
— Eu sou adulta. — Ela inclinou a cabeça. — Tecnicamente.
Ele levantou o olhar para ela.
Havia algo ali. Não julgamento. Não condescendência.
Avaliação.
— Quantos anos?
— Dezenove.
O silêncio durou um segundo a mais.
— Imaginei.
— O quê? Que eu era irresponsável?
— Que você era nova demais para estar parada sozinha numa rodovia escura.
A preocupação na voz dele era real. Não teatral.
E aquilo a afetou mais do que deveria.
Ela se aproximou um passo, curiosa apesar de si mesma.
— E você? Qual é a sua idade misteriosa?
Ele encaixou o estepe com precisão antes de responder.
— Velho o suficiente para saber que certas coisas não valem o risco.
— Isso é resposta de quem tem mais de trinta.
Ele riu, breve.
— Talvez.
Ela percebeu que queria que ele dissesse.
Queria que ele falasse mais.
Ele terminou de apertar os parafusos e se levantou.
Quando ficou totalmente ereto, a diferença de altura ficou evidente. A proximidade trouxe outro detalhe: cheiro discreto de perfume, algo amadeirado e limpo.
Perigoso.
— Já que eu salvei sua noite — ele disse — posso saber seu nome?
Ela hesitou. Não costumava entregar informações pessoais a estranhos.
Mas aquele já não parecia completamente estranho.
— Lívia.
Ele repetiu o nome como se testasse o som.
— Lívia.
O jeito como falou fez algo estranho vibrar dentro dela.
— E o seu? — ela perguntou.
Ele a encarou com um olhar que parecia medir a resposta.
— Henrique.
Só isso.
— Só Henrique?
Um pequeno sorriso.
— Por enquanto.
O vento soprou entre eles, trazendo o som distante de um carro passando.
— Eu sei que pode parecer direto demais — ele começou — mas eu gostaria de te convidar para jantar.
O coração dela tropeçou.
— Você sempre convida mulheres que conhece há quinze minutos?
— Não.
A resposta veio firme. Sem brincadeira.
— Só quando eu sinto que deveria ter conhecido antes.
Ela respirou fundo.
— Você é casado?
Ele não desviou o olhar. Nem por um segundo.
— É complicado.
— Isso normalmente significa sim.
Ele assentiu devagar.
— Significa que eu estou me separando. Há algum tempo. Não é simples.
Não havia vergonha na voz dele. Nem culpa exagerada.
Apenas cansaço.
Ela estudou o rosto dele. Não parecia homem em busca de aventura.
Parecia homem cansado demais de alguma coisa.
— Eu não me envolvo com homem casado.
— Eu não te convidaria se ainda estivesse dentro de um casamento de verdade.
A firmeza com que disse aquilo mexeu com ela.
Silêncio.
A decisão pairava no ar.
— Bom… você já pode voltar a confiar no seu carro.
Lívia observou o pneu novo como se aquilo fosse um pequeno milagre técnico.
— Eu devia aprender a fazer isso.
— Devia. — Ele apoiou as mãos na cintura por um instante. — Mas fico satisfeito de ter sido útil hoje.
Ela assentiu.
O momento natural seria agradecer e entrar no carro.
Mas nenhum dos dois se moveu.
O silêncio entre eles não era desconfortável. Era carregado.
Ele enfiou a mão no bolso interno do paletó, tirou uma caneta e um cartão.
Escreveu algo no verso.
Estendeu para ela.
— Meu número.
Ela não pegou de imediato. Ainda era um estranho.
— Você distribui isso assim pra qualquer uma que encontra na estrada?
O canto da boca dele se ergueu.
— Não.
Ela pegou o cartão.
Henrique.
Sem sobrenome na frente.
No verso, o número escrito à mão.
A caligrafia firme.
— Me manda uma mensagem quando chegar em casa.
Ela arqueou a sobrancelha.
— Confiante da sua parte achar que eu vou mandar.
— Não é confiança. — Ele inclinou levemente a cabeça. — É só pra eu saber que você chegou viva.
Aquilo não soou como charme. Soou genuíno.
Ela desviou o olhar por um segundo, desconcertada.
— Talvez eu mande.
Ele aceitou a resposta com um pequeno sorriso.
Ela abriu a porta do carro, mas parou antes de entrar.
— Isso não vai arranjar problema com a sua esposa?
A pergunta saiu direta. Sem rodeios. Ele não demonstrou irritação.
— Não.
— Não? — ela insistiu.
— Eu vou chegar em casa e contar o que aconteceu aqui.
— Contar o quê? — ela cruzou os braços. — Que deu em cima de mim numa rodovia?
Ele riu de verdade dessa vez, o som baixo e inesperadamente leve.
— Eu não dei em cima de você. Troquei seu pneu.
Ela inclinou a cabeça, desafiadora.
— E me chamou pra jantar.
— Que você não aceitou — ele completou, ainda sorrindo.
O vento passou entre eles outra vez.
Ela entrou no carro. Ele deu um passo para trás, respeitando o espaço.
— Dirige com cuidado, Lívia.
O jeito como disse o nome dela fez algo estranho apertar no peito.
Ela fechou a porta.
Enquanto dava partida, viu pelo retrovisor ele ainda parado ali, mãos nos bolsos, observando.
Impecável.
Controlado.
E perigosamente interessante.
Quando virou na pista, percebeu que o pneu furado já não era a parte mais imprevisível da noite.
**
Henrique dirigiu o restante do caminho em silêncio.
A rodovia foi ficando para trás, substituída pelas ruas conhecidas do bairro onde morava havia anos. Casas alinhadas, postes de luz amarelados, árvores projetando sombras tortas sobre o asfalto. Tudo parecia exatamente como sempre.
E ainda assim, algo não estava.
Ele não costumava parar para desconhecidas. Não costumava oferecer ajuda que não fosse estritamente necessária. E definitivamente não costumava convidar alguém para jantar quinze minutos depois de conhecê-la.
Mas havia algo na forma como ela sustentou o olhar. Na maneira como disse “eu não me envolvo com homem casado” sem baixar a cabeça. No jeito firme e quase debochado de existir.
Lívia.
O nome ecoava com facilidade incômoda.
Ele estacionou em frente à própria casa e desligou o motor. A fachada iluminada pela luz da varanda parecia exatamente como em qualquer outra noite. A janela da sala estava acesa. As cortinas fechadas.
Respirou fundo antes de sair do carro.
A maçaneta da porta girou antes mesmo que ele colocasse a chave.
Valentina apareceu primeiro.
Cabelos soltos sobre os ombros, camiseta larga, expressão que misturava alívio e cobrança.
Os olhos dela percorreram o rosto do pai como se avaliassem detalhes invisíveis.
— Pai, você demorou.
Henrique sustentou o olhar da filha por um segundo a mais do que o habitual.
Naquela noite, a rodovia tinha sido simples.
A parte difícil começava ali.
Ele forçou um meio sorriso, aproximando-se da porta.
— Tive um imprevisto no caminho.
Valentina abriu espaço para que ele entrasse.
E enquanto cruzava o limiar da própria casa, Henrique teve a sensação estranha de que, pela primeira vez em muito tempo, algo realmente tinha saído do controle.