Levien Ivanov não costumava se distrair.
Ele observava o salão do alto da escadaria, postura impecável, mãos cruzadas atrás do corpo. Pessoas passavam por ele com respeito silencioso, algumas com medo m*l disfarçado. Ainda assim, seus pensamentos retornavam — contra sua vontade — à mulher de seda escura.
O jeito como ela não desviara o olhar.
Como não pedira desculpas em excesso.
Como não tremia.
Interessante.
Ele a encontrou novamente perto das colunas de mármore, conversando com o pai. Não se aproximou de imediato. Observou.
— Quem é ela? — perguntou a um dos homens ao lado.
— Convidada de confiança. Família antiga — respondeu. — Discreta.
Levien assentiu, mas algo nele permanecia alerta.
Quando ela se afastou do pai, ele se moveu.
— Não achei que nos encontraríamos de novo tão cedo — ele disse, surgindo ao lado dela.
Ela virou-se devagar.
— Este lugar é feito de encontros indesejados — respondeu. — Alguns mais interessantes que outros.
Ele inclinou a cabeça, claramente intrigado.
— Você fala como alguém que não teme consequências.
— E você fala como alguém que está acostumado a ser temido.
O silêncio entre eles se estendeu. Não era desconfortável. Era carregado.
— Venha — ele disse, oferecendo o braço. — Antes que alguém note demais.
Ela hesitou apenas um segundo antes de aceitar.
O toque era controlado. Distante o suficiente para ser apropriado. Próximo o bastante para ser íntimo demais. Enquanto caminhavam pelo salão, os olhares se voltavam para eles — curiosos, atentos, desconfiados.
— Você sabe quem eu sou? — ele perguntou.
— Sei o suficiente para entender que deveria manter distância — ela respondeu. — E ainda assim estou aqui.
Ele sorriu de leve. Um gesto raro. Perigoso.
— Isso pode te custar caro.
— Ou pode ser a coisa mais honesta que fiz essa noite.
Eles pararam perto de uma sacada. A música soava mais distante ali.
— Você não pertence a este mundo — ele disse, analisando-a com franqueza. — Mas caminha como se fosse feita para ele.
Ela sustentou o olhar.
— E você pertence demais — respondeu. — Isso é o que mais me assusta.
O silêncio voltou a se instalar, pesado e íntimo.
Levien se aproximou um pouco mais, a voz baixa o suficiente para ser só dela.
— Se ficar perto de mim, vai aprender que o perigo não avisa quando chega.
Ela não recuou.
— Então não chegue silencioso — disse. — Olhe nos meus olhos quando vier.
Por um instante, algo nele vacilou.
E naquele baile de máscaras, ambos perceberam:
aquilo não era apenas curiosidade.
Era o início de algo que poderia destruí-los.