Na pitoresca cidade de Iúna, no interior do Espírito Santo, o dia primeiro de maio de 1990 amanheceu com uma promessa especial. Naquele dia, em meio à tranquilidade e ao ritmo sereno da vida capixaba, nasceram duas garotinhas destemidas, enchendo de alegria e esperança o coração de seus pais. O choro das pequenas, a quem daria o nome de Juh e July, ecoou como uma melodia festiva, anunciando a chegada de uma nova fase para aquela família. Juh e July, desde seus primeiros instantes, pareciam trazer consigo a força e a leveza de quem estavam destinadas a trilhar um caminho de descobertas e muitas aventuras.
A chegada das meninas eram um sopro de esperança em meio aos desafios. Dona Ana, com os olhos marejados de emoção, segurava a Juh em um braço e a July no outro, sentindo seus pequenos corpos aquecerem seu peito. Ao lado dela, Seu José, com o rosto marcado pelo trabalho árduo no campo, observava a cena com um sorriso exausto, mas pleno.
Seu José sussurrou com a voz embargada: “São tão pequenas, Ana, mas já trazem tanta luz.”
Ana, afagando os cabelos ralos das bebês, respondeu: “Nossas meninas vieram para nos dar força, José. Tenho certeza disso.”
A verdade é que a família de Juh passava por muitas dificuldades. Naquele ano de 1990, a época do seu nascimento coincidia com o período de colheita de café, a principal fonte de renda.
A lavoura de Seu José era predominantemente cafeeira, pois o café sempre foi o carro-chefe da economia agrícola do município e de boa parte do Espírito Santo, impulsionando a movimentação de terras e o capital no comércio local. Além do café, as pequenas propriedades rurais também cultivavam outras culturas, principalmente para o seu autoconsumo e para alimentar os animais.
As principais lavouras temporárias que faziam parte desse cenário eram o milho, que era frequentemente plantado em consórcio com o café, e o feijão, essencial para a subsistência das famílias. A pecuária, tanto a leiteira quanto a de corte, também era uma atividade importante na região, complementando a renda e garantindo o sustento.
Apesar das incertezas do campo e da luta diária, a presença das crianças renovaram as energias de Ana e José. Eles sabiam que a vida no interior não era fácil, mas a chegada das filhas os enchia de um novo propósito, uma chama de esperança para os dias que viriam.
Ana e Seu José tinham outra filha, Joyce, que, enquanto a mãe estava no hospital para dar à luz a Juh e July, ficou sob os cuidados da tia Selena, na casa ao lado.
July não sabia que sua mãe havia dado a luz a duas meninas, para ela seria apenas uma, mas até para a Ana foi uma surpresa, que dirá para a pequena Joyce.
A porta rangeu suavemente quando Ana e José finalmente retornaram. No colo de Ana, enrolada em um cobertor macio, estava a pequena Juh e no colo do seu José a July.
De repente, Joyce, que brincava no terreiro, ergueu os olhos e viu a cena. Seus olhos se arregalaram, e um sorriso enorme se abriu em seu rosto.
Joyce: “Mamãe!”, ela gritou, e com a leveza dos seus cinco anos (quase seis), correu em disparada.
Joyce parou bem em frente à mãe, com os olhos fixos na trouxinha que Ana segurava:
Joyce: “É ela, mamãe? É a minha irmãzinha?”, perguntou com a voz cheia de expectativa.
Ana se abaixou um pouco, com cuidado, para que Joyce pudesse ver melhor. “É sim, minha filha. Essa é a sua irmãzinha, a Juh.”
Joyce se aproximou, esticando a mãozinha com delicadeza para tocar o rostinho adormecido de Juh. “Ela é tão pequenininha!”, sussurrou, admirada.
De repente seu José aparece e mostra a outra deixando Joyce espantada .
Joyce: Ué mamãe, são duas meninas ?
Ana : É sim filha
Joyce ficou ainda mais contente com chegada de irmãs em dose dupla .
Nos dias que se seguiram, a chegada de Juh e July transformou a rotina da casa. Joyce, com seu espírito prestativo, logo se tornou a grande auxiliar da mãe. Era ela quem ajudava a trocar as fraldas de pano, sempre com a paciência e a destreza de uma mini-enfermeira. Depois, veio a missão mais desafiadora: lavar as roupas sujas. E olha que aquelas fraldas tinham que ficar brancas igual uma neve! Joyce esfregava com afinco, sob o olhar atento de Ana, e depois ajudava a estender naquele varal de arame, esticando cada pedacinho de tecido para que o sol fizesse o seu trabalho.
“Assim, Joyce. Mais pra cá, pra pegar bem o sol”, Ana orientava, enquanto a menina, com um banquinho, alcançava o arame e pendurava as fraldas molhadas, imaginando que cada uma delas era uma pequena nuvem branquinha no céu azul de Iúna. Era um trabalho duro, mas feito com o amor e a alegria de quem recebia um novo pedacinho de vida em casa.
Assim, Juh e July iam crescendo e aprendendo a vida no campo. Seus primeiros passos foram no terreiro de terra batida, seus olhos curiosos se acostumando com a imensidão verde das plantações. E logo veio um marco importante:
O batizado das meninas. A madrinha escolhida foram suas vizinhas queridas da fazenda próxima, uma mulher de coração grande e riso fácil chamada Lisete, a Lisete foi a madrinha da Juh, enquanto a dona Geralda foi a madrinha da July.
Dona Ana e Seu José sempre iam à fazenda delas para pegar leite fresco para as crianças, um ritual que se repetia todos os dias da semana. De vez em quando, essas idas se transformavam em uma visita mais longa à casa da Dona Geralda e Seu João, momentos de prosa e café recém passado. No entanto, para chegar lá, a família precisava enfrentar uma verdadeira aventura.
O problema é que, para chegar na casa de Seu João e Dona Geralda, eles tinham que atravessar um campo cheio de vacas e bois. Os animais, com seus olhares curiosos e por vezes um tanto intimidadores, pareciam ter uma cara de quem queria correr atrás de alguém, o que tornava a passagem uma corrida silenciosa e cheia de apreensão. Mas depois de atravessar aquele obstáculo das vacas, tinha que enfrentar outro desafio: a pinguela sem corrimão. Uma tora de árvore rústica, escorregadia e estreita, que servia de ponte sobre o rio.
Tanto a Juh ,July quanto a sua irmã Joyce morriam de medo ao atravessar aquela ponte.
Juh, ainda pequena, ia no colo de Seu José, agarrada ao pescoço do pai como um coala, enquanto Ana segurava firme na mão de July. A Joyce, então, atravessava com passos de tartaruga, um pé após o outro, os olhos fixos na tora e o corpo tenso. Cada centímetro conquistado era uma vitória.
“Vamos, Joyce, você consegue!”, Dona Ana incentivava, segurando a risada.
Seu José balançava a cabeça, divertindo-se com a cena. “Parece que está pisando em ovos, filha!”
E todos riam com a cena, observando a cautela exagerada de Joyce, que transformava a travessia da pinguela em um espetáculo à parte. Era um medo genuíno, mas que, de alguma forma, unia ainda mais a família em suas pequenas aventuras diárias no coração do campo.