Capítulo 2 - olhares que não devem ficar

439 Palavras
Levien Ivanov não costumava se distrair. Ele observava o salão do alto da escadaria, postura impecável, mãos cruzadas atrás do corpo. Pessoas passavam por ele com respeito silencioso, algumas com medo m*l disfarçado. Ainda assim, seus pensamentos retornavam — contra sua vontade — à mulher de seda escura. O jeito como ela não desviara o olhar. Como não pedira desculpas em excesso. Como não tremia. Interessante. Ele a encontrou novamente perto das colunas de mármore, conversando com o pai. Não se aproximou de imediato. Observou. — Quem é ela? — perguntou a um dos homens ao lado. — Convidada de confiança. Família antiga — respondeu. — Discreta. Levien assentiu, mas algo nele permanecia alerta. Quando ela se afastou do pai, ele se moveu. — Não achei que nos encontraríamos de novo tão cedo — ele disse, surgindo ao lado dela. Ela virou-se devagar. — Este lugar é feito de encontros indesejados — respondeu. — Alguns mais interessantes que outros. Ele inclinou a cabeça, claramente intrigado. — Você fala como alguém que não teme consequências. — E você fala como alguém que está acostumado a ser temido. O silêncio entre eles se estendeu. Não era desconfortável. Era carregado. — Venha — ele disse, oferecendo o braço. — Antes que alguém note demais. Ela hesitou apenas um segundo antes de aceitar. O toque era controlado. Distante o suficiente para ser apropriado. Próximo o bastante para ser íntimo demais. Enquanto caminhavam pelo salão, os olhares se voltavam para eles — curiosos, atentos, desconfiados. — Você sabe quem eu sou? — ele perguntou. — Sei o suficiente para entender que deveria manter distância — ela respondeu. — E ainda assim estou aqui. Ele sorriu de leve. Um gesto raro. Perigoso. — Isso pode te custar caro. — Ou pode ser a coisa mais honesta que fiz essa noite. Eles pararam perto de uma sacada. A música soava mais distante ali. — Você não pertence a este mundo — ele disse, analisando-a com franqueza. — Mas caminha como se fosse feita para ele. Ela sustentou o olhar. — E você pertence demais — respondeu. — Isso é o que mais me assusta. O silêncio voltou a se instalar, pesado e íntimo. Levien se aproximou um pouco mais, a voz baixa o suficiente para ser só dela. — Se ficar perto de mim, vai aprender que o perigo não avisa quando chega. Ela não recuou. — Então não chegue silencioso — disse. — Olhe nos meus olhos quando vier. Por um instante, algo nele vacilou. E naquele baile de máscaras, ambos perceberam: aquilo não era apenas curiosidade. Era o início de algo que poderia destruí-los.
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