O salão já não parecia o mesmo.
A música continuava elegante, os lustres ainda brilhavam, mas algo havia mudado desde que eles começaram a dançar. Para Lays, o mundo parecia reduzido ao espaço entre seu corpo e o dele. Para Levien Ivanov, cada batida da música era um lembrete de que ele estava ultrapassando uma linha que jurara nunca tocar.
A mão dele permanecia firme em suas costas, um pouco abaixo do que seria considerado estritamente adequado. Não o suficiente para chamar atenção — mas o bastante para que ela sentisse cada movimento, cada respiração dele.
— Você dança como se estivesse acostumada a fugir — ele murmurou, a voz baixa, próxima demais do ouvido dela.
Ela ergueu o olhar, os olhos claros fixos nos dele por trás da máscara.
— E você conduz como quem está acostumado a mandar.
Levien arqueou levemente a sobrancelha.
— Isso te incomoda?
— Não — respondeu sem hesitar. — Me deixa alerta.
Ele apertou os dedos por um segundo quase imperceptível, como se aquela resposta tivesse acertado algo profundo.
— Pessoas alertas sobrevivem mais — disse. — Mas também sofrem mais.
— Sofrer não me assusta — ela retrucou. — A indiferença sim.
Eles giraram lentamente, o vestido dela acompanhando o movimento, o tecido roçando contra o terno dele. O toque era inevitável. Intencional demais para ser apenas parte da dança.
Levien inclinou-se um pouco mais.
— Você não deveria falar assim comigo — advertiu, embora o tom traísse a ameaça.
— Por quê? — ela perguntou. — Porque você é perigoso… ou porque gosta disso?
O silêncio entre eles foi pesado.
Ele parou a dança por um instante, segurando-a ali, no meio do salão, como se o mundo tivesse congelado.
— Você não tem ideia de quem está provocando — disse, agora sério.
— Tenho — ela respondeu, sem desviar o olhar. — Alguém que controla tudo… menos o que sente agora.
A respiração dele falhou. Um detalhe mínimo, mas real.
— Você acha que sabe o que eu sinto? — ele perguntou.
— Acho que você odeia sentir qualquer coisa — ela disse suavemente. — E ainda assim não soltou minha mão.
Levien a puxou um pouco mais para perto. Não o suficiente para escândalo. Perto demais para ser seguro.
— Se você continuar assim — murmurou —, vou ter que te afastar.
— Então faça — ela desafiou. — Mas faça agora.
Ele não fez.
Em vez disso, inclinou o rosto, tão próximo que ela pôde sentir o calor da respiração dele contra a pele.
— Você é imprudente — disse.
— E você está curioso — ela respondeu, quase num sussurro.
Por um instante, Levien pareceu esquecer onde estava. Esquecer quem era. Esquecer tudo o que poderia perder.
— Qual é o seu nome? — perguntou, finalmente.
Ela hesitou. Apenas um segundo. O suficiente para mostrar que aquela resposta tinha peso.
— Lays.
O nome ficou suspenso entre eles.
— Lays… — ele repetiu, devagar, como se estivesse gravando o som. — Um nome bonito demais para este mundo.
— Talvez — ela disse. — Ou talvez eu pertença mais a ele do que você imagina.
Antes que ele pudesse responder, uma presença interrompeu o momento. Um dos homens de Levien se aproximou discretamente, inclinando-se para falar em seu ouvido.
— Precisamos conversar — disse em russo. — Agora.
O maxilar de Levien se fechou.
— Espere aqui — ele disse a Lays, soltando-a com relutância.
Ela segurou o braço dele antes que se afastasse.
— Você vai voltar? — perguntou.
Ele olhou para a mão dela em seu braço. Depois para os olhos dela.
— Eu sempre volto — respondeu. — A questão é se você ainda estará aqui.
Ela soltou devagar.
— Vou estar — disse. — Não sou do tipo que foge no meio da dança.
Levien se afastou, mas olhou para trás uma última vez.
E naquele instante, ambos souberam:
aquilo já não era apenas atração.
Era um risco consciente.
E nenhum dos dois pretendia recuar.